Quando uma Manic Pixie Dream Girl é muito mais um sonho do que uma garota

(Ou “O mito da cool girl na construção — ou destruição — da identidade feminina”)

Comecemos pelo começo: a definição. O site da Oxford Dictionaries tem uma definição ma-ra-vi-lho-sa do que vem a ser uma Manic Pixie Dream Girl, olha só:

Manic Pixie Dream Girl
(NOUN)
(especially in film) a type of female character depicted as vivacious and appealingly quirky, whose main purpose within the narrative is to inspire a greater appreciation for life in a male protagonist.

Tradução ao pé da letra: Substantivo. (Especialmente em filmes) é um tipo de personagem feminina caracterizada como cheia de vida e atraentemente peculiar, a quem o principal propósito dentro da narrativa é o de inspirar uma maior apreciação da vida (eu acrescentaria aqui o termo “epifania”) por parte do protagonista masculino.

Tradução resumida da autora desse texto: é uma personagem feminina (muitas vezes, mal desenvolvida) que tem como único objetivo mudar a vida do rapazinho carente, vulgo protagonista, fazê-lo “abrir os olhos”, tomar um gosto pela vida, e tudo através de seu encanto peculiar e das suas manias esquisitas, porém engraçadinhas. Ou seja, ela é o que ela é só pra servir de propósito pro desenvolvimento do homem.

Entendeu?

O sonho do típico protagonista masculino

Ela é diferente, descolada (alguém ainda usa esse termo?), é “fora do padrão” (uma imagem bem forçada, se considerarmos que são todas brancas e magras), mais do que isso, ela é fascinante. Você sente de alguma forma uma certa identificação com ela, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, sente um distanciamento. Ela é Annie Hall, é Summer Finn, é aquela personagem da Kirsten Dust em Elizabethtown (nunca gostei desse filme, fica aqui ela sem nome como forma de protesto). Os homens as desejam, as mulheres querem ser como elas… Mas você já tentou olhar isso mais de perto?

(Desculpa, não resisti)

Sabe, quando você é nova e perdida e meio largada e não tão bonita, ou seja, quando você é como eu era aos 18 anos de idade, é claro que você quer fugir dessa persona ainda não formada, é claro que você se rende à pressão de moldá-la ao que seria esse tipo que, sem exceções, conquista o par romântico que deseja, podendo até deixa-lo pra trás em algum momento, ainda apaixonado. A Manic Pixie Dream Girl é tão padrão estético como todas as outras, mas ela te engana, porque o tempo todo ela te faz acreditar que foge do comum. Os problemas pelos quais ela passa, as manias esquisitas, tudo é perfeitamente manipulado pra te fazer olhar pra aquilo com um olhar mais aceitável, mais sonhador. A Manic Pixie Girl é um sonho, não é? E você sabe qual é o maior problema dos sonhos? Eles não são realidade. E não venha me dar uma de Dumbledore e dizer “Naturalmente isso está acontecendo dentro da sua cabeça, mas por que isso significaria que não é verdadeiro, Harry?”, porque você sabe bem do que eu tô falando.

Fica de boa aí, Dumbs.

Quando eu era criança, um dos meus filmes favoritos era um que passava sempre na Sessão da Tarde, e que tinha a Sandra Bullock e o Ben Affleck como protagonistas. Pelo que eu me lembro de cabeça, a história era de um homem que ia viajar até o lugar onde ele se casaria em poucos dias, mas algo acontece que faz ele se atrasar, e então ele conhece a personagem da Sandra, que também viajava, mas pra encontrar seu filho. Juntos eles embarcam numa aventura muito louca de uma duplinha do barulho. Desculpa, me deixei contagiar pela vibe de Sessão da Tarde. Voltando. Eu amava aquela personagem, sabe? Ela era toda doidinha, enquanto o personagem do Ben era certinho. Ela deixou um impacto na vida dele, abalou as estruturas, fez ele rever comportamentos, fez ele ter experiências que normalmente não teria, como subir na parte de cima de um trem e gritar. Mas ó, spoiler alert: eles não ficam juntos. Ben volta pra sua noiva, Sandra segue seu rumo pra encontrar seu filho. Não digo que é certo ou errado, ou que a noiva do Ben deveria ter sido deixada no altar, longe disso. Quando eu era pequena eu ficava muito chateada, achava a personagem da Sandra muito mais legal. Hoje em dia eu percebo que ela tava ali justamente pra isso: ser legal. E a partir dessa persona legal, dessa “cool girl” ela ajudaria o personagem masculino a se desenvolver e se libertar de si mesmo. Uma vez cumprido esse papel, ela se torna descartável. E por isso cada um segue seu rumo, ele não precisa mais dela.

