A foto oficial do governador
Por Luis-Sérgio Santos
JORNALISTA
Dispostos em ângulo frontal e diagonal à mesa de trabalho do presidente da República dos Estados Unidos estão os retratos oficiais de George Washington (frontal) e de Abraão Lincoln (em diagonal). São dois fundadores da nação de olhos bem abertos para a mesa presidencial. Os retratos são as “fotos” oficiais — são dois retratos em óleo sobre tela — , uma tradição que se espalhou em democracias e ditaduras no mundo todo, cada uma fazendo usos distintos da imagem do líder de plantão. Existem fotos clássicas como os retratos de Mao Tsé-Tung, a foto antológica de Stálin, e, na historiografia brasileira as fotos marcantes de Deodoro e de Floriano. A galeria das fotos oficiais dos presidentes da República do Brasil está disposta no palácio do Planalto e no site <www2.planalto.gov.br/acervo/galeria-de-presidentes>. Mesmo Tancredo Neves, que não teve tempo de fazer uma foto oficial, lá ganhou um arranjo.
A “foto oficial” é pois, um traço marcante da gestão. É uma referência iconográfica importante e necessária. Ela tem um enorme valor simbólico e tangibiliza, na figura retratada, a ideia de autoridade, prumo, gestão e direção. É um farol que pode despertar emoções de amor a ódio, passando pela indiferença. De qualquer forma, mesmo na indiferença a foto estará posicionada estrategicamente na parede. No futuro, habitará os livros de história e ganhará, na legenda, a insuspeita frase; “esta é a foto oficial do governador (ou do ditador, ou do déspota) fulano de tal. Se ouvirmos o nome “Napoleão Bonaparte” nossa memória resgatará, à queima-roupa” um dos clássicos óleos sobre tela de Napoleão. A foto oficial é tão importante que ganhou um verbete um pioneiro verbete no “Almanaque Português de Fotografia”, edição de 1957, de Mário Nogueira, editado em Lisboa, Portugal.

Ciente dessa importância, o governador Cid Gomes, que cumpriu dois mandatos no Ceará, tem duas fotos oficiais, uma para cada mandato. Lula, também em dois mandatos, foi mais econômico, repetiu a foto.
O fato é que a foto é importante e sua defesa ganha amparo mesmo na tradição psicanalítica freudiana. Por isso é surpreendente a decisão anunciada pela assessoria do governador Camilo Santana, no dia de sua posse, de que o este abdicaria de uma “foto oficial” e em seu lugar colocaria uma foto do povo porque do povo emanaria todo o poder. Minha primeira reação, no Facebook naquele primeiro de janeiro, apontou para um equivocado espasmo populista. Passados 60 dias, continuo pensando a mesma coisa. O povo imaginado pelo governador que daria forma ao seu “retrato oficial” é uma abstração. Pragmaticamente, o modelo eleitoral brasileiro de maioria simples em segundo turno, considerando apenas os votos válidos, retrata somente a intenção de parte desse povo. Segundo, “o povo” não traduz nenhum sentimento de autoridade, nem mesmo quando em “turba” ou quando em “massa”. Jean Baudrillard, em seu livro “À sombra das maiorias silenciosas”, compara as massas a um buraco negro que engole e homogeneiza toda a energia do indivíduo.
Portanto, sugiro que o governador reconsidere sua posição e providencie logo sua “foto oficial”. Ela, inclusive, ajudará simbolicamente a reposicionar a ideia de autoridade em nosso Estado.
Pode ser até um selfie, ou pode ser uma sóbria foto de estúdio com luz impecável mas sem Photoshop, por favor. Se tiver dificuldade em encontrar um fotógrafo excelente, uma grife, sugiro um nome: Thiago Santana. A eficiente assessoria do governador poderá localizá-lo rapidamente.
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