O que era pra ser só mais uma reflexão, mas acabou virando um texto sobre a mágoa que eu guardo do meu antigo colégio

Hoje eu acordei antes do despertador tocar, não eram nem 5:30 ainda, mas ao invés de voltar a dormir, eu decidi me arrumar pra ir à academia. Tomei um café, me vesti, 6:15 tava na rua, com a blusa fazendo propaganda da Smart Fit (foi a primeira que eu achei no meio da bagunça), sentindo aquele arzinho gelado que só é agradável mesmo durante a manhã. Daí, ainda na minha rua, há pouquíssimos prédios do meu, eu vi uma menina. Ela vestia um uniforme que eu conhecia bem, apesar de terem começado a usar esse modelo apenas no ano em que eu saí de lá. Era o uniforme do meu antigo colégio, Santa Marcelina. Eu vi a menininha, um pouco acima do peso, caminhando em direção à van escolar. Há alguns anos atrás era eu, um pouco acima do peso, que caminhava em direção à van, sempre atrasada, o motorista sempre já tendo tocado algumas vezes o interfone, impaciente. Mas como eu podia me apressar pra algo que eu, com todas as minhas forças, não queria? Eu odiava aquele colégio. Sim, me arrisco a usar uma palavra tão forte assim: eu odiava aquele colégio. Não os meus amigos, não meus professores (só alguns), mas aquele colégio e tudo o que ele representava. Uma vez eu ouvi um cara importante de lá dizendo que deveríamos combater a “homossexualidade exacerbada”. Eu nunca me senti confortável com a minha sexualidade enquanto estudava lá. Aliás, eu não me sentia confortável com nada. Eu sei que a sensação de falta de pertencimento é algo muito comum, mas olha, eu tava longe de ser a garota legal que tinha amizade com todo mundo, passava bem em algumas matérias, outras nem tanto, mas no fim todos sabiam que se sairia bem. Eu tava mais pra garota depressiva, que se sentia mais feia que todo mundo, que se sentia mais burra que todo mundo, afinal, olha pra Fulano, olha como ele é inteligente, tirou a nota máxima em matemática! Fulano é um gênio. E eu ia te perguntar uma coisa, mas deixa pra lá, você não deve saber, você não é inteligente. Só em Português, Literatura. Ali eu sentia um pouco o gostinho de ser boa em algo sem muito esforço, ali eu achava meu valor. De resto, eu era só uma fracassada, afastava os amigos que tinha, tirava notas ruins na maior parte das matérias (inclusive Educação Física, que eu me recusava a fazer por falta de habilidade). É claro que nem tudo é negativo, eu fiz melhores amigos pra vida inteira lá, os melhores que eu poderia ter, aqueles que já passaram por poucas e boas comigo. Mas além de amigos, eu fiz também todos esses moldes na cabeça do que eu deveria ser: magra, nerd, simpática, popular. A minha cara não ajudava muito, eu sempre fui muito séria. Em 2004, irmã D. ligou pra minha mãe porque ela me achava, nas palavras dela, “revoltada”. A minha expressão neutra de neutra não tem nada, eu sou mesmo muito séria. Demorei anos pra deixar de ter complexo por causa disso, ainda me irrito se me fazem pensar que eu tenho a obrigação de sorrir. Hoje em dia até arrisco me perguntar se a irmã D. faria tanto caso de sorrisos se eu fosse um menino. Menino pode ser sério, eu acho. Exala masculinidade. De qualquer forma, ali estava eu, andando rumo à academia, não eram nem 7 da manhã, a menina já entrava na van e eu pensei: que bom que essa fase já passou pra mim. Sim, é verdade que hoje em dia eu passo por problemas diferentes na faculdade, que volta e meia o ambiente acadêmico e seus robôzinhos me estressam e me fazem surtar. É verdade que há um grande risco de ser assaltada ou levar uma pedrada no caminho até lá. Mas agora eu posso escolher se vou ou não, e eu vou. Há algo de pacífico nesse poder de escolha, ainda que seja ilusão, não dá pra escolher se você pode ou não ter um diploma nos dias atuais. Há algo de pacífico em comprar um café ruim por um real e cinquenta centavos, seguir apressada rumo à sala, atrasada, sempre atrasada, mas não sem antes passar no banheiro pra dar uma conferida no espelho. Porque chegando lá, assim como em todas as manhãs, a imagem refletida não mostra nenhuma menina de uniforme. Ainda bem.

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