Gays na mídia: qual o “outro” lado?

Sobre imparcialidade e ética no jornalismo.

Este artigo foi publicado originalmente em 20 de janeiro de 2011 no meu extinto blogue e em outros locais. Imagens: Will Langenberg (StockSnap), com licença CC0, reprodução de capas de jornais e livros.


Há pouco mais de oito meses, escrevi no blog sobre uma edição do programa Profissão Repórter, da Rede Globo. Destaco abaixo um trecho daquela reflexão para começar esta outra:

A equipe do Profissão Repórter não conversou com o pastor da igreja que diz ter algo a falar sobre homossexualidade; não perguntou o que a CNBB acha de tudo isso; não contatou a assessoria do Vaticano; não questionou o Poder Judiciário para saber das questões formais e do preto no branco; nem mesmo conversou com aquela psicológica que apregoa a cura da homossexualidade… uma falta de pluralidade imensa nesse programa; tudo monofônico, só gente que aceita gays, que superou o preconceito, que não quer reverter essa sexualidade desviante… Felizmente foi assim.

Neste trecho acima falava especificamente de uma questão muito importante dentro do jornalismo: o enfoque, ou recorte que fazemos ao elaborar uma pauta. Esta discussão — eminentemente ética e crucial para a deontologia jornalística — é bem mais ampla do que parece, pois coloca ao jornalista (e ao editor, fotógrafo, editorialista…) diversas ponderações a serem feitas acerca da tematização que se dará a uma pauta, da escolha das fontes (portanto, idem das “não fontes”); depois do que efetivamente o jornalista escreverá, “contaminando” (aspas porque a palavra é feia, não?) profunda, total e irreversivelmente o texto com as escolhas que ele têm em mente — e no inconsciente; há ainda a diagramação, a fotografia e, a cereja, as declarações das fontes que serão utilizadas (portanto, idem as que não serão usadas). Enfim, é um campo de escolhas totalmente afinadas com a ética e com a política editorial do veículo.

Manchete do jornal Notícias Populares, em 1983. Imagem: Instituto Oswaldo Cruz/reprodução.

Por isso quero recolocar este debate aqui focando na população LGBT e no fato de que as questões que concernem “aos gays” hoje são uma pauta recorrente na mídia — interessa-me no jornalismo especificamente. Lembro-me que em algumas aulas da graduação, quando discutíamos certas pautas, ficava pensando do por quê haver certa sacralidade na ideia de que “devemos ouvir sempre todos os lados”. É um cânone associado à pluralidade de vozes e opiniões no jornalismo que esconde, por sua aparente simplicidade conceitual, algo mais complexo: como definir o que é um dos lados? Quem definiu tal configuração de “lados de uma questão”? Não podemos — não devemos? — questionar este mantra diante de algo que nos incomoda?

Todas essas perguntas eu me fazia quando pensava no (suposto) dia em que meu editor solicitasse fazer uma matéria sobre direitos dos gays, aceitação da população LGBT no Brasil, indicadores de violência, homofobia nas escolas, etc. Eu jamais daria espaço, na minha matéria, ao padre, ao pastor, ao assessor de imprensa do Vaticano ou a um pesquisador da Bob Jones University que têm algo a falar sobre “gays são pecadores”. “Eles” não são um lado desta questão para mim. Mas culturalmente são, não?

Capa do jornal ugandense Rolling Stone: “100 fotos dos principais homossexuais da Uganda vazam”. Na tarja vermelha: “Escândalo Nacional”. Na tarja amarela: “Enforquem-nos”. Imagem: reprodução.

Decidi fazer esta reflexão hoje porque, nesta semana, encontrei um belíssimo artigo do crítico de mídia Eric Deggans, que escreve no St. Petersburg Times. Ele faz a analogia que sempre me pareceu lógica entre o racismo e a homofobia ao tratar da cobertura midiática (usando a CNN como exemplo pontual). Tomei, então, a liberdade de fazer uma livre tradução de sua coluna publicada em 17 de janeiro. Este dia [nota], para quem não sabe, é um feriado nacional nos Estados Unidos: foi instituído em 1986 em memória de Martin Luther King Jr.

A coluna de Deggans simplesmente coloca a questão como eu sempre a vi. Por que os meios de comunicação dão voz a “qualquer lado” só por que historicamente tal lado tem se oposto a determinado ponto de vista? Por que não se faz uma reflexão mais profunda acerca da relevância de certas opiniões para certos temas? É por este caminho que o colunista vai. Quem lê em inglês, pode ir ao original.


Minhas considerações no feriado de Martin Luther King Jr.: quando a mídia vai parar de dar espaço aos ativistas antigays?

