Desculpa,

Eu não consigo escrever.
Sério, eu não consigo mais. Desaprendi. Perdi a chave de acesso a quem me lê. Coitado de quem me lê.
Eu sinto muito.
E sinto tanto que derramo em palavras parcas o que infesta os meus sentidos e me rouba a anterior “eficiência”.
Me perdoa.
Eu não vou conseguir despertar em você o prazer perverso de se afastar, linha a linha, daquilo que o rodeia. (Quem disse isso foi o Cortázar, escritor argentino que dará a quem o lê o prazer perverso, a liberdade escondida, a chave de acesso).
Salve-se quem puder.
Texto é tecido: entrelaçam-se autor, leitor e matéria. Coexistem, respiram-se, experimentam uns aos outros. Cuidado. Um rapto literário não tem volta. Uma vez arrebatado por um texto, você recobrará a consciência a muito custo. E, quando finalmente o fizer, constituirá então outra existência.
Eu vou deixar a chance de transformar por meio das palavras a cargo de Clarices, Bandeiras, Galeanos e Virginias. A todos esses grandes fantasiadores capazes de erguer pontes e abrir passagem entre quem produz e quem devora a literatura.
Deixo aqui imprudentes marcas de alguém-eu que se atreve a arriscar uma amarra ou outra no tecido.