O que vem depois do “perfeito”?

Sempre que eu falo sobre padrões de beleza, preciso falar sobre mim.

Eu sou uma mulher gorda. Essa é a minha realidade desde que nasci, com o diferencial de que quando se é um bebê cheio de dobrinhas as pessoas te acham fofa e não feia. Ao contrário do que as pessoas tendem a pensar, apesar do meu peso e minha aparência, sempre fui perfeitamente saudável. Minha mãe diz que herdei isso da minha avó que, até hoje — aos 90-e-tantos anos de idade — não tem nenhum problema na saúde física. Mesmo não apresentando nenhuma alteração nos check-ups anuais, mesmo praticando atividade física, todos no meu convívio, principalmente familiar, achavam que eu devia emagrecer.

“Nossa, você tem um rosto tão bonito” foi o elogio mais frequente na minha vida, porque meu rosto era aceitável, mas não condizia com meu corpo. Chegaram a me sugerir fazer redução de estômago — um processo cirúrgico extremamente traumático — aos 16 anos de idade, tudo para ter o famoso “corpão”.

Pelo jeito que escrevo vocês devem me imaginar como obesa, mas eu gostaria de acrescentar que eu visto G e 44, ou seja, eu ainda consigo achar roupas em lojas de departamento com certa facilidade, sentar no banco comum do ônibus e do cinema. Mas enfim, esse tipo de parâmetro não importa muito quando se é uma pessoa fora dos padrões de beleza. O julgamento por ser gorda me perseguiu a vida inteira.

Foto que veiculei no meu instagram pessoal (sim, é uma calcinha e uma barriga na internet, lidem com isso).

Quando saí de casa para fazer faculdade em outro estado, engordei ainda mais. Terminei um relacionamento de quase cinco anos, engordei mais um pouco, tive depressão. Eu cheguei ao ponto de não conseguir olhar o meu próprio reflexo, com vergonha da “aberração” que disseram que eu tinha me tornado. Não consegui desenvolver um distúrbio alimentar, tentei muitas vezes, mas minha ansiedade me fez desenvolver um quadro de compulsão, o que me fez começar a comer desesperadamente.

As pessoas na internet — nessas páginas motivacionais — diziam que eu tinha que aprender a me amar do jeito que eu era, que eu era linda, mas nunca foi o que enxerguei por aí. Em todo lugar que eu ia, as poucas mulheres que estavam em destaque eram magras, curvilíneas na medida certa, consideradas popularmente como bonitas. Veja bem, eu me considero feminista — digo que o feminismo salvou a minha vida — , mas se ver mulheres empoderadas na mídia já é difícil, imagine mulheres gordas, negras, de cabelo crespo, altas, de-todo-jeito-possível, ocupando esses espaços?

Em 2007, 77% das jovens tinham propensão a desenvolver anorexia e bulimia, hoje — 10 anos depois e com o crescimento considerável da exposição individual nas redes sociais — esse número é ainda maior. Recentemente o Brasil ocupou o posto de campeão mundial em labioplastia. Mulheres, cada vez mais jovens, estão fazendo plástica vaginal porque não conseguem aceitar que seus lábios são normais. Dados como estes me fazem pensar que, independente das características físicas, todas fomos ensinadas a nos odiar. Todas estamos fadadas a buscar um ideal de perfeição.

“Mas Luiza, você falou isso tudo só pra dizer que não existe solução?”. Não existe final feliz, afinal, lidar com opressões sociais é um trabalho diário, mas existe um caminho. “Perfeito”, na sua etimologia quer dizer “completo”. É aquilo que se basta nele mesmo. Eu mesma, me sentindo inteira com tudo o que sou e tenho. O ideal de beleza nunca será alcançado se não olharmos para nós e — olha só, que surpresa — aprendermos a nos amar e sermos mais gentis com nossos corpos.

Depois de muito tempo, estudo, terapia e conversas comigo mesma na frente do espelho, eu finalmente entendi que o padrão de beleza é várias coisas — uma ferramenta de consumo, reflexo de uma sociedade construída para o homem, uma forma de opressão — mas nunca será uma linha de chegada. Nunca será aquele número na balança, porque depois dele vem os centímetros da cintura, o tamanho dos seios, a firmeza da bunda, o formato do nariz, as marcas do envelhecimento.

Estou aqui para te dizer que você não nasceu para agradar o senso estético do mundo. Bonito é um conceito extremamente relativo — já dizia meu pai que gosto “cada um tem um” — e a única pessoa que tem que se achar incrível é você mesma. Busque representatividade, siga mulheres iguais a você no instagram, vista as roupas que quiser, se fotografe, conheça o seu próprio corpo, busque companhias que te engrandeçam, do jeito que você merece. E o mais importante: passe isso para frente sempre. Lembre que juntas vamos mais longe, e que nenhuma mulher merece ser reduzida a algo tão pequeno quanto carne e osso.