Égua barranqueira

Luiza Kons

Foto: Luiza Kons

algodão algo down algo dual algo doce algo do cê algo de eu….(Elian Woidello)

Madeira sem nenhuma demão. A cor crua. Á frente alguns pés de jabuticaba. E aquele cheiro tão característico produzido nos dias de vento e sol, desses que queimam a pele e formão bolha sem nem tomar conta. Assim era casa de homem que quer viver. Não de homem que quer mostrar. O homem que quer mostrar precisa carregar várias amostras disso e daquilo: quando sai do lugar cheio de paredes entra no carro cheio de estofamento e precisa de uma pasta cheia de compartimentos: no meio fica o vazio, sempre tentando ser cheio e ficando mais preenchido de nada. A miséria de abarrotamento.

Ele era homem da vida simples, de ser perder nas imensidões do algodoeiro da terra quente e vermelha. Da palavra lavrada e semeada a cada frase. Os cabelos crespeados e rarefeitos presos. Cortados vezem quando em casa. Será mesmo? Será mesmo toda essa lorata?

Gente em excesso cansa. Gente em excesso vai amontando e formando círculo e aí se acontece alguma coisa surge aquele monte de pé que vai pisando no braço e na cabeça do outro. Ele não tinha paciência. Não tinha paciência para gente nenhuma. Aí, ficou incomodado de ver gente ali no galpão perto do trator sem cabine. Tratava-se de um menino feio e espinhento, que na certa iria querer roubar seu Sharp que ele gostava de ouvir pela manhã. Ele foi andando sem fazer nem conta, a ignorância é uma benção aos imbecis.

-O senhor ouviu o que aconteceu ontem?

Era só ligar o Sharp no noticiário político que aquele rosto oleoso ia ver se arranjava algum lugar para colher algodão e juntar uns cruzados novos para comprar sodinha e tomar com outros imbecis iguais a ele.

- Tava na televisão. A tal capeta de cabelo armado, é assim que meu pai a chama, disse tudo. Acho que é Zéia o nome dela.

Girou com a mão esquerda para 540 KHZ .

“O cruzeiro volta a ser a moeda nacional. E parte dos cruzados novos vão ficar retidos nos bancos. Mesmo assim, a ministra da economia Zélia Cardoso garante que o salário real será preservado”.

Informação chata. Gente chata. Aqueles malditos já tinham acabado com esse país.. Para agora um engomado metido a pão… Quanta hipocrisia. Foi girando o botão do Sharp até chegar no 572 KHZ, melhor ouvir Baianos e os novos Caetanos já que a vida não era engraçada, quem sabe um sorriso forçado? Quem sabe lá no fundo não fosse sua obrigação não compactuar com a procrastinação intelectual?

- Ah! Coloca Bikini Cavadão. É o que a turma ouve.

Continuava ali o petulante, e quanto mais olhava para a pela daquele rosto juvenil mais espinhas e cravos infecciosos pareciam brotar. Porque ele não ia embora? Porque ele não era como os jovens de dez anos atrás que lutavam por alguma coisa, ao invés de coçar o saco e esperar égua boa na beira do barranco? Ah! É mesmo, naquele lugar não havia passado, futuro, ou presente o relógio a muito esquecerá de girar. E quando o tempo para não a cobrança só lamento. Estar no meio daquela imensa planície vermelha era sua redenção. Era o céu infernal: a imensidão do campo sabe cobrar a memória, sabe lembrar a pequenez e a miséria humana. Pena que só sabe fazer para os miseráveis que aprenderam a pensar aquém da égua barranqueira.

-Moleque saia daqui.

Os calombos no rosto do piá quase que escorreram lágrimas de gordura.

-Mas e se eu te ajudasse a colher o algodão? Dizem que você colhe sozinho até suas mãos sangrarem.
-Dizem muitas coisas moleque. Só não dizem aquilo que tem que dizer.
-Isso bem é. O meu pai…
-Não quero saber o que um velho burro diz. Some daqui.

O piá sorriu constrangido.

-Só não precisa ser mal educado.

É engraçado como se pode ter estado tão próximo do ápice da aplicação da língua portuguesa para agora discutir com moleque de égua barranqueira? Para ter o pé encardido de vermelho e lavar com bucha vegetal cheia de semente dentro? Na certa quem inventou o arcadismo foi um sacana que gosta de rir dos trochas que acatam essa ideia. E quem diria que cabelo ralo e corpo ereto poderia caber dentro de uma cabeça tão vazia? No fundo, ele era um moleque de égua barranqueira. No fundo, ele sempre soube que estava destinado a ter cabeça fraca que só pensa depois de ter visitado égua barranqueira por várias vezes. E por último para concluir a reflexão besta: quem foi o burro brejeiro que disse que o interior desse país move alguma coisa? Move mesmo bosta de galinha pra fundo de açude e só. Mais nada.

