Sobre beber em fundos de poço

Sofrer, olhar para o sofrimento, sentir, conviver com eles, aproveitar e entender a própria dor. Pegar ela no colo, alimentar até que ela gere algo.

A foto acima é de Félix Gonzales-Torres. É a foto da cama que ele dividia com seu falecido namorado Ross, tirada depois de sua morte. A escolha de conviver com a morte do companheiro. Não a escolha de esquecer dela, de deixá-la de lado até que se torne mais leve, de desviar de seus significados e evitar tudo que o liga ao falecido amado.

É caminhar ao lado do sofrimento dessa perda como caminhou ao lado do próprio Ross. É olhar para a dor, para a sensação da perda e aproveitá-la. É tirar dela um significado e significar assim sua obra. É, afinal de contas, uma foto, uma obra que mostra os buracos e marcas que o outro deixou.

O artista é um ótimo exemplo de quem tem isso. E é muito bom que tenha. A capacidade esquecida de sofrer por completo. De fazer do sofrimento algo que faça crescer, aprender, criar. A capacidade de não tentar desviar de sofrimentos, mas deixar ser atingido e vivenciar cada segundo do impacto.

Tal exercício mostra-se importantíssimo em tempos em que se prefere mascarar tudo que é possível. Nem o impacto de não sermos exatamente como gostaríamos fisicamente nós temos. Mascaramos dores, fugimos delas em todos os níveis. Seja um grande trauma jogado em baixo do tapete, seja a simples maquiagem que mascara o sofrimento de não nos acharmos assim “tão bonitos” hoje.

Eis um grande papel que o artista deve ter. O de transformar suas dores em provocações reflexivas. Ao vivenciar e aproveitar suas dores do modo que faz, o artista, seja de qual arte for, provoca o espectador a refletir sobre o quanto impede seu próprio crescimento ao se render à um estilo de vida anestesiado.

Munch, que perdeu a mãe aos cinco anos e a irmã mais velha aos 14, Magritte que encontrou a mãe morta boiando num rio depois de dias desaparecida, Weiwei que esculpiu seus dias na prisão, Abramovic que pontuou o fim de seu relacionamento duradouro com uma performance, Nelson Baskerville que encenou a difícil história de sua irmã Gabriela (Luis Antonio). Tantos outros.

Falar de suas tragédias pessoais não é regra para o artista. Mas saber sentir essas tragédias de modo livre e absorvendo tudo que dela emana, pode ser regra interessantíssima para o jogo criativo. Provocar o espectador a fazer o mesmo exercício é fundamental.

Ao evitar sentir a dor, evitamos em muitos níveis o conhecimento e até a própria vida.