Pra que servem os amigos? (parte xv)

Dinho resolveu entrar no clube logo depois que o vinho tinha chegado. Convidou Renan, que aceitou prontamente. Ele não tinha visto Clara passar por ali. Talvez ela já tivesse entrado, sem jeito de parar e ir chamá-lo no meio da galera. Vai saber? Estava sem dinheiro pra entrar. Não era sócio como o amigo e ela. A namorada de Dinho não saíra naquela noite. Se ele estava tão interessado em entrar era porque já tinha algum esquema engatilhado, e a guria deveria estar lá dentro esperando por ele. Ele sempre tinha uma guria com quem ficava além da namorada regular, aquela com quem passeava de mãos dadas pelo colégio durante algumas semanas.

Estavam a poucos passos da aglomeração na porta de entrada.

“Cara… peraí um pouco”, Renan.

Dinho se deteve.

“Estou sem grana pra entrar. Tenho dinheiro só pra duas cervejas, uma cuba, talvez…”

“Fica susse. Conheço o segurança da entrada. Meu chegado. Ele libera a nossa. Faz seis meses que meu pai não paga a mensalidade. Vou falar que você é um primo meu de fora.”

Dinho se aproximou do segurança da portaria. Cumprimentou o cara efusivamente e disse alguma coisa baixinho, na altura do ouvido. Ele riu e deixou os dois entrarem sem pedir nada. Como é que ele fazia aquilo? Na frente de toda aquela gente ali no hall de entrada? Dinho ia se dar bem no que quisesse fazer na vida.

Renan adorava aquele cheiro de gelo seco que ficava no ar, misturado com o perfume doce e cítrico que saía da axila e pescoço das cocotas. Quanta guria gata com lábios ainda brilhantes e em cores vivas. Andaram entre o labirinto de pessoas e grupinhos que formavam pequenos círculos. Dirigiam-se ao bar.

“Paga aquela cerveja pra gente?”, Dinho.

Claro que pagaria. Até uma caixa, se pudesse. O amigo ia cumprimentando um aqui e outro ali. Renan não tinha visto ainda nenhum rosto conhecido. No bar encontrou com Júnior, que estava na fila para comprar ficha. Perguntou por onde tinha andado.

“Por aí. Fazendo umas coisas”, Renan.

“Não apareceu mais no Julinho”, Júnior.

“Não deu”, Renan. ‘Não apareceu mais’, como assim? Nem quinze dias que ele não ia lá. Era melhor ele se afastar um pouco desses boys com pais mafiosos.

“Aparece lá amanhã de tarde. Vamos bater uma bola”, Júnior.

“Não prometo. Se der eu vou.”.

“Beleza. Viu a Clara aí?”

“Não. Você viu?”

“Vi. Tá com aquela gostosa da Juliana, logo na entrada da pista. A gente tá circulando por aí. O Julinho tá ali do lado com a guria dele de Curitiba.”

“Beleza. Daqui a pouco eu chego lá.”

Afinal o Julinho trazia a famosa namorada da capital para a família e os amigos do interior conhecerem. Já estava achando que a guria era lenda e que se marcasse ele era é veado.

Pegou a cerveja e foi encontrar Dinho, que estava ali próximo falando ao ouvido de uma mulher que deveria ser pelo menos dez anos mais velha que ele. Esperou que terminassem o assunto. Ele os apresentou.

“E essa gostosa?”, Renan quis saber depois que ela se afastou.

“Trabalha na Caixa de Porto União. Nunca viu ela lá?”, Dinho.

“Eu não vou lá. Vou sempre na de União”, Renan.

