Primeiro dia de aula

Gustavo iniciava o seu terceiro ano como professor formado e seu primeiro como concursado. Entrou na sexta-série com o pé direito e com um bom dia! pronunciado com sua melhor dicção de impor respeito. Ainda não tinha se acostumado a nenhum vocativo: ‘criançada’ soava pra ele como apresentador de programa infantil e ‘gurizada’, informal demais. Afinal, ele já sabia, naquela altura, que não estava ali pra ser amigo daquelas crianças. E para que estava ali, então? Nunca acreditou que ser professor fosse uma missão, como se tivesse algo de religioso ou bélico na empreitada. Era um profissional. Assim queria ser tratado, e assim se faria respeitar.

Terminou de escrever no quadro o tema da redação e conferiu as horas. Vinte minutos tinham se passado. Ótimo! Tinha se apresentado em quinze para as outras turmas. Leu em voz alta o que tinha escrito: Minhas férias. E explicou que esse seria o tema da primeira redação do ano. Que contassem qualquer causo que tivesse acontecido com eles. Uma narração. Que simplesmente narrassem. Mínimo vinte linhas. Trouxessem pra ele ler o rascunho antes de passar a limpo. Pediu também que providenciassem um caderno de redação separado do caderno do conteúdo de português. “Vamos lá. Quem vai ser o primeiro a contar pra gente o que fez nas férias”.

Minhas férias. Os alunos trabalhavam em silêncio agora. O levantamento de ideias tinha sido produtivo. As palavras no quadro, um mapa conceitual de ideias e histórias relacionadas com férias. Falar, eles falavam. Queria era ver como é que aquela gurizada escrevia. Gustavo olhava para a sala, contemplando aquelas cabeças pequenas, que mordendo a bunda do lápis, buscavam nas palavras do quadro a melhor forma de contar as aventuras que viveram nas férias. Ele poderia ser mais criativo que aquilo. Uma das primeiras coisas que aprendeu na faculdade foi a não repetir essas fórmulas gastas e sem sentido da pedagogia brasileira de língua portuguesa. E ele sabia que os alunos sabiam disso. Tá, mas não deixava de ser um tema com potencial, apesar de gasto, como as histórias de amor e de superação ou a jornada do herói. Não era uma simples tarefa pra matar tempo. Além do mais, era um diagnóstico. Ele queria saber como aqueles alunos escreviam. O que o esperava, qual era a intimidade deles com a pontuação, a ortografia, a acentuação, e principalmente, como era a habilidade deles para desenvolverem narrativas. Isso é que lhe interessava.

Ele não tinha trabalhado com a quinta série ano passado. Aquelas crianças eram novidade pra ele. A colega tinha dito que a turma era boa. Um ou outro ali precisaria de mais atenção, só trabalhavam se ficasse em cima. Ela tinha falado pra ele os nomes, que ele não lembrava. A namorada dele ficava pegando no seu pé, que estudasse pra concursos: polícia civil, algum banco público, sei lá. A vó dele também era da mesma opinião. Ele era inteligente demais para ser professor. Mas ele queria mesmo era ser jornalista. Contasse isso pra elas… Mas ser jornalista ali, naquela cidade pequena, com um único jornal semanal? Já tinha 25 anos. Poderia se aventurar, a essa altura? A vó tinha sido professora primária, e das boas, diziam seus ex-alunos. Por que não queria que ele fosse professor também? Não é mais como antigamente, meu filho. Hoje ninguém mais respeita o professor. Os alunos obedeciam por educação ou na marra. Agora só tem mal-educado. Um aluno lá no fundo mascava o lápis, cuspia fiapos de madeira no chão e olhava para a janela. O grito da criançada na aula de educação física estava distante, mas chegava até ali. Metade desses meninos deve estar pensando em correr atrás de uma bola. A outra metade em videogame.

Uma menina magrelinha de cabelos pretos compridos e soltos veio até ele. Trazia o caderno. Mostrou o que tinha feito e perguntou se estava certo. Ele olhou o caderno. Ela só tinha escrito o primeiro parágrafo.

Nas minha ferias eu fui na casa da mina vó.

La não tinha nada pra fase. eu pasava o dia vendo teve.

Ele perguntou se ela não tinha feito nada de divertido. Se não tinha ido tomar banho de cachoeira, ou pescar, ou passar o dia num parque aquático… A menina pegou o caderno e voltava para a sua carteira, quando parou. Ainda de pé pensou por um momento e voltou. Perguntou se podia contar que o coelho do vô dela tinha fugido, o vô dela tinha quatro coelhos, e ela ajudou a correr atrás dele até que o primo dela conseguiu pegar. E tiveram que prender os cachorros porque senão eles iam comer os coelhos. O professor disse que sim, aquela era uma boa história.

Logo outros vieram mostrar o que estavam fazendo. E Gustavo foi lendo e comentando e discutindo com as crianças as ideias que eles tinham e a melhor forma de colocar no papel o que eles tinham pra dizer.

Faltava cinco minutos para que tocasse o sinal que encerrava as aulas da manhã. Alguns alunos já tinham entregado a sua redação. A maioria ainda não.

– Falta muito, pessoal? — Gustavo perguntou.

– Estou terminando de passar a limpo, professor! — alguém, que Gustavo não conseguiu identificar, gritou no meio da sala.

– Só falta uma linha aqui — um segundo acrescentou.

Ele pediu que entregassem o rascunho mesmo, quem não tivesse terminado. E foi caminhando entre as carteiras, até chegar num garoto na fila paralela à parede sem janelas. O menino franzino de cabelos despenteados encarava o caderno. Segurava o lápis sem ponta. Tinha escrito a data e parara no meio do ano 20… Perguntou ao menino o nome dele e por que não tinha escrito nada.

– O lápis quebrou — foi a resposta de Vitor.

– Mas por que não apontou?

– Não tenho apontador.

O professor ia replicar que o aluno poderia ter pedido emprestado de algum colega, quando o sinal tocou e todos os alunos se alvoroçaram para guardar os materiais, entregar a tarefa e ir pra casa. O menino na sua frente começou a fazer o mesmo, sem muita pressa. Que trouxesse na próxima aula, então. Poderia fazer em casa o texto. Só quando o menino ficou de pé é que Gustavo notou a cara de quem não tinha dormido direito: as pálpebras caídas e as olheiras arroxeadas e escavadas na face branca. O Guri tinha ficado duas aulas encarando o papel em branco. Quem sabe até tivesse dormido. Como ele não tinha visto?

Depois que o menino saiu, outro se aproximou e disse, com naturalidade:

– O Vitor mora na zona, sor. Ele fica vendo tevê a noite inteira. E só dorme de tarde, cas puta.