A Superficialidade das (minhas) Relações

Talvez não haja nada de novo nesse título. Muito provavelmente o relato que segue vá ser apenas mais um, enterrado em um universo que já nos diz, há tempos, o quão superficiais são nossas relações e seus porquês de acordo com a psicanálise, a comunicação, e por aí vai. Mas me atenho aqui ao que conheço, porque tenho teorizado demais e esquecido da prática.

Ultimamente eu tenho vivido relacionamentos afetivos que não duram muito. Eles vêm com a intensidade da agulha de uma Benzetacil entrando na pele, deixam a zona adormecida por alguns dias — dependendo de como aplicados, fico um tempinho sem conseguir sentar de maneira confortável na cadeira. Diferente da dor da injeção, as doses são tranquilizantes. Me deixam vagando pelos universos paralelos e sentindo cheiros que nunca tinha notado. Paixão mesmo, dessas clichés moldadas pelo amor romântico de Hollywood que nos fizeram acreditar que existe. Mas é isso, duram alguns dias, talvez uns meses, e pum. Acabam. Não porque eu “simplesmente deixei de sentir” ou porque “os sentimentos são mesmo fluidos”. Acabam porque chega em um ponto em que percebo que a pessoa do meu lado na cama não me conhece. “Foi tudo muito rápido…”, parece que a história se repete e a dor que volta é sempre a mesma.

Paro um pouco, decido tirar aquele famoso tempo pra mim. Quem sabe me aproximo dos amigos, das amigas, da família. Na mesa de jantar, o silêncio ou o ruído da televisão falam mais alto que a nossa necessidade de conversar sobre nós. Percebo que a superficialidade não é exclusividade das minhas relações sexuais e amorosas, ela grita em todos os cantos da minha casa. Ela também sussurra na mesa do bar depois da faculdade. Ela cumprimenta o motorista e o cobrador, tá no olhar de quase todo mundo. Enquanto isso a gente vai guardando nossas angústias nas gavetas da escrivaninha junto com os mil apetrechos que não sabemos onde enfiar porque já deveríamos ter colocado no lixo há anos. Continuamos engolindo as dores sem nem ao menos mastigar, e não, elas não saem do corpo com o tempo porque o bolo alimentar nem se formou. Ficam intactas — isso quando não viram uma dor nas costas que a gente não sabe direito de onde vem, ou uma falta de vontade de levantar da cama já que parece que o mundo inteiro resolveu pesar na nossa cabeça essa manhã.

Quem se atreve a se expressar, falar o que pensa, sente, se entregar de verdade? Não sei se às vezes pareço cética, se superestimo demais a possível conexão entre pessoas, mas me vejo cercada de vazios que insistem em se distanciar.

Em um mundo de circunferências eu só queria uma canetinha hidrográfica daquelas que a gente usa pra colorir desenhos no maternal. Ninguém se importava se ia borrar, sair da linha, ficar visualmente desagradável. Sabíamos a função da caneta, sabíamos que o papel precisava de cor e isso bastava.

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