**

Acordou de manhã cedo, o sol nem tinha aparecido para relembrar alguma espécie de nostalgia matinal alegre. Ele detestava acordar cedo e parecer um intruso no dia, notar o cabelo cada vez mais oleoso e ralo grudando no rosto. Isso de lavar pelo com sabonete de banho de porco é uma bela porcaria. Colocou a água para esquentar e só se levantou da cadeira de madeira pintada de azul claro ao ouvir a chaleira explodir em berros. Café pelando é bom. Lembra que a boca não aguenta quase nada. Girou o braço fino e um pouco flácido no moedor fixado no canto esquerdo da mesa. Ai veio aquele cheiro que faz o estomago revirar e lembra que bicho homem come. E olha bicho homem como de quase tudo. Colocou o pó no coador velho e fedido de outros cafés, em outros nem tão distantes e nem tão revigorantes. Todo dia era aquela bela porcaria, assim que terminasse de misturar pó e água vinham os primeiros raios de sol. Ai ele lembrava do homem medíocre que sempre fora. Lembrava da caralhada de notícias de ontem, que reforçavam e cantarolavam no Sharp a bosta que era. A bosta de homem medíocre que era. Agora até os cabelos eram nojentos, nem para égua barranqueira prestava mais.

Levantou e foi em direção a caixa vermelha feita de camurça. A caixa não era grande, mas como papel cabe dentro das coisas. Cabe mesmo, um nada de espaço e dava para enfiar um tanto deles. Se árvore soubesse se multiplicar como eles então não tinha desmatamento.

Ou quem sabe no fundo não quisesse admitir para si que a sua importância se resumia a uma caixa compacta? Que no máximo viraria um caixão de madeira um pouco mais grossa? Não, besteira auto-depreciação. Abriu a coisa de camurça. Só que agora aquele lixo todo não despertava aquele prazer secreto, eram só papeis com anotações mal feitas e recortes de jornais velhos, recortes toscos. Então porque ele não jogava tudo fora? Então porque mesmo não contamos tudo para nossos amigos, porque por fora somos sempre alguma coisa um pouco diferente? Porque ele deveria se importar com aquelas malditas contas aprisionadas? Se ele não deixa o lixo do papel valioso no banco?

-O que é isso?

Lá estava o espinhento se esgueirando por entre a janela entre aberta. Por sorte, os cabelos sebosos dele tamparam a sobrancelhas e o pia de égua barranqueira não viu sua expressão.

-Bem, que meu pai disse que você parece o mais estudado da cooperativa. Eita preula! É muito papel. Você era famoso?

A fama tão escorregadia tão reguladas pelos ignorantes.

-Sai daqui moleque.

Aquele égua barranqueira colocou o dedo indicador sobre a testa como se tentasse cutucar o caroço cheio de pus.

-Vou te ajudar a colher o algodão.
-Sabe o motivo deu estar longe das pessoas?
-O senhor fala umas coisas engraçadas. Quero te ajudar a colher, quatro panhas sozinho não é para qualquer um.

Os olhos castanhos dele com as pálpebras caídas a fazendo sombra se tornaram vívidos como se a muito quisessem entoar aquelas palavras.

-É porque eu não gosto de pessoas.

**

Ás vezes ele só queria ser uma águia com aqueles olhos tão sobre humanos para poder visualizar lá de cima a beleza daquela terra vermelha contrastando com as maçãs ora verde ora lilás do algodão. E também queria ter o poder de ir acelerando todo o processo só para notar as plumas brancas desabrocharem da maça. Aí seria uma imensidão de fileiras brancas se fundindo ao escarlate. Tudo uma espécie de grande tapete na giganteza daqueles dois alqueires, tão pequenos e tão enormes. Afinal, não é tudo uma questão de tamanho? De proporções o tempo toda sendo comparadas? Para no final tudo ser objetivamente subjetivo?

Duas longas semanas para estar colhendo ainda o final da primeira panha. A maldita primeira. As maçãs da segunda panha a muito desabrocharam acima da primeira nos pés do algodoeiro. Logo viria a chuva e levaria várias arrobas embora. Aí não importaria se um dia as maçãs liberam uma coisa branca. Se ficaria tudo vermelho em meio aquele pó sem fim. Porque as estações vão retirando a água do nosso corpo? Não se trata disso, essa coisa de envelhecer ir perdendo pouco a pouco o líquido da células até tudo ser comparável a uma maça podre?

