Borboletas

Sabe, o peito tá cheio daquelas borboletas que escaparam do estômago. É um tal de bate-asa que eu nem sei quantas delas são. O ar que entra desarranja o vôo, atrapalha a aerodinâmica e o ar que sai coça no nariz, acho até que espirrei uma patinha de alguma pobre coitada. Não sei explicar como é que esses bichos andam por mim, muito menos o que eles tão fazendo por aqui. Não é coisa de gente normal, sentir o coração batendo na ponta do dedo pé. Mas eu sigo assim, faço um café, me sirvo uma taça de vinho, penso em mim mesmo, no que me cabe, mesmo que às vezes transborde. Que deixe vazar um palavrão com cara de borboleta sem asa. Tomo mais um gole, penso mais um pouco, me olho no espelho. Aliás, eu que nunca gostei de reflexo, mandei por um espelho de quase 3 metros no quarto. Que coisa mais monstruosa aquela máquina imensa de re-mostrar o mundo. Tudo do avesso, tudo ao contrário, que coisa pavorosa que eu fiz… quando sento na cama não consigo virar o olho, fico ali, bicando a água que coloquei no chão na noite anterior e olhando para aquele mundo dentro do espelho. Pensando como é que seria se um dia eu acordasse antes daquele cara que tá ali dentro. Como é que seria se um dia ele resolvesse simplesmente não aparecer. Já criei até conto de amor em que o reflexo se apaixona pela sombra e de mãos dadas vão caçar borboletas de estômago. Eita que é bom demais ficar escrevendo na cabeça quando aquele cara tá me encarando daquele mundo dele de quase 3 por 1,5m. Será que ele sabe o que eu to pensando também? Ou só consegue imitar o que tá vendo? Sabe, o peito tá cheio de borboletas que escaparam do estômago e o bate-asa que a gente chama de azia virou samba de coração velho e remendado, no peito do poeta que tá cansado.

Like what you read? Give Luis Gaspar a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.