O pós-anúncio.

Duas caixas postais estão grafadas no final do texto de dois anúncios Classificados. Prometem a mesma oferta, mas estão escritos em dois estilos diferentes. A caixa postal a receber mais cartas se encarregava de apontar qual peça seria a mais eficaz. O criativo que assinou os anúncios e o estrategista - por trás da avançada ideia de aferir uma taxa de conversão dos reclames, são a mesma pessoa: David Ogilvy.

O anúncio, como produto da publicidade, sempre foi a estrela da companhia. Ao longo de séculos, o anúncio e a excelência de sua originalidade ou o rigor de sua execução, continuaram como protagonistas da indústria. Para rivalizar com ele, só o publicitário. Especialmente os criativos como Ogilvy e Bernbach, que transportaram o arquétipo de super-herói do pós-guerra americano para a indústria da comunicação. Ainda assim, as décadas passaram e as publicações, reputações, festivais e a própria cultura seguiram a conferir glórias à execução brilhante… de anúncios.

How Mad Men Lost the Plot by Ian Leslie

Hoje, com o século XXI em pleno movimento e muitas das nossas certezas se evaporando a cada novo meme criado e viralizado, a impressão é a de que chegou a era Pós-Anúncio. A ascensão das redes digitais e orgânicas lideradas por novos players (Google e Facebook), que além de servir de drive para a inovação ainda oferecem o controle da conversão, parece ter enterrado o protagonismo do anúncio com uma pá de cal e uma lápide definitiva: SKIP AD. Os herdeiros de Ogilvy não parecem muito contentes: a chama da invenção mudou de endereço da Madison Avenue para o Silicon Valley e o publicitário parece também condenado.

Alguém já usou a metáfora de que “estamos trocando o pneu com o carro em movimento” para se referir às inúmeras mudanças ocorridas no mundo, na comunicação e no marketing do século XXI. Modelos de negócios postos em xeque, o surgimento de uma nova sintaxe com a hibridização entre arte, tecnologia e comunicação, fragmentação da atenção, o fim do monopólio sobre a produção de sentido, enfim, se a gente aprofundar sai uma tese de mestrado e não uma coluna. Entretanto, se você chegou até aqui, o que interessa é o seguinte:

Você acha que vivemos a Era Pós-anúncio e os publicitários estão em extinção?

Se fosse possível psicografar Ogilvy, certamente o "pai da publicidade" faria chacota da ideia de um futuro que superasse o anúncio. Aliás, o ardil das caixas postais mostra claramente que sua obsessão pelo argumento como instrumento de persuasão lhe fizeram pós-publicitário em plena era de ouro do anúncio. Sobre a segunda pergunta, Séguéla — outro brilhante mad men, dizia que publicitários se tomam por criadores mas, na verdade, são meros parteiros das ideias que assinam. A boa notícia para os publicitários é que, mesmo no século XXI, continua sendo mais saudável nascer de parto normal.

Ler

How Brands Grow
Byron Sharp

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Time Of The Season
The Zombies

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Black Mirror
*Artigo originalmente publicado no blog Intervalo On Line.