A Bolha dos que concordam com você
Existe aquela frase que diz que não se discute política nem religião. Esses dois assuntos seriam algo que gera tanta discórdia entre as pessoas que simplesmente abordar um dos dois geraria discussões graves e que destruiriam amizades e relacionamentos.
Estamos num momento do país em que o noticiário é 25 minutos sobre política e 2 minutos sobre futebol. Política atualmente é praticamente o único assunto que se discute atualmente. Seja falando sobre a operação Lava-jato, sobre o processo do impeachment, sobre o Cunha, Renan Calheiros ou até mesmo sobre as eleições municipais que ocorrerão em Outubro deste ano de 2016.
Tenho a opinião de que se deve conversar sobre política de fato mas em condições adequadas de temperatura e pressão. Eu prefiro não discutir política com meus amigos pela internet. O local ideal pra entrar nesse assunto é no cara a cara, olho no olho, de preferência na mesa de algum bar ou num churrasco.
A internet é algo que mudou consideravelmente a forma de viver, se informar e de interagir de alguma parte das pessoas. Você tem a impressão de que todo mundo está na internet. Os seus amigos, colegas, vizinhos, parentes estão lá. Os políticos, as celebridades e as sub-celebridades estão nela também. E praticamente toda a informação deve estar lá. Quantas perguntas ou dúvidas improváveis de ter uma resposta você jogou no google e ele te deu algum tipo de resposta? (Nem que seja aquela pergunta super mal formulada no yahoo respostas).
Ao mesmo tempo existe algo nas redes sociais que é chamado de filter bubble. Você provavelmente usa o Facebook. Já notou que na sua linha do tempo não aparecem posts de todos os seus amigos? Nem de todas as páginas e grupos que você acompanha? O Facebook observa muito bem o seu comportamento. Tanto o botão de like, quanto os comentários e as pessoas com quem você conversa no chat, influenciam no que ele mostra ou não pra você na sua linha do tempo. E o Mark Zuckerberg quer que você passe o maior tempo possível conectado na rede social que ele criou. Quando um produto ou serviço com fins lucrativos é gratuito é porque o consumidor é o produto. É assim na TV aberta, no Rádio e também no Facebook. Essas mídias ganham dinheiro com a propaganda que mostram aos seus consumidores. E ela pode ser muito sutil no Facebook.
Dessa forma para que você passe mais tempo no Facebook ele quer que a sua experiência de usuário seja a mais agradável possível. E em geral as pessoas gostam de passar o seu tempo com pessoas que elas gostam, acham engraçadas, interessantes e que provavelmente concordam com elas em muitos assuntos. Dessa forma, cada like que você dá está dizendo pro algorítimo que escolhe o que te mostrar nessa rede social: “Me mostre mais coisas desse meu amigo”.
Por conta disso a sua relação virtual com as notícias e com outras pessoas nessa rede social passa a ocorrer dentro de uma bolha filtrada. Você só vê em geral as opiniões dos seus amigos e páginas que você dá o curtir. Então muitos quando se deparam com uma opinião mais diferente e provavelmente mais radical do que eles estão acostumados levam um certo baque.
“Como é possível que alguém pense essas coisas? E pior, escreva elas na internet pra todo mundo ver?”
“Que absurdo alguém pensar dessa forma em pleno 2016!”
“Está tudo tão estranho…”
Aí quando você descobre que centenas de milhares de eleitores do seu estado votaram em um deputado que você abomina você fica estupefato. Será que todos esses eleitores pensam dessa forma? Diriam essas coisas? Tratariam as pessoas do jeito que ele trata?
A partir dessa questão tem quatro abordagens que eu conheço. Em relação ao seu amigo do Facebook que você vê postando comentário desonesto ou simplesmente canalha sobre qualquer assunto, ou notícias e links de fontes conhecidamente duvidosas ou enviesadas:
- Você mantém ele como amigo e continua vendo as coisas normalmente.
- Você mantém ele como amigo mas dá unfollow fazendo com que não apareçam mais esses conteúdos na sua linha do tempo.
- Você conversa com a pessoa sobre isso. Em capslock ou não.
- Você o deleta do Facebook, Orkut, MSN. Se o ver andando na rua atravessa pro outro lado fingindo que não o viu. Liga pra pizzaria e pede 50 pizzas pro endereço dele.
Cada pessoa é uma pessoa e cada caso é um caso.
Você não precisa ficar tentando convencer alguém que tá 100% errado, foge do assunto, e fica afetando uma superioridade moral e intelectual quando alguém paga o blefe dele.
Você não precisa continuar amigo de quem defende abertamente regimes genocidas. Nem precisa continuar falando com alguém que defende pessoas que nunca sequer pensam nele enquanto algo mais que um número maior de fãs, eleitores ou consumidores.
Você não precisa convencer um cara burro e desonesto com um debate escolástico. Você não precisa nem debater com ele.
Creio que essa coisa açucarada, de querer ser amigo de todo mundo, e parecer ser uma pessoa boa provavelmente contribuiu para que o Brasil chegasse aonde ele está agora.
No entanto, viver completamente isolado numa bolha só com os que concordam com você em tudo não é também é bom. Tenho como amigos lá naquele site pessoas de posições completamente diferentes da minha (não só em política, em quase tudo) mas que não tiro da minha linha do tempo para não ficar vendo só aquilo que eu gosto. É importante saber como os outros estão pensando. O mundo não acaba no seu círculo de amigos nem nas pessoas com quem você convive. Os seus colegas de curso ou do trabalho não representam a população brasileira. E É por isso que choca tanto a popularidade de figuras e organizações extremistas que beiram a loucura tanto na política quanto em outras áreas do Brasil e do mundo.
Sai um pouco da bolha, vai ser chato e um pouco desconfortável mas a verdade está la fora.
Nota 1: Por sugestão de um amigo vou colocar aqui um vídeo sobre os algoritmos que filtram o que você vê nas redes sociais e pesquisas no Google.
Nota 2: Tem um erro na legenda. Nos Estados Unidos a palavra “Liberal” significa esquerdista. O tradutor traduziu como liberal.