“Azar o teu. Tem que ver os peitos dessa mulher. Puta gostosa. Ainda vou comer ela. É só esse bunda-mole do namorado dela marcar toca”, Dinho. Ficaria com ela algum dia, claro. Se Renan tivesse essa auto-confiança do amigo…

Foram para a pista procurar por Clara. Lá estava ela, com Juliana e mais três gurias. Dançavam sorridentes, com braços abertos e cabelos soltos. Ao lado, dois quarentões não tiravam os olhos das meninas. Seguravam o uísque na mão e falavam um no ouvido do outro, ora rindo, ora balançando a cabeça em concordância. Vai ver discutiam quem ia ficar com quem. Tarados do caralho! Renan se aproximou e não evitou que um largo sorriso se formasse em seu rosto. Ela estava inacreditavelmente linda, como se tivesse deixado de ser apenas uma adolescente de uma semana para outra e agora era uma jovem mulher confiante e consciente da sua beleza e do espaço que seu corpo ocupava. Juliana a cutucou e apontou Renan com a cabeça. Ela o viu e veio lhe dar um beijo. Ele não sabia distinguir se o gosto de cigarro com vodka era da boca dele ou dela. Dela, provavelmente. Ela exalava um cheiro gostoso, cheirava a mulher. Será que a cachaça já estava transformando o cérebro dele em purê? A professora de biologia falava que eles não deviam beber, pois o álcool matava neurônios, e estas eram células que não cresciam de novo, principalmente na fase da vida em que eles estavam, com o corpo ainda em desenvolvimento. Um neurônio perdido não voltava mais. Ele não era um gênio. Também não era um idiota. Que diferença uns neurônios a menos ou a mais iriam fazer?

“Tudo bem com você?”

“Sim. Tô ótima!”

“Quero te apresentar um amigo meu.”

Ele a apresentou a Dinho e ela voltou a dançar. Dinho fez o favor de se apresentar para as outras gurias, enquanto Renan foi cumprimentar os outros que estavam pajeando Julinho, a quem Dinho foi apresentado logo depois.

Renan ficou por ali. Balançava o corpo, segurava a lata de cerveja, na qual dava pequenos goles, e a repassava para Dinho, que a virava como se fosse esvaziá-la num só fôlego. Clara dançava. Ele sem saber o que fazer com as mãos e o restante do corpo. Acendeu um cigarro. Ofereceu um a Dinho. Tinha algum brilho novo nela. Algo que ele não conseguia discernir. Era como se ela tivesse ficado intangível, como não se fosse mais aquela guria com quem tinha transado algumas semanas atrás, com quem trocara vários beijos nesse meio tempo, com quem tinha construído uma intimidade que nunca antes ele tinha experimentado com outra pessoa. A noite dera a ela outra tonalidade de pele, outro gosto na boca, outro balanço no corpo. E ele era ainda o mesmo adolescente desajustado do colégio, torcendo pra não ser o último a ser escolhido pro time de futebol na aula de educação física. Como um merda como ele tinha ficado com uma guria como aquela?

Dinho lhe avisou que iria dar uma circulada. Logo voltaria. Então Renan pegou na mão de Clara, a puxou para si e a beijou. Ela deixou, mas acabado, se desvencilhou, como se de repente não quisesse mais, como se descoberto que não gostasse mais dele. Ela virou as costas e continuou dançando. Renan não sabia o que fazer. Alguma coisa estava diferente, sabia. Será que ela não queria mais ficar com ele?

“Quer conversar?”, disse no ouvido de Clara.

“O quê?”

Ele falou mais alto: “Vamos conversar?”

“Dance! Não vim aqui bater papo. Quero dançar.”

A música acabou. Ela avisou que ia no banheiro. Ele se aproximou de Júnior, que especulava o entorno, enquanto Julinho beijava a sua namorada. Se não queria, por que não dizia logo que não estava mais a fim dele? Os dois quarentões continuavam ali do lado. Agora secavam outras meninas.

“Já pegou alguém?”, Renan a Júnior.

“Nada. Tô de olho numa gostosa ali ó. Aquela de vestido preto. Peitões imensos. Cabelo encaracolado, morena.” Era um mulherão de uns quarenta anos. Pelo menos essa era a visão de Renan. Ela tinha na realidade vinte e nove. Como Dinho, Júnior também tinha uma atração por mulheres mais velhas.

