Xingue as Bandas da Sua Cidade

Próxima vez que você ver um meme assim, denuncie pro Facebook

Se você é um músico ou trabalha com qualquer coisa relacionada, de tempos em tempos (ou toda vez que o lineup do Lollapalooza BR é anunciado) verá certos memes se espalhando pelas redes sociais dos outros músicos e produtores que você conhece. Os memes geralmente são algo tipo:

“Apoie as bandas da sua cidade, vá aos shows, compre CDs, camisas, dê pros músicos, etc”

Ou então:

“Gasta 1000 reais no Lollapalooza mas não paga 20 reais pra ver a banda do seu amigo, tô de olho”

Toda vez que aparece um desses na minha frente, eu cuspo o Toddynho que eu to bebendo, tamanha a irritação que me consome. Vou explicar o porquê dessa irritação, mas antes, preciso falar da mentalidade de alguém que pensa/compartilha/acredita nessas afirmações acima.

EU SUEI, EU MEREÇO!

Montar uma banda é super difícil. Você tem que achar mais 3 ou 4 músicos que compartilham seu gosto, temperamento e que tão dispostos a levar o trabalho a sério (porque você tá levando muito a sério, é claro).

Durante os primeiros meses (ou anos) da banda, esta formação vai mudar várias vezes, porque você vai cansar de gente chegando atrasada em ensaio ou não tirando as músicas ou não afinando os instrumentos, e aí vai pedir pra essa galera “não comprometida” se retirar.

E aí tem aquele detalhezinho de ter que fazer músicas, que é um inferno — ou era pra ser (se não é um inferno pra você, é porque você não está fazendo direito). Você vai jogar muita ideia fora por enjôo, passar inúmeras horas de ensaio tentando acertar detalhes com sua banda, as vezes criando as partes dos outros integrantes menos providos de criatividade.

E depois que você tem um grupo de músicas que você acha tolerável — ou então você se força a acreditar que é tolerável, ouvindo as mesmas demos inúmeras vezes, repetindo “ficou bom, ficou bom, ficou bom” pra si mesmo como um mantra para espantar sua insegurança — aí você tem que gravar essas músicas.

Gravar é caro, dá muito trabalho, e o resultado nunca é 100% satisfatório. Na sua cabeça, a música surge como uma selfie sorridente na frente de uma paisagem paradisíaca; o produto final costuma ser tipo uma daquelas fotos de ficha criminal de quando você é preso e apanha da polícia.

Aí você lança as músicas e ninguém escuta. Você faz shows e ninguém vai. E você gasta mais 1000 reais em camisetas com a logomarca sua banda que você pediu pro seu primo desenhar de graça, e aí ninguém compra, porque ninguém foi no show e nem sabia que tinha pra vender (e mesmo quando você dá a camisa de presente, ninguém quer usar).

Depois de todo esse suor, estresse, insegurança, frustração, sacrifício e dinheiro, depois de todo esse esforço monumental que, no final das contas, nem é pra você, mas para o benefício e apreciação dos outros… Ninguém se importa.

Aí você abre o Photoshop e cria um desses memes que cobra dos seus amigos e conhecidos algum reconhecimento que você é tão devido, porra, depois de toda essa trabalheira do caralho.

O QUE OS SEUS AMIGOS ESTÃO PENSANDO

O motivo dos seus amigos e conhecidos não comprarem seus CDs e camisas, e raramente irem nos seus shows, e quando vão, pedirem nome na lista de convidados (e aí no dia seguinte comprarem um Lollapass de 800 reais) é o seguinte:

Sua banda não é boa.

Ou mesmo se for, ela não é boa o suficiente. Na real, ela pode ser até bem medíocre. A maioria é. Muitas vezes é uma bosta completa. Eu tenho um estúdio e já ensaiaram bandas lá que seriam mais apropriadas para sessões de tortura em Guantanamo do que para entretenimento.

Sua banda é tão ruim que mesmo você oferecendo entrada de graça no show, o seu amigo prefere pagar 800 reais pra ver algumas bandas boas de verdade. Amizade pode te conseguir uma plateia de vez em quando, mas nem o melhor amigo do mundo vai querer ir em show seu todo fim de semana. Já a banda que toca no Lollapalooza vem uma vez por década. É claro que o show dela vale mais que o seu, duh.