Isso é um ponto. Agora outro:

E quando os anos passam e você quer se libertar desses arquétipos, mas acaba sendo Manic Pixie Dream Girl por pura projeção alheia? Agora entramos numa parte desse assunto que eu considero, muito pessoalmente, como delicado. Como sempre, envolve uma parte da minha vida, e eu não quero que, de modo algum, as pessoas pensem que estou me colocando em algum patamar elevado, pelo contrário, acho essa ideia até bem louca. De qualquer forma, aqui vai: uma vez eu conversava com uma amiga a respeito de uma suspeita que eu tinha de que as pessoas que eu conhecia me idealizavam de cara. Sim, eu sei, todo mundo tem expectativas, todo mundo idealiza. Mas aqui eu sinto algo diferente, e minha amiga concordou que se sente da mesma forma. Em parte, eu cumpro alguns dos requisitos da “cool girl”, como por exemplo:

- Uma vestimenta meio alternativa

- Parte do meu gosto musical destinado a umas bandas de rock, incluindo o bom e velho The Smiths, banda oficial patrocinadora das cool girls (mas deixo claro que não sou 100% roquista, inclusive amo pop e vou protegê-lo)

- Uma personalidade meio aberta, meio doida, meio “fala o que penso na hora em que eu penso” ou “falo sem pensar”

- A boa e velha atitude de quem, muito aparentemente, não se importa com o que qualquer um pensa

Check, check, check, check. Muito que bem.

“To die by your side is such a heavenly way to die… I love them.”

Lembro com muita clareza uma vez em que conheci um rapaz numa festa. Eu e ele já estávamos naquele mesmo ambiente pequeno há muito tempo, e eu já percebia que ele me observava. Quando finalmente nos aproximamos, ele começou a narrar as percepções dele sobre mim, naquele curto espaço de tempo de algumas horas numa noite. O que ele viu foi uma pessoa de riso fácil, de bem com a vida, que não se importa com a opinião de ninguém, que vive a vida levemente, blábláblá. Disse tudo isso com um grande encantamento no olhar, eu sou tudo o que ele queria que eu fosse. Mas não era. Não vou negar, meu riso é mesmo fácil, eu rio de cada bobeira. Mas não vivo a vida levemente, sofro de ansiedade e transtorno de personalidade, vivo exausta. Eu disse a ele pra parar de me idealizar, que não era bem assim… Ele não acreditou. É claro que ele não queria acreditar. Ele não foi o único. Houve uma época em que eu saía com outro moço, um cara que tinha sido dj numa festa em que eu estava, alguém por quem eu me arrisquei e fui até perto do palco quando ele parou de tocar pra perguntar se ele queria me dar um beijo. Eu sou assim, direta. Ele viu uma pessoa confiante ali, tudo pra dar certo. A gente começou a sair, e já nos primeiros sinais da minha insegurança, veja só: a coisa começou a falhar. Claro que não foi só por isso, mas dava pra ver claramente que o que o atraiu foi o mito, a projeção, a garota legal que quebra os paradigmas e não espera que o cara vá até ela, ela vai até ele. Aham. A partir daí eu perco meu direito de ter uma personalidade própria, perco o direito de ser frágil. Veja só, minhas mudanças de humor não são tão divertidas assim, algumas manias minhas são profundamente irritantes, e que peninha, elas não ajudam em nada a vida do grande protagonista da história desse casal: o homem. (Afirmo aqui esse modelo masculino porque, apesar de me envolver tanto com homens quanto com mulheres, só passei por esses problemas até agora nos meus envolvimentos com homens, e é a partir deles que eu falo com alguma propriedade.)

Esse é outro ponto.

To die by your side is such a heavenly way to die… Coxinha.

Agora você me pergunta qual é a conclusão. Eu te respondo: a conclusão é de que principalmente Hollywood e, até onde pude observar, em sua maioria, os filmes de comédia romântica, reforçam um estereótipo de mulher completamente machista em sua raiz, e que não termina ali na tela, mas respinga e transborda na vida da mulher real. Meus problemas e minhas manias e meus dramas não são bonitinhos. Eu sou uma pessoa ótima, mas não porque sigo um modelo, e, presta bem atenção, principalmente porque não tô aqui pra te servir e transformar sua vida. Como diria a sábia Clementine de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (que alguns colocam dentro da caixa de Manic Pixie Dream Girls, mas que eu considero muito além disso): “Muitos caras acham que eu sou um conceito e que eu os completo ou vou dar vida a eles. Mas eu sou só uma garota ferrada procurando pela minha paz de espiríto.” E é isso. Eu sou uma pessoa, não um conceito. Vivo por mim, não com o propósito de servir a você, não de te libertar. Só você pode se libertar. E se eu fosse você, pararia de passar a vida encarregando outros (outras) dessa responsabilidade.

Clementine é meu animal espiritual, é sim.

De qualquer forma, tudo isso eu falo sentada na cadeira de uma pessoa que se encaixa em muitas características das moças que aparecem nas telas. Eu não tenho nem ideia do que sofre aquela que não se encaixa em nenhum espacinho desse modelo, a moça negra que não se vê representada nas telas senão em personagens ligadas à escravidão ou a serviços da casa, ou a moça asiática. É ruim toda essa idealização, mas também é ruim, acredito, inclusive, que pior, ser totalmente excluída disso por não “preencher nenhum dos requisitos”. Não me arrisco a falar muito a respeito de algo que não sofro, por medo de falar besteira e ofender, mas deixo aqui minha menção a vocês, e minha posição de revolta. Agora, pra finalizar, tendo em vista tudo o que foi apresentado e debatido nesse texto, eu, autora do mesmo, gostaria de concluir que:

Foda-se o mito da Manic Pixie Dream Girl, foda-se o seu conceito.

BOY, BYE!

Adendos:

1. Nenhuma das imagens usadas nesse texto me pertencem.

2. Link do dicionário que eu mencionei previamente:
https://en.oxforddictionaries.com/definition/us/manic_pixie_dream_girl