“Aquela?”

“Aquela mesmo. Tá na minha. Se separou faz um mês. Tá louca pra dar. E eu é quem vou receber”, dando um gole longo na sua caipira. “Vou lá. Me deseje boa sorte.”

Renan deu o gole derradeiro na sua cerveja, que enfim tinha acabado. Percorreu o entorno com os olhos. Avistou o Dinho do outro lado do salão, já aos beijos com uma loira. Não valia o que comia aquele veado. Mas sabia pegar mulher. Isso não dava pra negar. Resolveu comprar mais uma cerveja. Era o dinheiro para ele passar a semana. Iria torrar tudo naquela noite. Dane-se! Daria um jeito pra comprar cigarro e comer um lanche no colégio. Clara estava demorando, e além de Julinho, cuja boca não desgrudava da boca da sua garota, todos os conhecidos tinham se dispersado.

Estava na entrada do bar quando viu Clara de costas para a parede conversando com um cara de uns vinte, vinte e dois anos. Ele tinha o cabelo penteado para o lado, com uma franja arrepiada. A mão esquerda na parede. A direita segurando uma caipira de morango. Contava alguma história pra ela. As faces muito próximas, tão próximas que… Ela riu, e o cara lhe disse algo no ouvido. Por que não ia trovar uma guria da idade dele? Com a mão esquerda escorou a cabeça dela e a trouxe para si, ao mesmo tempo em que a boca dele saía do ouvido e se dirigia para a boca dela, que se mostrava vulnerável e sedenta por aquele beijo.

Renan fungou. Seu o coração batia em uma velocidade que não conhecia. Não sabia o que devia sentir. Respirou fundo. Esperaria que parassem de se beijar e confrontaria os dois. Não paravam de se beijar. Respirou fundo outra vez. Não paravam. O que tinha ido fazer ali? Não gostava daquelas pessoas. Não tinha nada pra dizer pra elas. O coração pulsava na garganta. Por que tinha se esforçado por ser amigo daquela gente? Por que prosseguiu com aquela guria que… estava na cara que não queria mais nada com ele. Não paravam. Sentia algo por ela? Talvez sentisse tesão, paixão, desejo… e o que importa que nome se dê? Eram de colégios diferentes. Foi ele quem tinha invadido a área dela. Não paravam. Não devia estar ali. Renan foi só mais um carinha que ela beijou na boca. Era um coitado. E aos coitados deveria se juntar. Àqueles cujo lugar era o outro lado da rua, a calçada gelada do sereno e da umidade do Iguaçu. Não paravam. Virou as costas e caminhou em direção à saída. Enquanto caminhava, sentia o coração voltando da garganta para o peito.

O Dinho… o Dinho sabia se virar, não precisava dele. Eram namorados? Namorados, namorados não eram, já que nunca um disseram pro outro ‘então, vamos namorar’. Ficavam. Só. Mas era sacanagem ela ficar com outro na cara dele. Isso era. Ou não?

A brisa úmida do rio tocou a sua face. Atravessou a rua para onde estavam os amigos. Um casal de góticos, um guri do primeiro ano do colégio que ele só conhecia de vista tocava Tempo Perdido, e outros dois sujeitos, cujo nome ele não se lembrava, bêbados, ouviam as batidas capengas do violão e balançavam a cabeça.

“E aeee!”, disseram ao vê-lo se aproximar.

“Cadê todo mundo?”, Renan perguntou. Caramba! Era pouco passado das duas da madrugada.

“A moçada vazou. Só ficou a gente. Chegou tarde. O gole acabou”, respondeu o piá que estava com a namorada. Quanto tempo tinha ficado lá dentro? Só uma hora? Podia voltar, tentar ficar com alguém…

“Tá. Vou nessa piazada. Falou!”, Renan, lhes deu as costas.