Seus amigos podem até dizer que sua banda é boa, mas se eles não tão indo nos shows, comprando CD e camisa, postando músicas no Facebook e cantarolando a letra no carro, eles estão mentindo.

MAS O QUE EU FIZ DE ERRADO?

Mas vamos supor que você é um cara esperto, de bom gosto, e tem um domínio sobre o seu instrumento e um cuidado com os seus arranjos. Por que que mesmo depois de todo esse trabalho você não conseguiu fazer algo que agradasse os outros? Por que eles não conseguem ouvir a qualidade que você está ouvindo?

Por que que eles não andam com a camisa da sua banda, mas vestem a do Tame Impala todo dia até desbotar?

Simples: porque você não tá ouvindo somente a sua música. Você tá ouvindo todo o trabalho (e suor e sofrimento e frustração) que levaram até o resultado final. Você não tá assistindo o seu show, você tá assistindo todas as centenas de horas em estúdios de ensaio tentando tocar no tempo, não errar as notas, etc.

Você quer gostar da sua música, porque você não consegue aceitar que tudo que você e sua banda fez pode ter sido em vão. Então você canta o mantra “ficou bom, ficou bom, ficou bom” e gosta. E aí quando os outros não gostam, você fica confuso e ainda mais frustrado.

Pra se tornar bom em alguma coisa, não basta esforço (embora exija muito esforço). É crucial também a habilidade de autocrítica. Reconhecer que você não é bom ainda— i.e. ouvir as músicas com os ouvidos virgens, menos parciais, dos seus amigos — é o primeiro passo pra tentar ficar bom algum dia.

COMO EU POSSO AJUDAR?

Se você tem amigos em bandas, xingue a banda deles. Se você tem uma banda, xingue as outras bandas. No Twitter, no Facebook, no YouTube — até mesmo em pessoa, se você tem estômago:

“Soltei uma música nova esses dias, você ouviu?” — “Ouvi.” —“O que achou?” — “Não bateu” ou “Achei ruim” ou “Mais ou menos” ou “Eu acho que você é capaz de coisa melhor” ou “Na trave” ou “Continua tentando, é difícil mesmo” ou “Não escuto esse tipo de coisa”, e por aí vai.

Eu mesmo acho bem difícil ser totalmente honesto, porque eu tenho meus projetos musicais e sei na pele a dificuldade pelo qual a pessoa passou pra chegar até ali. A não ser que seja um amigo muito próximo (e que eu sei que vai saber lidar com a crítica) ou então numa situação onde estou trabalhando como produtor, geralmente evito “mandar a real”.

Mas é importante, porque ser criticado deixa o artista puto/chateado, e a atitude de “eu vou mostrar pra esses filho da puta que eles tão tudo enganado!” é um jeito super eficiente de fazer a autocritica de um artista pegar no tranco.

Quantas críticas de bandas da sua cidade você já viu/ouviu/leu? Cadê a Pitchfork goiana, ou paulista, ou carioca, descendo a lenha em todo mundo? Cadê as discussões musicais honestas em grupos de Whatsapp e Facebook? Cadê o textão xingando o último show do Carne Doce?

(to brincando, eu curto Carne Doce [ou será que curto?!?! {eu curto}])

ME DEFENDENDO DE FUTURAS CRÍTICAS

“Mas eu amo a minha música! De verdade! Do jeitinho que ela é!”

Ótimo. Mas parece que pouca gente concorda com você. Aceite isso em paz. Não espalhe memes ruins.

“Tem gente que gosta muito da minha banda, mas são poucos.”

Valorize essas pessoas; alguém gostar de algo pra valer é raro. Se você tá insatisfeito com o número, tenta se esforçar mais e produzir um trabalho ainda melhor, ou então fazer algo diferente.

“O tipo de música que eu faço é algo que pouca gente entende ou escuta.”

Foda, né.

“Minha banda ia bombar se tivesse mais divulgação, se tocasse na Interativa, no programa da Fátima Bernardes.”

Não tá bombando nem com seus amigos, tu acha que vai bombar com a Fátima Bernardes? Na na ni na não.

“Mas as bandas da cena tem que se ajudar, não competir.”

Se ajudar emprestando amplificador, beleza. Se ajudar fazendo críticas construtivas, se oferecendo para ouvir suas demos e xingar elas antes de você gastar dinheiro gravando, SIM!

Se ajudar passando a mão na cabeça, não.