10 pequenos relatos após trabalhar vendendo livros durante 21 dias ininterruptos

Desde que me conheço por gente, frequento a Feira do Livro de Porto Alegre religiosamente todos os anos. Esse é, pra mim, um dos eventos mais importantes da cidade e o que mais traz charme para as ruas da capital gaúcha. Esse ano, enfim, tive a feliz oportunidade de realizar um sonho de infância: trabalhar na Feira como vendedora em uma das minhas bancas favoritas, a Banca do Livro. Separei abaixo 10 fatos e curiosidades sobre como foi trabalhar com livros durante os últimos 21 dias.

1. Dois dias antes do início da Feira, em 28 de outubro, eu, meus dois colegas (que vou apresentar no relato seguinte) e o livreiro dono na banca começamos a abrir as cerca de 150 caixas de livros que foram para o evento e organizar tudo dentro da barraca (ao longo da Feira, foram chegando mais umas 40). Parecia que as caixas se multiplicavam, não importava quantas esvaziássemos. Essa foi a parte mais trabalhosa, mas, depois de tudo pronto para o início das atividades, foi só alegria. No primeiro dia fiquei absolutamente encantada com a possibilidade de trabalhar com livros se concretizando. Atender ao público, poder ajudar as pessoas a encontrar o que desejavam e — às vezes, quando não estava muito corrido — conversar sobre as histórias é extremamente prazeroso. Trabalhar ao ar livre, vendo o movimento da rua e ouvindo os concertos musicais que de vez em quando aconteciam, então, nem se fala (quase chorei num dos primeiros dias ao voltar do intervalo de almoço ao som de uma versão instrumental de Let It Be, dos Beatles). Mas, como nem tudo são flores, todos os dias também tocavam pelos alto falantes umas 3 ou 4 faixas de músicas infantis em looping eterno. Sempre. As mesmas. Faixas. Todo dia.

2. Além do dono da livraria, trabalharam comigo na maior parte do tempo o Zé, que foi funcionário da Vozes durante 18 anos, e o Mario, que foi representante comercial da Companhia das Letras por mais de uma década. O Zé, além de trabalhar com livros, escreve suas poesias (que estão impressas em um polígrafo — quem sabe ele não as lança em formato de livro na Feira do ano que vem?), e o Mario faz docinhos e salgadinhos para festas. Nunca pensei que fosse simpatizar e me entrosar tanto com dois colegas já na faixa dos 50 pra 60 anos.

3. A forma como a Banca do Livro é organizada é sensação entre os frequentadores da Feira. Basicamente, é livro empilhado até o teto de todos os lados. Perdi a conta de quantas pessoas fizeram comentários sobre o fato de que só se enxergava a minha cabeça do lado de fora pela pequena janelinha de espaço que sobrava, ou que tiravam fotos da banca (algumas me pediram, inclusive, pra posar pras fotos e teve até um menino que entrou ali pra servir ele mesmo como modelo). O que o pessoal não imagina — ou deve imaginar — é a trabalheira que dá pra recolher tudo no fim do dia, ou, mais ainda, arrumar tudo de novo no começo do dia seguinte.

Saiu foto da banca também no jornal. Dá pra ter uma noção da quantidade de livros que a gente tinha, né? (A propósito, ó eu ali!)

4. A maioria das pessoas, aliás, foi bastante simpática e solícita comigo enquanto eu as atendia *momento pontinha de esperança na humanidade*. Algumas, entretanto, possuem um hábito muito irritante: ficam te chamando sem parar mesmo vendo que tu está atendendo outra pessoa ou até mesmo conversando com ela.