Pegou a Cel. Amazonas. Encontrasse algum retardado querendo agitar com ele, daria um soco tão forte na cara do desgraçado que faria com que o nariz lhe entrasse pra dentro da cara… Torceu a boca num arremedo de riso. Entrou na Dario Bordin. Jamais conseguiria isso. Bater em alguém. Não era pra ele essas proezas. Um carro passou e buzinou. Uma guria colocou a cabeça para fora e gritou alguma coisa que ele não conseguiu entender. “Filhos da puta”, murmurou. Sonhava às vezes que estava numa briga e por mais forças que colocasse nos punhos sentia seu braço molenga como se fosse um boneco de borracha. Não era capaz de fazer mal a ninguém. Nunca seria. Cruzou a praça Cel. Amazonas e seguiu em direção à avenida Manoel Ribas, que atravessou tomando a direção da rua Professora Amazília.

Deparou-se com um saco de lixo. Grande, preto. Parecia pesado. As luzes da casa apagadas. Pegou e arremessou para dentro do pátio o saco, que se abriu, espalhando papéis e plásticos pelo gramado bem aparado. Na quadra seguinte fez a mesma coisa. Agora com pequenas sacolas brancas de mercado, cheias de lixo doméstico. Lançou-as com força, e viu-as subindo e aterrissando no telhado das casas. Na esquina seguinte deparou-se com dois sacos brancos dependurados no cesto.

Ao se aproximar para pegá-los ouviu o rosnado. Então notou um Rotweiller de olhos brilhantes que o encarava. Parecia esperar que ele fizesse mais um movimento para pular na sua jugular e arrebentar o seu pescoço numa mordida. Tinha ajudado a matar um cara e um cachorro. Sua garota beijou outro cara na sua frente. Apanhou duas vezes dos mesmos malandros. Não sabia se defender. Não sabia tocar um instrumento. Vinha sendo feito de otário pelos caras que achava que eram seus amigos. Que bosta de homem que ele era. Tinha matado um cara. Um porra de um pobre coitado de um cara que não tinha onde cair morto. Um fodido qualquer. Um vira-lata pulguento. Um coitado. Um coitado como ele. Um zé-ninguém como ele. E só porque dois playboys queriam ver alguma coisa pegar fogo.

“Você sabe, não sabe?”.

O cachorro ficou em pé.

“Você é o meu demônio, não é? Vai me perseguir pelo resto da vida, não vai?”

O cachorro deu dois passos para trás e engasgou um latido.

Acendeu um cigarro. Sentou-se na calçada. E o fumou, olhando para o animal, que não desgrudava os olhos dele. Enfim se dava conta de que pudesse estar já sob efeito da bebida, como se só agora ela começasse a fazer efeito. Tomara que aquele cara resolva a parada. O que ele ia fazer, afinal? Renan não fazia ideia. Nem lhe interessava. O que quer que fizesse, que desse um jeito de aqueles caras que vinham chantageando os piás sumirem da sua vida, pelo menos. Os playboys que se fodessem. O que ele tinha ido cheirar naquela festa? Por que entrara no carro? Poderia ter ficado lá, numa boa com a Clara, aquela puta. Devia ter previsto. Como uma guria gata daquelas iria querer algo sério com ele? Devia ter parado de ver ela quando ainda era tempo, quando ainda tinha o controle das coisas. Rolou a bituca sobre o polegar com o dedo médio e a arremessou longe. Levantou, pegou os dois sacos e jogou em cima do telhado da casa.

“Desculpa, véio!”, disse ao cão. “Quando quiser, estarei te esperando.”

Deu boa noite para o cão e seguiu seu caminho. A serração começava a se adensar, cobrindo a cidade como um edredom grosso e pesado. As gotículas pesavam nas sobrancelhas de Renan, suas pálpebras querendo se fechar.

Ele sentou no portão de casa e acendeu mais um cigarro. Os pássaros cantam nas árvores, e a madruga começa a virar manhã, tornando a bruma ainda mais branca e espessa.

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