O feriado que celebra o nascimento de Martin Luther King Jr. é sempre uma oportunidade para pensar sobre a igualdade na sociedade Americana.

Então, esta manhã, eu me peguei pensando acerca da CNN e da Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (GLAAD).

GLAAD, o grupo ativista que luta por tratamento igualitário à comunidade gay por parte da mídia, lançou uma petição no começo deste mês exigindo que a CNN parasse de dar espaço durante debates e relatos sobre a comunidade gay a especialistas cuja única qualificação é ser contra a homossexualidade.

“Ultraje: como ativistas gays e juízes liberais estão jogando a democracia no lixo para redefinir o casamento”. Título da obra (2004) de Peter Sprigg, diretor do Centro para Estudos do Casamento e da Família do FRC. Imagem: reprodução.

O grupo menciona Peter Sprigg, do Family Research Council, como um exemplo do que eles chamam de “indústria antigay”, uma rede de especialistas cuja maior meta é promover a ideia de que os homossexuais não merecem os mesmos direitos que os demais norte-americanos. Ao colocá-los lado a lado com aqueles que possuem efetivo conhecimento para debater questões como a política militar “não pergunte, não fale”, GLAAD afirma que a CNN está exaltando o discurso ofensivo destes opositores.

Esta concepção traz à tona uma importante questão quando consideramos a cobertura da imprensa sobre tais temas: quando é que uma empresa jornalística exclui aqueles que promovem discursos odiosos?

Dito de outro modo, quando um veículo da imprensa deve concluir que determinado tipo de oposição é preconceito que eles não deveriam mais apoiar?

Retornando à época do Dr. King, quando os debates sobre direitos civis eram cobertos pela mídia, ela também “religiosamente” incluía aqueles que eram favoráveis à segregação ou à proibição de voto por parte dos negros ou ao impedimento de casamentos inter-raciais. Contudo, finalmente, os meios de comunicação compreenderam que tais visões eram preconceituosas e pararam de expô-las como opiniões válidas — concluindo que tratar racistas como participantes em pé de igualdade naqueles debates apenas lhes garantia uma autoridade que não deveriam ter.

Portanto: quando é que a mídia tomará decisão semelhante em relação aos ativistas anti-gays?

Trata-se de uma questão simples. Ou há um debate aberto sobre se ser gay é prejudicial ou ofensivo — e nenhum psicólogo ou profissional de saúde mental que seja respeitado afirma que haja — ou não há. E se ser homossexual não é prejudicial, então por que há diversas organizações jornalísticas renomadas dando espaço àqueles cuja única especialidade é uma contínua resistência à corrente aceitação dos homossexuais?

CNN não convida um membro da organização Ku Klux Klan para um comentário “abalizado” quando trata da situação da população negra nos Estados Unidos. Então por que continua dando voz a grupos que se opõem aos direitos gays para debater temas ligados aos direitos civis desta população? (Aqui há uma coluna que escrevi há sete anos sobre o porquê dos direitos gays serem a moderna luta por direitos civis)

Não me entendam mal; se há alguém com real conhecimento acerca de outro ponto de vista duma questão — leia-se, um comandante militar que se opõe ao fim da política “não pergunte, não fale” –, entrevistá-lo é pertinente. Mas concordo com GLAAD quando afirma que dar espaço a ativistas antigays simplesmente reforça a ideia de que o debate acerca da “adequação” da orientação sexual homossexual ainda é um tema em aberto.

E considerando-se o fato de que a homossexualidade é legal, não é classificada como uma desordem mental ou uma disfunção sexual e que gays podem casar e adotar crianças em vários estados, eu diria que esta questão já está muito bem respondida.

Naturalmente, sei por que a mídia não fará esta escolha. Apesar da coerência do raciocínio, muitas pessoas ainda se opõem aos direitos dos gays; o que significa que tal decisão poderia gerar uma séria repercussão e poderia soar como se a mídia estivesse tomando partido numa questão ainda em aberto.

Ainda assim, talvez a CNN pudesse considerar honrar Dr. King, neste dia, mudando sua política. Isto porque, quando me recordo sobre a história das lutas por direitos civis nos EUA, lembro-me de todos os jornais que tiveram que pedir desculpas pela forma como lidaram com o preconceito e o racismo enquanto cobriam a luta de Dr. King quarenta anos atrás.

CNN poderia evitar ter que pedir desculpas similares se agisse agora. Quem sabe, apenas uma vez, nós pudéssemos aprender com nosso terrível passado ao invés de repeti-lo.


Autor: Eric Deggans

Tradução: Luiz Henrique Coletto

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