Por que o Brasil levou sete gols da Alemanha?

O fatídico dia ainda está em nossas mentes. Sete gols em noventa minutos contribuíam para a maior goleada na história sofrida por um anfitrião em Copas do Mundo. Apesar do equilíbrio no número de finalizações, posse de bola e outros, foi visível a disciplina tática e eficiência alemã durante o jogo inteiro e o oposto em relação à seleção brasileira na partida. Sete a um foi pouco. Poderia ter sido muito mais. Sorte que foram “apenas” sete e, neste artigo, analisarei cada um deles.


Os times de Felipão são vulneráveis à jogadas de bola parada

Não é novidade. Mas, convenhamos, a jogada da Alemanha foi muito bem tramada. O primeiro gol foi uma obra prima de esquematização tática. E funcionou perfeitamente.

Cada um marca seu jogador. Dante marca Hummels, Fernandinho marca Klose, Luiz Gustavo marca Höwedes e David Luiz marca Müller. Fred e Maicon fecham na primeira trave, impedindo assim um desvio de cabeça que possa atrapalhar Júlio César na recuperação da bola. Nenhum problema até aqui. Não fosse a movimentação dos jogadores.

Na movimentação, o time da Alemanha busca congestionar o espaço destinado à marcação de David Luiz sobre Müller, onde todos se dirigem ao mesmo lugar, prendendo assim o zagueiro brasileiro;

Höwedes puxa a marcação de Luiz Gustavo (que estava atrás), liberando assim espaço para seu companheiro de time correr pela frente do congestionamento, mas David Luiz, marcando frontalmente Müller, fica preso na marcação de seu próprio companheiro (Fernandinho) sobre outro jogador (Höwedes);

Por fim, sem marcação alguma, Müller avança por esse espaço vazio — aberto pelo seu companheiro que puxou a marcação — , recebe a bola perto da marca de pênalti (lançada conscientemente lá) e finaliza para marcar o primeiro dos sete tentos do time germânico.


A genialidade de Müller, o explorador de espaços

Você conhece algum jogador que tem um termo só para ele? Não? Conheça, então, Thomas Müller: o Raumdeuter. O termo é explicado, resumidamente, em “explorador de espaços”. Um jogador que encontra facilidade para se desmarcar e ocupar os setores vagos do campo. Vejamos.

No segundo gol da Alemanha, Müller toca para Kroos (sem marcação, mais um erro tático). Ele tem tempo e um espaço enorme para perceber seu parceiro de time se movimentando, explorando o espaço gigante que a equipe adversária deixa vago;

Repare que no momento em que Kroos domina a bola e pensa em enfiar para seu companheiro, ele está duplamente marcado por Luiz Gustavo e Marcelo. O primeiro, por algum motivo, deixa de seguir o meio-campista alemão, encarregando esse trabalho para o lateral-esquerdo, que não faz isso corretamente. Marcelo não tem as características de um marcador nato, por isso atua como ala no Real Madrid, sempre avançando, pois sabe que, em seu time, Sérgio Ramos cobre o baque deixado pelo jogador de lado brasileiro.

O camisa 13 alemão corre por trás da zaga brasileira com a marcação atrasada, toca a bola de calcanhar em outro espaço vazio e o marcador de Klose àquela altura (Maicon) também está atrasado, perdendo o tempo e deixando o centro-avante alemão finalizar. Júlio César até tenta, mas não consegue impedir. Gol de Klose, o maior artilheiro das copas. Dois a zero para a Alemanha.


A visível deficiência de marcação brasileira

Era incrível como o time brasileiro tinha dificuldades em marcar a equipe alemã. Quem marca Kroos, o principal circulador de bola alemã? Quem marca Müller, perigoso demais perto da área e com condições de finalizar? Para que plano tático? Para que marcação? Bagunça total.

É difícil escrever esse texto sem ficar enraivado. Kroos e Müller avançam livremente em direção ao gol, enquanto Lahm, também sem marcação (???), cruza, visando os pés de Müller. O Raumdeuter não consegue finalizar e a bola sobra para Kroos, ainda desmarcado, chutar e anotar o terceiro gol alemão. Temos um time jogando e outro assistindo.

Um time taticamente armado jogando contra uma seleção de meninos, parafraseando Galvão Bueno. Mérito do time de Joachim Löw ou demérito de Felipão?


O time brasileiro não conseguia trocar simples passes

As coisas visivelmente estavam alteradas para a seleção brasileira após o terceiro gol. Poucos segundos após a saída de bola, Kroos rouba a bola de Fernandinho e avança, com Sami Khedira livre de marcação e David Luiz na ponta direita, bem longe do lance.

