Violência policial temperada pelo discurso oficial

Quando o Movimento Passe Livre, lá nos idos de 2013, iniciou o ciclo das manifestações prometendo com palavras de ordem algo como “Se a tarifa não baixar, SP vai parar”, a cobertura da imprensa invariavelmente deteve-se ao relato dos transtornos causados à população e, ainda que implicitamente, a questionar a pauta dos protestos. Registrou-se aí a primeira inflexão de sentido entre o que pretendia o movimento, o que foi abordado pela imprensa e o que a população percebia como fato consolidado. Surge o primeiro argumento imobilizador: “Toda essa bagunça por causa de R$0,20?”

As manifestações tornam-se cada vez mais frequentes, a repressão ganha corpo e as autoridades responsáveis diretas pela pauta do transporte público respondem em alto e bom som: “Não vamos ceder nem um milímetro”, Haddad e “Não vou recuar”, Alckmin. A repressão — que já era intensa, é temperada pelo discurso oficial e a polícia vai às ruas com gosto de sangue na boca, a disparar bala de borracha e gás de pimenta pra todo lado. As matérias mostram trabalhadores, estudantes e idosos em fuga desesperada. Uma das balas perdidas oficiais atinge uma repórter da Folha e, de repente, a PM de São Paulo transformou a pauta do MPL em movimento nacional.

Pessoas comuns começaram a engrossar a voz rouca das ruas, seguiram-se três a quatro dias de imagens impressionantes em todos os lugares do país. A bala que inchou as vistas da repórter da Folha abriu o olho da população e muita gente percebeu que os cassetetes da PM não eram exclusividade apenas dos mauricinhos irresponsáveis do MPL, como diria o comentário de Arnaldo Jabor — que chegou a comparar o MPL ao PCC.

A partir de então, a cobertura da imprensa passa a destacar as manifestações como atos pacíficos, celebra-se a chamada Festa da Democracia e os relatos de confrontos decorrentes do enfrentamento com a polícia ganham sempre o prefixo “a manifestação que começou pacífica…” ou o sufixo “uma minoria de vândalos”. A manifestação se transforma em fenômeno pop, slogans publicitários são assumidos como palavras de ordem: “O Gigante Acordou” e “Vem pra Rua” — ironicamente a mistura de álcool e direção dos anunciantes Johnnie Walker e Fiat. De repente, tudo virou um remake dos CARAS-PINTADAS.

As manifestações esvaziam a Copa das Confederações e a luta do MPL, de repente, virou pauta de tudo para tudo: gastos da Copa, PEC 37, Corrupção como crime hediondo, minirreforma política.

O pau continuou a cantar no Brasil inteiro. Em Brasília, manifestantes ocupam o Congresso. O Rio de Janeiro amplifica as manifestações. Na TV, a população continua a chancelar os movimentos, Datena promove uma enquete em que quase 70% das pessoas aprovam manifestações COM BADERNA.

O gigante acordou e foi pra rua numa mashup de slogans com álcool e direção.

A violência dos protestos só aumenta. Em BH, Fortaleza e Rio de Janeiro, os protestos contra os gastos com a Copa do Mundo são duramente reprimidos. Em muitos protestos começam a surgir focos de insatisfação com veículos de imprensa, repórteres da Globo trabalham sem canopla e identificação; unidades móveis da Record e Band são incendiados em via pública. A Globo passa a colocar muitos de seus repórteres em helicópteros e, pela internet, começam os relatos de uma tal Mídia Ninja. A cobertura da imprensa passa a ser bastante questionada e assistimos uma mudança de abordagem sobre os protestos. Passa a emergir da multidão de manifestantes, os primeiros coros de “Sem Violência”e “Sem partido”.

Alckmin e Haddad, juntos, recuam os milímetros antes nunca recuáveis e anunciam a redução das passagens. Dilma (ou João Santana) botam as manifestações na conta de prefeituras e governos e tiram o Governo Federal da reta propondo uma minirreforma política.

Surgem os primeiros focos de brigas entre militantes e manifestantes, bandeiras rasgadas e bate-bocas, denúncias de infiltração de policiais (os chamados P2) e até o MPL anuncia sua retirada das manifestações. A violência continua.

Após meses de protestos, no Rio de Janeiro — principalmente, a tensão só aumenta. A Copa, o projeto olímpico e as primeiras rebordosas do projeto de pacificação com o caso Amarildo fazem o Brasil inteiro descobrir o Cabral. A partir daí, sem conseguir ou sem querer deliberadamente investigar o fenômeno, a cobertura da imprensa em uníssono passa a abordar todo e qualquer caso de violência em manifestações como um processo resultante da interferência de um grupo heterogêneo do qual, até então, pouco ou quase nada se sabia além do fato de usarem máscaras no rosto. Na cobertura que se segue, cresce a revolta contra os mascarados. Não tardam a surgir os primeiros projetos de lei que pretendem criminalizar o uso de máscaras em manifestações públicas. Até que aparece na gramática dos protestos, a figura do Black Bloc. Em Setembro de 2013, Caetano Veloso aparece com uma camisa preta amarrada na cabeça e puxa o bloco dos descontentes se esquecendo que o Dia da Pátria não é carnaval no Brasil. Desde então, os black blocs se transformaram no vilão da vida pública brasileira. Sem que ninguém os investiguem de fato, só assistimos a repetição exaustiva do termo e agora observamos que, por decreto, o tal grupo detém o monopólio das manifestações.

O cinegrafista Santiago Andrade, da BAND, é morto em condições degradantes e estúpidas para um país que se diz democrático. Desde o início percebe-se na cobertura dos fatos, um clima de revanchismo contra as manifestações. Em blogs e alguns veículos de imprensa, surgem listas de jornalistas, escritores e outras personalidades que, em algum momento, defenderam as manifestações, elencados como cúmplices de um homicídio doloso. Canalhas usam a morte de um mártir involuntário para defender pontos de vista à esquerda e à direita e os poderes instituídos que, em certo momento, se viram obrigados a se posicionar com ações e respostas objetivas às manifestações, passaram a se limitar apenas aos protocolares lamentos e repúdios de praxe. Ao longo do tempo, tudo o que ocorreu de junho de 2013 pra cá passou a ser ironizado como algo sem efeito prático, até os slogans antes subvertidos em função da euforia, converteram-se em ironia na boca e nas postagens como “o gigante acordou, arrotou e voltou a dormir”.

Otimismo de laboratório para fugir da realidade.

O que fica evidente ao retomarmos essa história é que colegas jornalistas, assim como estrato importante de toda a população, não estão preparados para lidar com o que seja verdadeiramente a democracia. Desde o início, a cobertura foi toda realizada no sentido de procurar líderes, identificar pautas “coerentes” e neutralizar o efeito abominável que são aqueles indesejáveis atos que reúnem pessoas em espaços públicos. Acompanhando a cobertura que se fez daquele momento histórico isso fica evidente: há uma ojeriza à ocupação do espaço público. Vivemos em um país em que isso é mais grave que qualquer atentado, porque o que se buscou após junho de 2013, foi uma desesperada jornada por algo que nos devolvesse “a paz perdida”.

As ruas apontaram o caminho que ninguém — nem à direita nem à esquerda, estava disposto a seguir. Uma travessia com senso de urgência do consumo à cidadania, a começar pelas cidades. Não passamos sequer dos rolezinhos e continuamos pelo meio do caminho. 2013 não acabou.

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