-Eu vejo que está ficando difícil para o senhor. Já disse que posso ajudar.

Lá estava o escroto espinhento na beirada da porta. Sempre estava lá. Gozado quinze dias depois e já vem o sempre. Piá de égua barranqueira conseguia aparecer no justo momento em que ele estava com os papéis da caixa de camurça vermelha. Nas suas lembranças sem gente. Quando é que entenderia que mudar de ideia é só desculpa?

Engoliu o café devagar recolheu os papeis a sua ordem, e calmamente se dirigiu ao galpão, com a marmita e água já devidamente engarrafada, para ouvir o seu Sharp, como se não houvesse égua barranqueira nenhuma. Como se não houvesse alma ou bactéria pulsante. Mas, as espinhas são algo determinado. Elas podem durar a puberdade toda, e teimosamente vão resistir a qualquer remédio da farmácia, do terreiro ou do fabuloso números de combinações de ervas indígenas. Então as espinhas ficavam ali nos dois alqueires do algodoeiro o dia todo. Espinhas nãos se importam em serem bem-vindas, ou aceita ou sofre ainda mais.

Girou o Sharp com a mão esquerda ouviu aquela ladainha sobre o caçador de Marajás, juntou alguns fardos e foi. Começou a colocar o ouro branco dentro do fardo amarrado na cintura. Aí foi pesando. Aí foi doendo a coluna e o braço. E o égua barranqueira ali sempre pronto, como se a esticar, como se eriçar e gritar do alto de seus calombos oleosos que estava pronto.

-Só me responde uma coisa moleque: porque está aqui?

O piá se sorrindo todo, se eriçando todo não se acreditando do diálogo que fluía respondeu.

-É pelo meu pai senhor, ninguém o pega para o serviço. Tá todo mundo perdendo tudo, sem o dinheiro do banco. O algodão está sem preço de mercado. Ninguém compra, ninguém vende e ninguém contrata. Ai disseram que pro senhor nunca falta trocado, que sempre tem, dizem que não acredita nos bancos e nem no governo. Dizem muitas coisas sobre o senhor. E quem sabe dá para juntar uns cruzados novos ou cruzeiros o diabo que for pra comprar um violão?
-Amarra aquele fardo, que tá ali do lado. E vê se fica quieto, falar muito estraga a mandíbula e pode me fazer mudar de ideia.

O piá quase que se eriçou e se gritou por dentro de tanta alegria, quase.

Ele só conseguia sentir nojo do cabelo velho e sebento que era. De saber que no fundo ainda sentia prazer de foder todo o resto. De fazer à coisa toda depender dele, mesmo tendo plena consciência que a única bosta era ele, de não conseguir valorizar gente de coração puro. Ah! Os vícios resquícios nunca se vão.

**

O piá de égua barranqueira era bom com as mãos, ágil nos movimentos em menos de 40 dias estavam quase terminando a última panha. Entre uma maçã e o outra, com os chapeis a cobrir os rostos ele podia notar o desejo daqueles caroços de gordura em ter um violão estúpido, um desejo muito maior que o a vontade de solucionar a impotência do pai burro. Ele gostava de vislumbrar isso, gostava que o individual fica-se acima. Dava mais graça. Tornava a coisa mais humana. O piá menos tosco. Pena que em pouco tempo o barranco se mostraria mais filha da puta para aquele imberbe columbento. A égua ficaria mais eriçada.

Os calombos apareciam na mão dos dois, as frases se tornavam menos dolorosas para ele. Bom ver gente com ambição admirando a gente. Bom ver gente vendo a gente como modelo. Admirando a gente. Bom ver gente admirando. Tão bom que é melhor nem pensar por demais no ontem.

Vez em quando dava até para preparar alguma comida diferente para levar e matar a fome depois de seis fardos por dia. Vez em quando pareciam se conhecer a vida toda. E vez em quando, a esse vez em quando querendo virar sempre.

**

Ai um dia os fardos, as maçãs, e uma história que ele começou a contar sobre os malditos milicos burros, foi tudo ficando tão pesado. E cadê água? E cadê água que não tava na bolsa térmica? E ele tão cansado, dos milicos, dos fardos, das maçãs e o égua barranqueira parecia cada vez meio que menos espinhento, meio que mais esperto, meio que mais ambicioso, meio que vendo o homem tão contra o sistema que ele era, tão contra esses marajás otários, então porque não pedir ao moleque para ir a casa tosca de madeira pegar o líquido que os refrescaria? Ah! Tosca confiança.

