O debate é um movimento

Há pouco menos de dois anos, no II Open de Belém, iniciava-me no debate competitivo. Certo de que sabia debater, fui, ao longo do torneio, aprendendo quão pouco sabia e quanto podia aprender com este grupo de pessoas tão apaixonado pelas ideias, as palavras e o debate como eu. Desde aí que não parei.

Seguiu-se o Admirável Mundo Novo, o Terramotu, o Lisbon Open, Oxford, Budapest, o TORNADU 16, o Minho, novamente Belém, novamente o Lisbon Open, o Porto e Paris. Temperados de adversidades de variado grau, foram todos momentos de crescimento, onde partilhei salas de debate, viagens e conversas com algumas das pessoas que mais admiro. Cresci, atrás e à frente da mesa de adjudicação. Comigo cresceu o meu entendimento e paixão pelo jogo, e serenaram as minhas duvidas sobre o seu real valor e impacto. Tudo isso culminou na honra de ser CA do TORNADU 2017, motivo deste texto, que já abordarei. Antes disso, deixo alguns dos agradecimentos que fiquei, ao longo destes meses, a dever:

Ao David Mourão, por ter trazido o debate para o ISEG e mudado a minha vida. Ao Tiago Oliveira, por ter sido o meu primeiro parceiro de debate e por nunca ter deixado de o ser. Ao Pedro Pacheco, por tudo. Ao Hugo Volz Oliveira, por me ter ensinado que não sabia debater. À Luisa Taveira, por me ter feito ver o poder transformativo que o debate pode ter nas pessoas e no mundo. Ao Ary, por me ter ensinado mais sobre debate em conversas entre rondas do que aprendi nelas; por ter feito o whip que me fez, pela primeira vez, ganhar um torneio. À Mariana Baptista e ao Xiang Zhou, por me terem dado o prazer de ajudar a crescer a parte do futuro deste movimento que representam. A toda a SDUL, sem a qual não poderia agradecer a todos estes. Ao Chula, à Cátia Barata, ao Duarte, à Maria Amado, ao Guilherme Sousa, à Marta Pires e ao Vasco, que foram em algum ponto desta travessia parte da minha equipa. A todos os outros que fazem este movimento possível.

It’s alive!

Este TORNADU foi a prova inequívoca de que o movimento nunca esteve mais vivo. Não estando nisto há muito tempo, arrisco dizer que nunca uma universidade albergou tanto conhecimento sobre bem debater num fim de semana. Vi debates bons e muito bons, vi uma vontade explícita de ser honesto, de compreender o outro lado de debate sem conceder a vitória, de inovar e de aprender. Vi pessoas a encararem cada momento de feedback como uma oportunidade de crescimento e reflexão conjunta, onde a atitude adversarial perde o seu lugar. Vi adjudicadores a desafiarem as suas pre-concepções sobre o mundo, num esforço para oferecerem a justiça que os debateres mereceram. Vi uma comunidade madura que se soube respeitar, que se divertiu e debateu com ímpeto. Estamos de parabéns.

Enquanto parte da CA Team compete-me ainda uma reflexão mais minuciosa sobre os aspectos competitivos do torneio, que, depois de auscultados todos os participantes, será produzida e apresentada a todos os interessados. Aqui falarei apenas de um debate, a final.

O factor wow

Até agora, a crítica mais comum ao motion set, e à final em particular, é a de que faltou factor wow . Esta crítica, tanto quanto a consigo perceber, surge de visões discrepantes sobre o que faz uma boa moção, e o que faz uma moção ser digna de uma final. Tentarei explanar a minha visão, convicto de que possa ajudar a explicar o porquê da CA Team ter achado que este era o debate mais wow que podíamos oferecer aos debaters.

Esta Casa preferiria viver num mundo onde toda a imprensa e media online são pagos pelos seus utilizadores sem modelos de negócio alternativos, como, por exemplo, publicidade

Na nossa opinião, o rumo que a imprensa e os media tomarão nos próximos anos será provavelmente o tema determinante em traçar o caminho de todos nós, do nosso país e do nosso mundo. Como o debate nos mostrou, estes estão na base de uma democracia, são estes que informam e moldam a forma como o debate público tem lugar, que escolhem o quê e em que moldes a nossa sociedade olha para si mesma. Não há qualquer esperança para um mundo mais justo, solidário e pacífico sem uma viragem da consciência e debate publico - este é um dos motivos que me faz debater em vez de ficar em casa a ler, este é o motivo pela qual escolhemos esta moção para a final. Não creio que seja a função de uma boa moção deixar as pessoas surpreendidas ou obter uma ovação em pé. Esta não deve brilhar mas sim dar aos debaters uma oportunidade para o fazerem. Na minha opinião, esta oportunidade só existe se a moção for equilibrada, clara e profunda. Creio que a função da final cumpre estes 3 requisitos. Creio que todos brilharam e contribuíram para um avanço da reflexão, que só será útil se for também conjunta, sobre este tema.


No seu máximo potencial, o debate é um movimento que avança e não deixa ninguém para trás, é um movimento em que todos se sentem bem e em que todos crescem, de uma forma que se alastra para todas as esferas da sua vida, que se multiplica em todos os contactos que temos, fora ou dentro de torneios. Creio que este torneio foi uma homenagem a esse potencial, e um passo em frente rumo a esse máximo. Até Coimbra!

Dado que o homem de senso comum faz um apelo ao sentimento, ao oráculo dentro do seu peito, está definitivamente desligado de qualquer um que não concorde; só tem de explicar que não tem mais nada a dizer a alguém que não sinta o mesmo que sente em si. Por outras palavras, atropela a raiz da humanidade. É a natureza da humanidade avançar no consenso com os outros; a natureza humana só existe na construção de uma comunidade de mentes.

Tradução livre da Fenomenologia do Espírito de Hegel

Like what you read? Give Luis Melo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.