Essa crônica demorou bastante a ser redigida. Confesso que outras crônicas foram escritas nesse meio tempo entre quarta-feira e a madrugada de sexta para sábado.

Mas todas elas ainda pareciam verdes. Ainda não estavam prontas.

Pois bem. Das mais tenras memórias que tenho, uma salta à mente: uma fita, VHS, da final do Brasileiro de 1980.

Flamengo e Atlético. 3 a 2. Talvez o jogo que mais vi na vida.

Era uma espécie de ritual, para uma criança rubro-negra, conhecer um pouco daquela história. Era uma maneira de resgatar uma memória, um sentimento, de algo que, em muito, me antecedia.


Minha ida ao Brasil, neste quente mês de Junho, se concretizou graças a milhas — se você visse o preço de uma passagem com o dólar nas alturas, cairia pra trás.

Pois bem. Sou levado ao aeroporto da praiana Fort Lauderdale.

Cidade sem charme. O praianismo só combina com casinhas e ruas de paralelepípedo. Ou Ipanema. Olho pela janela e a cidade salta, como num letreiro, “BARRA DA TIJUCA”.

O aeroporto é tacanho (para padrões norteamericanos, que fique bem claro). Cheio de turistas. Não vi um só engravatado desde a manhã desta segunda.

Aliás, minto. Acabo de olhar para o…


Image for post
Image for post

O fato estampado em qualquer produção do cinema americano é um certo patriotismo.

Produtores, diretores e atores entendem este fato — não há que se abster. Há de se comer deste banquete.

Patriotismo esse que já foi mais escarrado. Encaixe o arco do jovem herói em algum contexto que venda e lá está. Vinte-e-sei-lá-quantos-anos de cinema baseados nesta fórmula.

Mas cansou, e mesmo Hollywood soube se reinventar em alguns pontos.

O Primeiro Homem não deixa de ser um bom exemplo disso.

O longa conta a história de Neil Armstrong — o primeiro ser humano a pisar na Lua, em 1969.


Por um momento estava sentado na poltrona do escritório, uma confortável poltrona de couro, e fui acometido pelo que há muito não acontecia.

Houve em mim uma súbita vontade de escrever.

E não me entenda mal. Talvez o que eu mais faça nessa vida, desde que me entendo como um pensante, seja escrever. E ler também.

Mas era um escrever dotado daquilo que há de mais subjetivo naquele que escreve. É um escrever sem motivo.

Por isso me levantei, fechei a porta do escritório e deitei num sofá. …


As vezes me chamam de maluco.

Toda vez que eu entro no carro e rodo a roda da vida pra te ver, dizem que enlouqueci.

Me chamam de inconsequente por ver tanta beleza no aspecto denso da noite.

E por vezes, por transformar noites em três dias.

A juventude deve ser um tipo de piloto inconstante e irresponsável, dizem.

Pois bem.

O que batizaram de juventude é, na realidade, o frescor do novo. Qualquer coisa de encanto sobre aquilo que não se conhecia.

Mas há um medo tão grande nas pessoas…

Coitadas. Elas olham para os desafios e logo desejam sofás, TV.

Por mais meras que sejam as chances dos dragões serem, na realidade, moinhos de vento.

Eu ando rumo ao incerto. Feliz, mas rumo ao incerto.


Image for post
Image for post

Aconteceu, então, dele se encastelar neste quarto. Um quarto que é um dos diversos quartos do palácio do lirismo. Tão bem e tão frequentado pelos grandes poetas de todos os tempos.

Ele é vasto e revestido em mármore. Há a vista de uma janela ampla, que dá para um enorme campo, coberto por vazio.

Além de cama e janela, só papel e caneta. Os únicos artefatos que entram no palácio do lirismo.

E lá de longe se vê. É ela — a grande comitiva do amor.

Ah, ela vem por aí. Que bela. Estandartes, som, música e cor.

Ela vem…


E subitamente o mundo virou estrada — reta o suficiente para que sua cabeça estivesse em outros mundos, outros tempos, outros momentos que não aquele.

Pensava no amanhã como se o hoje não bastasse e o ontem já não existisse. Como se cada segundo trouxesse um peso desproporcional à representação abstrata do tempo.

Placas, postos, restaurantes, cidades — iminente presença do fim. Cada música no rádio do carro representava o relógio. Impertinentes horas batidas.
Ao seu lado ela dormia. Leve. Não há nada mais o que dizer. Faltam palavras para extrair a realidade do que via.


Image for post
Image for post

Assisti recentemente um documentário sobre o professor Darcy Ribeiro, uma daquelas figuras eternas da história deste país.

Não conhecia o discurso feito por Darcy no enterro de Glauber Rocha, outra daquelas figuras eternas da história deste país.

“Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar. A dor de todos os brasileiros. O Glauber chorava as crianças com fome. O Glauber chorava esse país que não deu certo. A brutalidade. A estupidez. A mediocridade. A tortura. Ele não suportava. Chorava, chorava, chorava.”

“Fica, de Glauber, a herança de sua indignação. …


Cheguei no cabelereiro com a impaciência de quem precisa cortar o cabelo. Como não havia marcado horário algum, tendo a sorte como fiel escudeira, recebi um sonoro chá-de-cadeira, por pouco mais de vinte minutos.

Concentrado na leitura de uma reportagem, vinte minutos não seriam lá uma espera. Infelizmente, a bateria do telefone não foi uma fiel companheira, me lançando ao destino das revistas de espera.

Como sou dado a uma boa banalidade, resolvi me entreter — a gente se diverte com o que pode. Nada que, no entanto, me impedisse de analisar as figuras, diria, genuínas daquele salão.

Havia, ali…


O relógio marca exatas seis horas da tarde. Ele se levanta, veste o blazer — em repouso durante todo o dia, na cadeira — e deixa sua sala. “Vinte anos e até hoje não entendo o blazer”, pensa.

Entra no carro e automaticamente toca para casa. Ao estacionar na garagem do loft, é acometido por uma tremenda sede, cujo único antídoto provém da cevada. “Agora não há mistério. Quero beber, vou ao bar e pronto”, concluiu.

Sentou numa daquelas mesas de aço, mostrando nenhuma pressa em seus atos. Como não havia mistério, pede uma Brahma.

— Ah, e traga uma…

Luis Mauro Queiroz Filho

Surfando na onda do hype

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store