Talvez a hipersensibilidade seja o Zeitgeist da nossa geração

16 anos, corpo colado na cama, ao fundo aquela música (“you’ve got a face for a smile, you know?”), não sei se em fone ou pensamento. Tanto faz. Sei que essa era a trilha sonora, mas a vontade de sorrir era quase nula e a dor era tanta que agora eu não sei dizer se era mesmo 16, poderia ser 17 ou, quem sabe, até 18, já que nem ali eu sabia diferenciar o tempo, e todos aqueles anos se tornaram parte de um grande borrão de horas e minutos e dias muito longos com algumas cenas marcantes. Como essa. Agora canta pra mim, musa. Vai dizer àquela de antes que tudo isso vai passar. Que hoje eu posso ver com clareza que houve um antes e é ali que ela deve ficar. Sabe, ela sempre quis ser qualquer outra pessoa. Agora eu sou. Nunca pensei que seria possível. Aos 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13 anos eu contava o tempo até o fim da minha vida escolar. Sonhava com isso, sonhava com muitas coisas. Ser popular. Ser bonita e magra. Deixar a timidez de lado. Porque eu queria, acima de tudo, ser amada. A escola ensina muitas coisas às crianças. Eu aprendi a me odiar. Sorte que os ensinamentos não param por aí e, 5 anos e uma vida depois, eu ainda estou aprendendo a não deixar o passado ter tanto poder sobre mim. Ainda assim, vez ou outra ela volta, e mais uma vez eu a vejo: 16 anos, corpo colado na cama, ao fundo aquela música (“you’ve got a face for a smile, you know?”), não sei se em fone ou pensamento. Sinto pena. Ela não sabia que num futuro próximo tatuaria a efemeridade das coisas no braço direito como um lembrete e, também, como precaução para que dessa forma pudesse evitar novos vestígios de autodestruição. Sabia menos ainda que insistiria em ignorar o aviso, passando a se dedicar somente ao braço esquerdo, onde residiriam tantas outras marcas de raiva, tristeza, ruína, solidão. Vai lá, canta pra mim, musa. Vai dizer àquela de antes que isso também vai passar.

Hoje, aos 24, percebo que foi um longo caminho até aqui. E se eu pudesse dizer uma única coisa a todas as pessoas que eu já fui, seria: tudo passa. Absolutamente tudo. Coisas boas, coisas ruins. Verdade seja dita, até mesmo esse entendimento dicotômico de ruim e bom pode mudar. Perceber todas as nuances de cinza entre o preto e branco não é um dom, é prática. E eu ainda me sinto fraca às vezes. Ainda me acho sensível demais. Talvez a hipersensibilidade seja o Zeitgeist da nossa geração. Até os 23 anos eu achei que nada era possível de mudar, mas se me encontro aqui escrevendo essas palavras é porque, sim, me permiti viver pra ver o mundo girando tal como vinham me prometendo há tanto tempo. E isso não é mágico ou divino, pelo contrário, isso é tremendamente humano. A verdade é que continuo a mesma. A outra verdade é que mudei demais. Descobri novas possibilidades, acordei partes adormecidas em mim, e sei que ainda há muito pela frente a ser vivido. O que carrego comigo é a lição que eu aprendo todo dia, e que tatuei há 3 anos sem levar muita fé: tudo passa. Além disso, nem tudo precisa ser passado. 16 anos, ao fundo aquela música (“you’ve got a face for a smile, you know?”), não sei se em fone ou pensamento: você é só uma memória. Você não pode mais nos machucar.

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