Namoradinhos

Com a proximidade do final de ano e as comemorações festivas em família, já ronda a minha cabeça que respostas darei para a famosa pergunta sobre os meus namoradinhos. Há anos eu não namoro e não importa quanto tempo meus parentes não me vejam eles sempre querem saber como anda esse aspecto na minha vida. E, infelizmente, não só eles. Outras mulheres e conhecidos me abordam durante qualquer época do ano e acabam perguntando justamente sobre o que não anda em seus anos dourados por aqui.

“Mas não perguntam isso pros homens também?”, perguntam, na minha família, não muito. No entanto, se analisarmos a construção histórica da sociedade, é muito mais ~~problemático~~ uma mulher ser solteira do que um homem ainda estar livre no mercado. Isso porque há anos foi instaurado o pensamento de que mulheres sozinhas não têm valor e estão encalhadas pois são rejeitadas, apresentam algum defeito (seja estético ou comportamental). E por mais que a sociedade tenha evoluído — acredito eu que mais tecnologicamente do que mentalmente — essa ideia ainda se recria e mulheres solteiras são vistas com maus olhos e desvalor. E essa miopia a respeito das minas livres aumenta se elas tiverem uma vida sexual ativa com diferentes parceiros, forem brigonas ou muito independentes.

Mas, retomando o assunto, o que os curiosos sobre a vida amorosa de uma mulher não sabem, ou talvez não queiram saber, é que toda vez que a primeira pergunta a uma mulher é sobre sua vida amorosa, você acaba colocando toda a vida dela em segundo plano.

Foda-se quantas línguas ela sabe falar, a viagem incrível que ela fez sozinha, os livros lidos, a tese de doutorado entregue e muito elogiada, o trabalho voluntário que ela faz, as críticas sobre filmes, as séries novas que ela começou a ver e está amando, a nova tatuagem e o que significa, o corte radical de cabelo após anos sempre no mesmo estilo, o apê alugado e o fato de que ela saiu de casa, as receitas que ela aprendeu, a promoção no trabalho, os desenhos que ela faz, o bicho que ela acabou de adotar, o quão incrível é sua administração do tempo e o aproveitamento das 24h do dia, que ela se inscreveu na Yoga e está amando, que faz aula de dança e tem apresentação no sábado, que ela foi aprovada para o mestrado, que ela finalmente perdeu o medo de andar de avião, quão heroico está sendo ela morar sozinha em outra cidade, a bolsa de estudos que ela ganhou fora do país. Foda-se qualquer vitória pessoal e progresso que ela tenha feito nos últimos dias/meses/anos. Ela é menos porque ela não tem um namoradinho e dela é isso o que você quer saber: não sobre a mulher, sobre os homens dela. Pode até ser que essa não seja a sua intenção ao perguntar, mas a sua simples pergunta tem efeitos mais potentes do que apenas descontrair e puxar assunto.

E sempre que você afirma a importância master de uma mulher ter um homem em sua vida, você estimula e pressiona que muitas mulheres aceitem relacionamentos abusivos por medo de acabarem sozinhas. O que importa é você ter um homem ou vai se tornar a velha louca dos gatos/cachorros. Se o teu namorado te bate, mente, some, ignora, trai, abusa tanto física como psicologicamente, muda teus hábitos, age como se fosse teu dono, faz chantagem emocional, gasta teu dinheiro, te priva de sair com amigos, tem ataques de ciúmes, não te faz feliz: tudo pode ser superado e deve ser perdoado por um bem maior pois o que não pode mesmo é você morrer sozinha.

Além disso, dessa forma, ao cobrar um homem na vida de uma mulher como se essa fosse a receita da felicidade, vocês desvaloriza o cultivo ao amor próprio, alimenta um padrão de pessoas que não sabe aproveitar a própria companhia e que precisa passar a vida inteira em busca de uma metade de fruta cítrica. É como se ser single não bastasse e a outra pessoa só possa ser inteira quando tem um amor pra chamar de seu. É dizer para uma mulher que o valor dela só existe quando algum homem o estabelece e a chama de sua.

Esses estímulos também motivam relacionamentos em que as duas partes não se gostam de verdade e acabam juntas por conveniência. Mas, novamente, nada disso tem seu valor frente ao fato de que a solidão é o vilão que deve ser combatido através de buscas incessantes pela própria cara-metade — o que, querendo ou não, leva muitas mulheres a idealizarem sobre seus parceiros e projetarem expectativas que não serão cumpridas, ou as fazendo aceitar menos do que merecem de fato.

A gente pode até não perceber, mas esse inquérito sobre o porquê você ainda está sozinha abala a autoestima de quem, na maioria das vezes, também tenta responder essa pergunta para si mesma. Ninguém sabe em quantas tentativas a pessoa esteve envolvida nos últimos tempos, os traumas de relações passadas, términos que não foram bem explicados, noites chorando por falta de reciprocidade, horas em terapia para que a vida voltasse a fazer sentido, o amadurecimento frente a fins de relações, as coisas que ainda estão pendentes dentro de cada um e a busca por resolvê-las o quanto antes para que se possa viver melhor, o quanto a gente se sentiu idiota por dar mais chances ou correr atrás: enfim, ninguém sabe o que a curiosidade sobre o status afetivo de outrem pode desencadear e o quanto ele pode ficar mal só de pensar e falar sobre o assunto.

Por isso, ao invés de fazer tantos interrogatórios sobre os dates, crushs, boys, contatinhos, namoradinhos e cia de uma mulher, se você é do tipo de pessoa que gosta mesmo de falar sobre relacionamentos, sugiro que converse mais com os homens sobre questões importantes sobre consentimento, que mulher bêbada ainda é dona de si, que a responsabilidade da gravidez não é apenas da mulher, que vazar fotos enviadas na intimidade é crime, que a masculinidade não é comprovada através de atitudes machistas, que chamar a ex de louca já tá fora de moda (nunca esteve, aliás) e não é legal, que transar com várias mulheres não te faz um cara incrível e que toda mulher deve ser tratada com respeito. São questões bem simples, mas que acredito compensarem muito mais o gasto de tempo e saliva do que manter e cultivar a cultura de que uma mulher sozinha não se basta. Pois acreditem, nós nos bastamos sim.

(e a resposta que eu darei esse ano é meu novo lema a partir de agora, dito pela Anitta em um show este ano)