

Sete a um foi pouco, e eu explico porquê
Novos gols, talvez não da Alemanha, estão por vir
Eu não canso de bater na mesma tecla: 7 a 1 foi pouco. E foi mesmo. Deveria ter sido muito mais. Pela “frescura do futebol brasileiro”? Não. Pelo ódio ao “futebol moderno que está emergindo em uma escala astronômica no Brasil”? Tampouco.
Dia 8 de julho de 2014, o fatídico dia. Um marco na história do futebol. Nunca antes a seleção anfitriã e pentacampeã mundial levaria uma surra tão grande. A história do futebol — e do Brasil também, por que não? — pode ser dividida em período pré e pós 7 a 1.
O período pré-gol da Alemanha é lembrado, pela maior parte das pessoas adeptas à “geração Cenas Lamentáveis”, como a parte boa do futebol brasuca. O pós é fadado ao fracasso eterno. Simplesmente assim. Mas, voltando ao propósito do texto: o que justifica o termo “7 a 1 foi pouco”?
Não vejo nada mais justo do que tomar como base correta a seleção alemã de futebol. Sim, ela mesma. Para entender o embasamento, viajaremos no tempo até 30 de junho de 2002. Que grande dia! Com dois gols de Ronaldo — o verdadeiro Ronaldo — a seleção brasileira de futebol se sagrava pentacampeã mundial. Certamente essa data está acoplada na memória de muitos fãs de nosso futebol. O problema é que o pensamento estagnou por aí.


Não consigo negar: admiro o povo alemão. Perderam duas guerras mundiais, foram humilhados e viram seu país ser dividido em quatro partes! Mas se recuperaram em tempo recorde, inclusive em infraestrutura. É exatamente esse o ponto. A comparação do país Alemanha com a seleção nacional alemã é perfeitamente cabível. A linha de pensamento é a mesma.
Quando foram derrotados em 2002, pensaram entre si “puxa, as coisas não estão boas para nós. Somos tricampeões, eles conseguiram o quinto campeonato. Está na hora da gente se mexer”, e assim foi.
Criaram escolas de futebol, a filosofia de trabalho da federação alemã agregou muito mais que apenas a camada principal de jogadores. O investimento e a paciência para plantar e colher frutos resultaram, coincidentemente, num dos momentos mais precários do nosso futebol. Não foram melhoras imediatas, 2006 e 2010 são a prova disso, mas quem aguarda e mantém fé num trabalho obterá resultados, mais cedo ou mais tarde.
Joachim Löw, desde 2004 trabalhando na seleção germânica, dá consistência ao trabalho. São 12 anos na mesma casa, conhecendo tudo: as melhores peças, os melhores esquemas táticos, uma imersão gigantesca que certamente dá o titulo de seleção mais bem treinada atualmente.


Não aprendemos nada com isso. De 2002 para cá, foram cinco mandatos, três técnicos diferentes e três fracassos em Copas do Mundo. O mais notável em 2006: a eliminação para a França com um erro de marcação grotesco, um técnico ultrapassado para a função (Carlos Alberto Parreira) e com um “quadrado mágico” que não deslanchou. Toda a fé estava depositada nos quatro jogadores principais, que eram Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano. Todos estes atuavam tremendamente em suas respectivas equipes, mas não rendiam na seleção brasileira. Por quê?
É simples. Numa associação tão corrupta como é a CBF, onde sucessores são nomeados à dedo ou via empresários, era de se imaginar que as coisas fracassariam mesmo antes de começar. A arrogância e a prepotência — não só da equipe brasileira, mas como nossa também. Tenho que admitir, aquela seleção era o máximo — foram um grandioso tiro no pé de nossas esperanças para conquistar o tão esperado hexa, que está longe de vir para terras tupiniquins caso as coisas continuem como estão.
O problema é que em 2010 a situação foi igual, e em 2013 também. Vencemos a toda-poderosa Espanha e a certeza de que ganharíamos de tudo e todos voltou a aflorar na pele brasileira. A verdade, mesmo que doa, é que estagnamos no tempo. Exatamente como as empresas inovam buscando melhores resultados, as seleções tomam o mesmo rumo. Quem se desenvolve, quem pensa a longo prazo e quem se renova (creio que essa é a palavra-chave) consegue resultados.


A seleção alemã está lá, forte, com muitas chances de ser a nova pentacampeã mundial em 2018. E nós, temos grandes chances? Temos infraestrutura? Qual a probabilidade de vencermos a Copa do Mundo que será realizada daqui há 2 anos na Rússia? É grande? Pelo andar da carruagem, creio que não.
O 7 a 1 mais recente foi o pós-Copa. Luiz Felipe Scolari foi demitido. “Ah, certo. Agora teremos um técnico de verdade, né?”. Não foi dessa vez. O mesmo técnico que foi derrotado em 2010 com um sistema tático lamentável reassumiu a condição de treinador da seleção brasileira. Incrível. Um homem que tem limitações táticas, que apresentou um trabalho abaixo da média na mesma seleção entre 2006 e 2010 e que fez o básico com o Internacional de Porto Alegre seria a salvação, não é mesmo? Pergunte ao Paraguai.
O tempo não para. O futebol não parou no tempo. A modernidade chegou e não podemos fugir dela! Não vivemos mais nos gloriosos tempos de 1994. Vivemos o hoje. 2016. Precisamos acordar! Chuteira preta não ganha jogo. Camisa para dentro da calça? Zagueiro que não ri e tem nome que “impõe respeito”, como Odvan? Jogador sem selfies com língua para fora no Instagram… Adivinha? Não ganha jogo. O que ganha jogo é a maneira inteligente de pensar. O futebol não é acaso. Não é totalmente sorte. Todo o planejamento é necessário, e estamos longe disso.


O mais engraçado é que, assim que a seleção alemã venceu a Copa em nossas terras, tiraram fotos com seus parceiros — fazendo biquinho, importante ressaltar — , usavam camisa para fora da calça, tinham chuteiras coloridas, penteados de cabelo diferentes e mandavam à campo jogadores com nome Sami [Khedira], Mats [Hummels] e Miroslav [Klose]. Que nomes de respeito, hein Confrade?
Vamos mesmo deixar os alemães nos alcançarem? Tenho orgulho de ser brasileiro em alguns aspectos. Principalmente no futebol de seleções: somos o maior campeão de Copas do Mundo! Mas, no momento, somos retrógrados. Precisamos nos reciclar com urgência. A Amarelinha é bem maior que sete gols em noventa minutos!
Enquanto isso não acontecer, pode ter certeza: vários 7 a 1 estão por vir.
Essa foi a análise extracampo. Caso queira ver o baile tático alemão aplicado na prática, é só clicar aqui e terás uma análise completa de cada gol da Alemanha. Obrigado por ler!