Pra que servem os amigos

É o trecho de uma novela que escrevi em 2015, deixei descansar um tempo e agora volto a ela pra finalizar.

Após listar as ocorrências, o radialista comentou, enraivecido, que a juventude estava perdida. Drogas, bebidas, violência, para onde a sociedade local estava caminhando? Para o abismo, disse. “Vejam esse incêndio. O cabo entrevistado afirmou categoricamente que foi criminoso. Criminoso, meus amigos! Você pai, você mãe que me ouve agora. Prestem bem atenção. Vocês acham que seu filho sai de casa de noite pra se divertir, pra namorar e tudo… mas não é nada disso. A nossa juventude sai pra usar drogas, pra fazer rachas nas nossas avenidas, pra promover arruaças nos bares, nas danceterias, nos postos de gasolina… pra quebrar vidros de casas. E esses marginais… Sim! São marginais, não há outra palavra pra descrever eles. São vagabundos! Queimaram uma casa velha. Não bastasse isso, mataram carbonizado um pobre senhor, morador de rua, querido e conhecido por todos na cidade: o velho Mandinga! O velho Mandinga! Era um miserável, que vivia pedindo esmola pelas ruas do centro. Nunca fez mal a ninguém. O Bona, da Lanchonete dos Amigos, todo dia dava pra ele um sanduíche e um copo de café com leite, apiedado com a condição do vivente! Um abraço pro meu amigo Bona que nos ouve nesse momento. Vai passando o café que eu já apareço aí, meu amigo! E olha, vocês não vão acreditar, você pai, você mãe que me ouve. O infeliz dormia com seu companheiro, o cachorro Chulé, um guaipeca sarnento que o seguia na sua mendigação e catação de latinhas.”

Renan mastigava seu pão caseiro com margarina e mortadela quando a notícia entrou pelo seu ouvido. Agora a cidade inteira sabia. Continuou a engolir o seu café da manhã. Comia sozinho. O pai entretido em vincar uma calça de tergal com o ferro de passar roupa. A mãe tomava banho. Um mendigo e um cachorro. Seu pai falou alguma coisa que ele não entendeu.

“O que o senhor disse?”, Renan.

“Falei pra você ir lá no teu tio de tarde ver se tem alguma coisa pra você fazer”, respondeu. “Presta atenção no que eu falo, piá. Senão depois esquece e diz que não ouviu.”

No caminho para o colégio Renan parou para comprar uma carteira de cigarros. Era a primeira vez que fazia isso ali. Entrou, pediu o que queria e saiu, como se o ato fizesse parte da sua rotina. Não reparou no olhar inquisidor que o dono do estabelecimento lhe lançou. O velho não tinha nada com aquilo. Renan pagou, meteu a caixinha na pasta escolar que carregava debaixo do braço e tomou o seu caminho. Duas quadras depois abriu e acendeu um, com um pequeno isqueiro que não lembrava como tinha surgido no bolso da sua calça.

“Ficou sabendo?”, Felipe perguntou quando chegou ao colégio.

“Fiquei!”, Renan.

“Precisamos falar com o Julinho de tarde.”

“Não posso. Tenho umas paradas pra resolver. Trampo de boy pro meu tio no começo do mês, tá ligado? Pra descolar uma grana.”

“Eu vou sozinho, então. Ele convidou a gente pra ir jogar bola lá amanhã. Você vai?”

“Não posso, tenho prova quarta. Ele não ia pra Curita essa semana?”

“Não. Parece que ele não tem aula essa semana.”

“Tudo bem…”, mesmo sem prova não iria. “Quer um?”, lhe ofereceu um cigarro.

“Quero, vamos lá no fundo.”

“Você não viu o Gordo final de semana?”, Renan.

“Não. Está sumido, né? Como se fosse fácil um cara daquele tamanho se esconder.”

Rumaram para trás do prédio. Caminhavam em silêncio, circulando o bloco de salas de aula. Se enfiaram num corredor que ficava entre o prédio e o muro que separa a escola da rua. Uma névoa cinza e densa cobria a cidade, como um mosquiteiro de palha de aço. Acenderam o cigarro quando chegaram atrás da construção. “E a Clara, hein?” Felipe, dando uma tragada profunda que fez dobrar de tamanho a brasa na ponta do bastão de nicotina.

“No quarto da empregada”, Renan.

Felipe contou que tinha ficado com uma menina que estava por lá, cujo nome ele não conseguia recordar. Lembrava ter posto a mão dentro das calças dela, ter feito o escambau, menos o que importava. Tinha acordado no outro dia às três horas da tarde sem saber como tinha chegado na sua cama. “Ainda conferi a mão pra ver se tinha cheiro de borracha, tá ligado!”, Felipe ria. “Que nada! Nem cheiro de buceta tinha”.

Um pingo de água explode no meio do cigarro de Renan. Outro nas costas de sua mão. Porra! Calaram-se, findo o relato de Felipe. Fumavam, olhando para o chão. Caramba! Eagora? Apenas a umidade acumulada que escorria das folhas da árvore acima deles, uma nogueira que crescia teimosa, cuja copa se espalhava sobre o telhado do prédio térreo e o muro da escola. Ainda bem que o cigarro estava acabando. O gosto de nicotina na língua. Precisava de uma bala. Devia ter comprado um chiclete. Renan perguntou se o amigo tinha um. Não tinha. Terminaram de fumar e foram para a sala de aula. Começava a garoar. Assim como vieram, voltaram calados.

Um mendigo e um cachorro. Por que é que ele foi naquela festa? Queria perguntar algo a Felipe. Não sabia bem o quê. Puxa. Um mendigo. Ele não tinha culpa. Não tinha dado a ideia, só foi junto. Mas o que isso fazia dele?