O que a Queen B e eu temos a ver com Sergi Casper?

Já faz tempo desde que os machucados do ensino médio cicatrizaram. É claro que se eu me concentrar lá atrás, nos meus 14~16 anos, vou ver uma ou outra cena que ainda dói. A homofobia ensina cedo a ter pele espessa.

Mas esse não é um texto sobre o passado. É sobre o futuro.

Cresci. Me tornei um dançarino razoável, um ótimo mid laner e jogador de League of Legends, formei em publicidade e sempre consegui estágios onde quis. Me assumi gay. Fiquei mais consciente sobre os problemas que me cercam, e hoje luto contra a LGBTfobia dentro dos espaços que me dizem respeito: redes sociais, campanhas on line e comunidades de jogos.

Semana passada, no entanto, um caso particular me levou em uma viagem de volta pra época do meu ensino médio, no colégio Marista aqui em BH.

O menino Sergi Casper, de 17 anos, teve seus pés e mãos amarrados pelos colegas e foi levado até o banheiro da escola para lamber a privada. Não satisfeitos, seguiram com a agressão até a sala de aula, onde o garoto, em pé, perdeu o equilíbrio e bateu a garganta em uma das mesas, morrendo em seguida.

Imediatamente me veio à memória, já há muito esquecida, de uma das vezes que fui empurrado e chutado no banheiro da piscina da escola por — afeminado, tentar usar o mictório ao invés dos boxes com as privadas.

“ ‘Ele jamais fez mal a alguém. Eles decidiram perseguí-lo desde o início porque ele amava cantar. Eles o agrediam o tempo todo. Da última vez, eles o esperaram no corredor para pegá-lo de surpresa. Eles achavam isso engraçado. A professora não fazia nada’, relatou um de seus colegas de classe.”

Sergi, assim como eu, amava as artes. Gostava de cantar, e sua timidez e calma não eram condizentes com o tipo macho, que tenta se reafirmar o tempo todo. Sergi poderia ter sido eu, 7 anos atrás.

Eu nunca teria concluído o ensino médio. Nunca teria entrado pra uma faculdade. Não teria me apaixonado, não amaria a minha profissão, não conheceria todas as pessoas incríveis que conheci desde o meu próprio ensino médio. Não teria vivido pra me descobrir gay.

_Corta_

No último fim de semana aconteceu a final do CBLOL, no ginásio do Ibirapuera - SP. Mais de 10 mil pessoas presentes, e uma dessas pessoas era a gloriosa Raphaella “Queen B” Laet , mulher transexual e um dos motivos pelos quais comecei a jogar League of Legends.

Desde que comecei a jogar, eu acompanhava seu trabalho. Vi ela se posicionar com relação à cirurgia de redesignação sexual. Sentia muito pelas suas poucas publicações na página, sempre repletas de comentários nocivos, jocosos, talvez motivos pelos quais ela postava tão pouco. É provavelmente a pessoa da sigla LGBT no meio mais avessa ao “público comum” daquele jogo. Mulher (e não menina), transexual não operada na época, cheia das suas próprias verdades e convicções: um poço fértil para adolescentes buscarem comentários obscenos para proferir. Você pode ler o relato do seu histórico aqui.

No dia da final do League of Legends , o Uol Jogos fez uma entrevista com ela, onde ela dizia:

“Acredito que o preconceito está diminuindo, que o pessoal que joga está com a cabeça mais aberta”
Raphaella “Queen B” Laet, em entrevista ao UOL Jogos

O que ela quis dizer, e que explicou depois da entrevista, é que:

“na *minha* comunidade do jogo que *eu* me senti acolhida, eu me sinto mais respeitada, eu me sinto amada e eu sinto o carinho imenso de vocês a cada stream que eu faço, a cada mensagem que vocês mandam e a cada evento que vou e vocês pedem uma foto, um abraço, uma conversa.”

Como isso tudo se encaixa?

A Queen B, assim como eu, não ignora o fato que a LGBTfobia ainda machuca, ainda mata. Sergi ainda estaria vivo, e o veríamos em algum espetáculo da Broadway daqui alguns anos se, mais uma vez, a nossa bandeira não tivesse sido manchada pelo sangue da intolerância. Mas, sim, precisamos comemorar com olhos marejados sempre que conquistamos uma vitória.

Queen, assim como eu e provavelmente Sergi, tinha poucas pessoas do seu lado. Ai de quem se atrevesse a ser meu amigo, chegado do Frufru. “Virou viado também?” “tão namorando?”. Ser meu amigo era pele marcada de gado. Precisava, todos os dias e sempre o máximo possível, provar que era uma pessoa boa de se conviver. Ai da Queen de não ser uma excepcional mid laner, Diamante e melhor jogadora do que 95% do servidor brasileiro. Ai de mim se mostrar um pouco de impaciência. Num momento onde ser LGBT é repulsivo (no literal mesmo, de afastar), você precisa atrair pessoas com muito mais força pra neutralizar esse preconceito, e isso significa ser melhor (e MUITO melhor) em tudo que fazemos. Nessa luta magnética de conseguir seguidores, fãs, amigos, a porrada na nossa cara é muito mais forte quando acontece.

A nossa carapaça é dura. Don’t count me out just yet.

Precisamos olhar para o presente e mirar o futuro. Precisamos chegar no Pátio Savassi, ao lado do colégio Marista, e vibrar por cada casal LGBT hoje vestindo o uniforme do colégio passeando por lá. Ver que nossos ídolos (no e-sport, na cultura, na política) vão pouco a pouco se diversificando, e que esses penam pra se manter visíveis e não serem engolidos pela normatividade. Entender que o comercial de uma marca ignorando os radicais de gênero (“todes”, “todxs”) são, sim, parte da nossa caminhada. Não nos definem, mas ajudam a quebrar paradigmas que reforçam a cultura homofóbica. Vibrar por todas as vezes que uma transexual de cabelo colorido é vista representando um segmento tão machista quanto dos esportes eletrônicos. Porque ela está ali; em nome de todos nós, afirmando que é LGBT, é boa pra cacete no que faz, e que aquele espaço também é nosso.

Precisamos colher nossos cacos. Nos unirmos em vigílias de vítimas de tiroteios em boates gays, e chorar por aqueles que foram tirados de nós por serem quem são. Mas olhar pra nossa própria história, individual, e ver os pequenos avanços pertinho da gente é o nosso glance de esperança. Pra mim, essa luz no fim do túnel é um cabelo colorido no maior portal de notícias de jogos do Brasil e uma Zyra Mid off meta. É dar um beijo no meu namorado sem medo, com aquele casal de Maristanos gays do nosso lado no Outback. E pra vocês?

Boa sorte nos campos da justiça. Sejam eles onde forem! ;)