Gelatina de Morango

Apesar da imagem, isso não se trata de uma receita de gelatina de morango. E, Infelizmente, o texto a seguir não é de minha autoria, além de também não saber quem o escreveu. Somente sei que o autor era um colega de uma daquelas chatas, entediantes e vazias de significado, aulas de educação da FACED da UFRGS. Mesmo assim, considero essa uma das melhores leituras críticas que já tive oportunidade de ler. Essa crítica a respeito das aulas não significa que desmereço o papel da educação na formação da sociedade, mas do jeito que ela é ministrada atualmente no país, essas aulas e nada são a mesma coisa… Enfim, não me lembro do nome dele, nem de que curso era. Mas o que ele fala no texto, realmente nos faz parar e pensar se já não está na hora de sairmos dessa “pasmaceira” em que vivemos.

“O não-pensamento dos bancos acadêmicos aos bancos de ônibus e a pressa em repousar numa cama de mortalha. Ou ainda: da maior das transubstanciações: o homem convertido em gelatina de morango.

Somos adultos, adultos jovens é verdade. Mamãe não nos diz mais o que temos de comer, o que vestir, aonde devemos ou não ir. E por algum motivo ao qual me escuso declarar, pelo menos por enquanto, estamos aqui reunidos numa universidade. Somos inflados de prazer ao inferirmos coisas grandiosas e espetaculares sobre nós mesmos, sobre nossos privilégios, sobre o privilégio de estarmos sentados numa cadeira publica, de fazermos parte de uma casta de pouco mais de 1% que teve acesso a universidade publica, gratuita e (esta ultima palavra geralmente é pronunciado com o poder de ponto final em qualquer discussão) federal.

Somos fartos de nos mesmos e ainda assim precisamos de ouvidos para nossas tagarelices e cabeças concordantes para dar um fôlego a mais ao excremento de nossos discursos. Que tristeza imensa seria encontrar alguém que discorda-se de nossas verdades, da verdade que serve como um A, ou como um B, até mesmo aquela verdade mau mastigada da cadeira de sensoriamento remoto, tão matemática e complicada que rendeu um mísero C. E aquela verdade que mamãe sempre nos deu. E pior ainda, é ter que elaborar o trabalho em grupo com aquele chato, aquele estranho que sempre chega sozinho e parte sem dizer adeus, e declara coisas sem nexo algum, perdidas no espaço, sem uma linha de raciocínio. A este não aceitamos suas idéias, nem mesmo o cogitamos ao nosso trabalho, seu nome vira por ultimo no trabalho, que se dê por satisfeito.

O que somos profundamente desejosos é do fim. Pouco importa o que aconteça estamos sempre voltados pro fim. Sem muita pressa, pois as festas do diretório acadêmico são louquedas, quase me fazem querer nunca sair. Se não fosse o que mamãe sempre quis, e tudo aquilo que nossos amigos de condomínio esperam que uma pessoa normal deseje e venha a possuir, eu não sairia nunca da faculdade, só que um homem algum dia tem que pagar por suas contas e festas e vir a possuir seu próprio apartamento quitado junto à caixa econômica federal e é o diploma que indubitavelmente trará todas as glórias. E o final tem uma toga e um chapéu idiota aonde vem um tal e puxa a corda do tal chapéu, como uma forca, como a corda da descarga, o tal senhor vem e diz:

- Está feito. Você é o grande geógrafo! Se contente e vá que atrás vem mais

Estamos no ápice bio-orgânico de nossa existência. Papai e mamãe não nos dizem mais a que horas devemos chegar e nem mesmo aonde devemos ir. Somos adultos jovens, graduandos, cientes e constantemente lembrados dos deveres da transformação social, estamos carregados destas e de outras coisas pesadas, dos desejos das gerações passadas, do fórum social e da historinha de que outro mundo é possível. Estamos esmagados. Tentamos correr, mas algo nos prende pelo rabo. Ou seria pelo saco? Estamos reunidos numa universidade e pesquisar ou discorrer sobre qualquer ponto de vista parece impossível. Não fui aceito no PET nem na bolsa do CNPQ. Faço em média de três horas de viagem por dia para estar aqui e quando chego ao campus do vale faltou luz. Eu não sou importante. Você não é importante. E pensar não é o plano. Um cara que se diz doutor bate a cabeça por cerca de uma hora de aula sobre a droga do computador. Eu também e qualquer um, às vezes, temos problemas com um maldito computador. O computador continua negando, o cara que se diz doutor declara:

- Não vamos mais ter aula hoje. DEUS, O UNIVERSO, O CAPITALISMO TECNICO-GLOBALIZADO CONSPIRA CONTRA NOSSA AULA, tenham uma boa noite.

Todos saem e o cara que se diz doutor fecha a porta da sala. Ele não tem nem uma palavra, nada, nem mais um segundo para ouvir ou perder com graduandos que não lhe rendem pesquisas academicas junto aos institutos de pesquisa.

Espero por cerca de meia-hora meu ônibus, estou cansado, estou finalmente convencido que o melhor lugar para meus pensamentos são minha cama. Quase duas horas depois estou lá. No escuro do quarto. Não consigo dormir. Tenho sono. Somente não paro e relaxo. Tenho medo da impressão que dia mais dia menos de burocracia e instituição acadêmica venham a me transformar, num molenga gelatina de morango.”