Nem tudo que queima vira pó…

Luis Gaspar
Sep 3, 2018 · 2 min read

O fogo pode gerar memórias. Doloridas, sim. Acima da dor, absolutamente necessárias.

Este é o segundo incêndio longe de mim que me faz sentir músculos arderem de alguma sensação muito próxima de ódio. O primo mais próximo, talvez irmão distante, do medo. Aliás, é com medo no coração que início e provavelmente irei terminar esse texto, que devia ser um texto jornalístico e se tornou, no fundo do meu peito, uma carta aberta ao Brasil. Um pedido de coração partido.

Que as ruínas da nossa história virem Memorial. Que no local onde a Ocupação ardeu no Largo do Paissandu, sejam construídas estátuas e pintadas paredes em lamentos públicos. Que o Museu Nacional seja o Museu Nacional também em suas chamas, em seus restos. Que em cada canto de país onde morreu um jovem por descaso, uma mulher por machismo, ou um homem por violência, que em cada gota de sangue que marque esse asfalto, seja colocada um placa. Que cada dor vire um discurso, um desenho, uma poesia. Que as nossas dores não sejam subjugadas aos critérios de noticiabilidade dos jornais falidos que ainda nos informam sobre o estado de um estado moribundo e usurpado. Que a vida de nosso sofrimento seja a memória que nos leve para outros caminhos, novos erros.

Deixo, aqui, meio sem conseguir pensar nas frases, sem conseguir juntar as palavras, o pedido de que nós, brasileiros, aprendamos a lidar com a dor e paremos de fugir de todas formas de insatisfação. Uma população com medo de sentir dor é uma população apática e a apatia, acreditem é mais inflamável do que aquelas memórias que histórias que se apagaram na luz do fogo que consumiu o que o consumo não considerou lucrativo o suficiente para ser conservado.

    Luis Gaspar

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    textos de metrô, mesa de bar e cama vazia, sem revisão alguma...