como cortar batatas

Eu sonhei com você. De novo.

Mas não, não como antes

Não existia nada entre a gente

Ainda que

A ruptura possa ser considerada como algo sólido

E é no entanto eu não tava enxergando

Ou não estou

- ainda estou rompendo isso.

Não é possível

E foi por essa mesma razão que eu precisei me atirar feito louca por uma noite qualquer

Com alguém

Comigo

Em presença.

Arriscando mais de mim do que eu me dei conta de que estaria

Mas me senti ali quando me deu medo

Quando me dei conta de que tinha levado alguém pra dentro do meu quarto

E exatamente como eu previ

Você ficou feito pedra olhando pro meu altar

E pra todos os símbolos que tinham ali

- palavras suas.

Mas foi algo de mim que se rompia ali

E não é mais o meu corpo

Ainda que isso exista em alguma medida

Não é mais sobre o sexo em si

Ou um desempenho sexual

É sobre aquilo ali

Aquele encontro

E o sentido dele precisar existir

Talvez eu

Talvez as coisas não tenham todas elas grandes motivos para existir

Eu preciso sentir algumas coisas com menos dor

Menos profundidade

Mas tudo bem

Eu fiz o que queria fazer

Tentando não pensar tanto no que fazia

E foi libertador

Em fragmentos

E então ele vai embora e eu volto a dormir

Sozinha no meu quarto

Na cama que transamos

- poucas vezes.

E eu sonho com você.

Você e sua camisa verde

Ardendo em febre

Morrendo

Dentro de mim

É bonito isso.

Eu só não posso me apegar mais a essas belezas

Traiçoeiras

Esse corte já não tem mais cor nem graça

Há tempos

É só um corte

E pode ser

As coisas podem ser simples como a necessidade de cortar batatas

Em pedaços pequenos mas não tanto

O suficiente para cozinhá-las melhor

E comer.

Partir e triturar tudo dentro da minha boca

E do meu corpo

- não há pra que pensar tanto

Ou ficar montando infinitos quebra cabeças

Chega de rodar nesse redemoinho

Eu quero correnteza

Fluir

Como venho sendo dentro de mim

Pro mundo.