5. Como publicitária formada, foi muito interessante e enriquecedor trabalhar com vendas diretamente ao público final. Deu pra notar, principalmente, que a forma como os livros estão expostos (o famoso PDV) faz toda a diferença. Nos primeiros dias de Feira d Livro, por exemplo, não vendemos nenhum O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares simplesmente porque não o deixamos na frente da banca. Uma vez que deixamos o livro bem à vista, ele começou a vender bem (talvez um total de 20 ou 25 exemplares durante os 19 dias de evento). Livros como esse e o Quatro vidas de um cachorro (outro sucesso total de vendas) dificilmente são solicitados pelas pessoas caso não estejam expostos. Se ficam em evidência, vendem que nem água.

6. A propósito, para os curiosos de plantão, os 5 livros que mais venderam na minha banca (mais ou menos em ordem decrescente) foram: Enclausurado, do Ian McEwan; Quatro vidas de um cachorro, do W. Bruce Cameron; Harry Potter e a criança amaldiçoada, da J. K. Rowling, do Jack Thorne e do John Tiffany; Meia-noite e vinte, do Daniel Galera; O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares, do Ransom Riggs. Lista não oficial feita com base exclusivamente na minha memória. Outro autor com muita procura, que deu palestra e fez sessão de autógrafos na Feira do Livro, foi o Leandro Karnal. Não coloquei nenhuma obra dele na lista porque vendemos uns 4 títulos diferentes até se esgotarem todos os exemplares, mas, se todos fossem somados, certamente ultrapassariam as vendas dos 3 últimos livros que citei anteriormente. O mesmo vale para os 5 romances adultos da Elena Ferrante já lançados no Brasil (talvez a escritora italiana ficasse inclusive com o primeiro lugar como a mais vendida).

7. É muito comum as pessoas pedirem pela capa original do livro quando este tem edição impressa com a capa do filme. Portanto, editoras, pensem em fazer como a Intrínseca, que relançou a capa original de Precisamos falar sobre o Kevin (livro incrível que eu tenho o azar de ter com a capa horrorosa do filme).

8. Relato de um pequeno causo: um belo dia, chegou um senhor pedindo indicações de livros que falassem sobre Deus sem serem os religiosos, de um ponto de vista metafísico. Eu não conhecia nenhum, mas, na minha vontade de querer atendê-lo a qualquer custo, fui pegar o único livro não-religioso sobre Deus do qual me lembrava: o Deus, um delírio, do Richard Dawkins. Sim, agora eu sei que o cara é um ateu fervoroso. Acontece que, apesar do título do livro, meu pai (que acredita em Deus) já o tinha lido e me comentou certa vez que trazia pontos de vista interessantes. Resultado: o senhor ficou irado, virou as costas e foi embora aos gritos de “esse cara é um babaca”, “ele não acredita em Deus” e “eu tenho provas de que Deus existe”.

9. Quem já foi à Feira do Livro de Porto Alegre, principalmente aos finais de semana e feriados, sabe o quanto é difícil caminhar pelos corredores em função do alto número de pessoas e como é fácil, por consequência, perder acompanhantes no meio da muvuca. Eu mesma, quando era bem pequena, já me perdi do meu pai em frente a uma banca e saí puxando um senhor aleatório que vestia na ocasião um casaco muito parecido com o dele. Pois nem a patrona da Feira desse ano, a escritora Cíntia Moscovich, esteve livre de passar por tal incidente. Ontem, dia 15 de novembro e último do evento, Clea Motti, dona da tradicional voz que informa sobre a programação pelos alto falantes, anunciou: “_____ Moscovich. Sua filha, patrona da Feira do Livro, está lhe esperando no balcão de informações”.

10. Eu só descobri isso esse ano, mas, ao final do último dia de Feira, o patrono passa junto ao cortejo distribuindo rosas aos livreiros ao som de “ai ai ai ai, tá chegando a hora”. Foi um momento alegre e bonito de se ver. A pontada de tristeza veio mesmo foi na hora de ir embora da Praça da Alfândega pela última vez, deixando ali meus colegas de trabalho e uma banca já quase vazia. Ano que vem tem Feira do Livro novamente. Mas e eu, onde será que vou estar?

Esse texto foi publicado originalmente no le zazí.

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