Tartamudeando sobre processos criativos

Quando nos permitimos absorver de fato grandes manifestações artísticas, muito muda. Sempre. Existe uma parte do mundo que são as artes visuais que conheço pouco, que não faz parte daquilo que desenvolvo. Pelo menos não diretamente. Vem daí a primeira reflexão.

Pintura, por exemplo. Mundo tão desconhecido. Mercado tão desconhecido. Processos criativos tão desconhecidos. Tantas obras tão desconhecidas. Acostumamo-nos com pregos em nossas paredes que sustentam imagens e no fim estamos mais acostumados com os pregos que com as imagens.

A primeira reflexão vem no valor de uma arte em partes “desconhecida” para a arte que é realmente nossa. Parece absolutamente óbvio, mas como ator vejo que muitas vezes não trazemos o valor de outras artes para o exercício de nossa própria.

Decroux diz: “Por pouco o teatro não seria uma arte, pois ele evoca a coisa pela própria coisa […]. Em resumo: para que a arte seja, é necessário que a ideia da coisa seja dada por uma outra coisa.” (Decroux, 1963)

Permito-me usar desta afirmação no sentido que convém a este rascunho, uma arte que deve evocar outra coisa que não a si mesma. A obra deve evocar algo de novo, algo que transcenda ela mesma. Uma obra que evoca a coisa pela própria coisa não provoca, não gera reflexão, não tira do lugar.

E a ideia pode vir de meios outros que inicialmente parecem ligeiramente desconexos. Um quadro como a inspiração de uma montagem teatral? A reflexão vinda de um quadro como inspiração de uma montagem teatral? Uma escultura? Um edifício?

Numeraria alguns trabalhos teatrais que têm tais obras como inspiração, que se deixam transbordar pelas artes irmãs (leia-se todas as outras), mas podemos sempre ir além, podemos incorporar em todos os sentidos, podemos trazer sentidos incorporados por essas obras às nossas obras.

O exercício de criação artística em seu início se dá de uma provocação. O artista se sente provocado por uma força externa. E segue por uma reflexão que resultará no início de sua construção artística. Uma força que o tira da inércia e então o movimento, que é a reflexão sobre a provocação que gera um processo criativo que por sua vez chega na obra.

Deve-se absorver toda e qualquer forma de arte do melhor modo possível. Diria que, a partir disso, o ator deve dar uma importância muito maior para a própria história da arte como um todo. Deve absorver as formas de arte com a mesma seriedade que treinam seu corpo e sua técnica. Assim também o pintor, o escultor, o performer, o cineasta, o músico, devem olhar entre si, para o teatro e todas as outras artes como fonte potente de inspiração não somente temática e superficial, mas de processo criativo.

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