Khedira avança, livremente, sem nem sinal de David Luiz para cobrir a zaga, e recua para Kroos. SEM MARCAÇÃO!!! Fernandinho, que vai tentar consertar a besteira, marca ninguém no tempo certo e tenta pressionar Khedira, que está bem longe dele. O seu marcador correto, que seria Marcelo, fica indeciso na jogada, permanecendo na frente do gol.

Agora acontece o mais esquisito: por que diabos Fernandinho não tentou recuperar a bola de Kroos? Não faria muito mais sentido? O Brasil consegue cair três vezes, no mesmo jogo, na jogada em que a marcação é puxada propositalmente visando abrir espaços. Enfim: Toni Kroos recebe a bola livremente. Repare em David Luiz ao canto direito, ainda longe do lance, só observando o atual meio-campista do Real Madrid fazer o quarto gol da Alemanha.


O quinto gol é exatamente igual ao quarto

Ocorre exatamente a mesma coisa. O que muda, desta vez, são os jogadores envolvidos. Parece replay da jogada anterior, mas não é. Deprimente. Agora, os futebolistas — que tabelam dentro da área de uma seleção pentacampeã do mundo — são Mesut Özil e Sami Khedira.

No mesmo tipo de jogada, após carrinho de Hummels e recuperação de bola do time alemão, Özil atrai a marcação de Dante e recua para Khedira. Novamente sem seu marcador. Aí ficou fácil…

Não dá para culpar Khedira, ele apenas rolou a bola para o fundo das redes sem marcação alguma. Fez o trabalho dele. Lastimável. Cinco a zero. Virou passeio!


O sexto gol foi marcado pelo espaço disponível em campo

Neste jogo, o Brasil teve sérios problemas em lidar com o espaço. Raramente vimos um time compacto em campo, tampouco estreito. Equipes estreitas e compactas tendem a diminuir o espaço para trabalho do adversário, e a Canarinho esteve longe disso [de ser uma equipe estreita ou compacta].

Kroos, marcado por três jogadores, ainda assim conseguiu tocar para o espaço que deveria ser preenchido por Oscar. No toque, o capitão da Alemanha lançou Khedira, sem marcação, em profundidade.

O mais incrível vem agora: quem deveria marcar o Khedira (Marcelo), avançou para tomar conta de Lahm, enquanto Oscar (!!!), que estava atravessando o campo, foi pressionar Khedira, mas tudo que ele faz é liberar ainda mais espaço.

Livre, o teuto-tunisiano tocou para Lahm, que explorou o espaço nas costas de Oscar (e se aproveitou da liberdade concedida por Marcelo) para cruzar. Repare no movimento de Oscar (em vermelho), que avança para a linha de fundo tentando impedir o cruzamento de Khedira.

Lahm tocou a bola para Schürrle entre cinco defensores brasileiros. E, como já sabemos, o atual atacante do Wolfsburg venceu a disputa com Ramires e David Luiz para finalizar no canto esquerdo de Júlio César. Seis a zero.


Brasil não foi Brasil

Lembra daquele time com raça? Com vontade de vencer? Marcando fortemente os jogadores e fechando todos os espaços possíveis, num time compacto e que marcava em blocos sólidos? A grande técnica que sempre tivemos em abundância com as bolas no pé? Pois é. Parece que a tradição brasileira sumiu na Copa do Mundo de 2014, com essa partida não sendo uma exceção.

Müller vence Marcelo e manda para a área, onde há novamente espaço a ser preenchido por jogadores. Schürrle corre, novamente com a marcação defasada e atrasada, em direção à trajetória da bola (seta verde).

O atacante alemão é mais rápido que David e consegue se antecipar ao lance, finalizando com uma pitada de sorte e finalizando a contagem: sete gols.


Dado o equilíbrio nos dados do jogo, 7 a 1 não foi um resultado justo. Ou talvez foi? Quem sabe, com esse vexame em seus próprios domínios, a Confederação Brasileira de Futebol mudasse algo na estrutura da corporação, para que voltássemos a ser aquele Brasil que todos temiam, a seleção mais respeitada do mundo. Não foi dessa vez. Não satisfeita com a goleada, a seleção brasileira seria eliminada para o Paraguai na Copa América do ano seguinte. O tempo passa, mas a falta de vergonha da nossa confederação, não. 7 a 1 foi pouco!

Relembre os gols:

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