Pois que o égua barranqueira foi lá. Abriu a porta com cuidado, pediu licença na mente por educação. Pois olhe como o senhor era desatento esquecerá as garrafas encima da mesa. Pois olhe que um dos papeis estava fora da caixa vermelha de camurça. Pois que vamos guardar tudo e deixar tudo em ordem, como diria o pai bom trabalhador faz antes de pedir. Pois que olhem os papeis, pois que olhem as anotações não pode ser. Pia égua barranqueira era burro, mas aprendera tanta coisa com ele, que entendia tudo.

**

-Tá aqui sua água senhor!

E meio que jogou as garrafas no colo do homem sentado de cócoras próximo ao trator. E meio que amarrou o fardo na cintura com raiva, e saiu que nem égua barranqueira bem eriçada bem empinada, bem com sede e raiva indo enfiando maça no fardo. E sumiu-se nas fileiras do algodoal, tão dual, tão branco e tão encardido. Deus porque as coisas tinham de ser assim? Porque não existia gente completamente boa e completamente direita. Pois bem! Que o pai mandou ele não dar trela pra Jaguará esquisito, que sequer fazia aceno de mão quando passava carro ou bicicleta, que não tava nem ai para os outros da cooperativa. Nem ai, se os meninos não teriam mais cruzados novos ou cruzeiros ou o diabo que fosse para gasta tomando uma sodinhas no bar do seu Raulino, com a havaianas azuis e branco encardido cada vez com mais pregos, com a coisa toda a cada dia espetando mais. E o homem sempre se aprochegando mais dele, colocando mais quirela na sua marmita, dizendo que os boias-frias são usados pelo sistema e que Bikini Cavadão é cultura de massa. Mas que diabo era isso tudo? Que diabo se ele adorava um bom prato de macarronada. Pois bem, que uma coisa nada tinha que ver com a outra e agora ele entendia. E correr para acabar toda aquela panhada de maçã, aquelas maçãs feias, aquela vida desgraçada. Bom mesmo era o violão. O som dos pássaros não aquele sol quente de coisa ruim, que formava vermelhão na pele. E ele não aceitaria mais nada daquele velho de cabelo ralo grudado na cara. Só terminaria a servissera toda para ganhar cruzados novos ou cruzeiro ou o diabo que fosse, para comprar o violão ou dar uns trocados para o pai se o tratasse de adulto para adulto. Já era um homem, e bem sabia disso. E homem que é homem é digno e respeitador, e aquele velho isso não era.

**

E cadê o moleque espinhento e calombento que sumira por entre as panhas? Pois que aquele moleque aparecesse se não quisesse panhar e ficar de queixo quebrado. Pois que era por isso que ele não gostava de gente. Gente não é que nem bicho ou égua barranqueira que sabe esperar no declive e estar prontinha. Gente vai se aprochegando e vai entendendo o jeitinho que tem de fazer para não fazer nada. Ah! Mas ele ia atrás daquele égua barranqueira e falar tudinho: que se não trabalhasse no horário certo não ganharia cruzeiro nenhum. Ah! Mas não devia ter colocado quirela a mais. Um pouco mais de caldo e banha de porco no feijão e a gente já tá montando em cima. Já tá querendo rouba a égua barranqueira dos outros.

Pois que caminhou por entre as fileiras daquele lugar tão dual, até chegar meio que perto do final, onde já começava a ter cerca de arame farpado e do outro lado um pouco de mato e um barranquinho lá por onde começa a beirada da nascente. E não é que ele viu o égua barranqueira na beirada do barranco? Com a camisa toda a vermelha, as mangas dobradas e o chapéu em cima do rosto. O maldito tirando cochilo, e ele lá meio que se aproximando do lugar do égua, o sangue fervendo e o cérebro gritando mais que chaleira no cio.

- O moleque e o trabalho? E as panhas?

O égua barranqueira foi tentar sair do barranco, mais doeu demais o tornozelo. Tinha se vindo tão rápido mais tão rápido, de raiva de vontade de ir na nascente e matar a sede e matar tudo que virá, que tropeçara em um tronco de árvore, e tava ali com uma das patas torcidas completamente.

-Torceu o pé?

E ele foi se aproximando do égua barranqueira que não tava em bom dia para retribuir agrado no barranco, que não fez nem conta do agrado. Ah! Ele não ia aguentar, não ia.

-Olha senhor vou continuar os trabalhos, vou ganhar meu cruzado novo meu cruzeiro ou o diabo que for. Mas, nada de quirela a mais na minha marmita. Sou seu boia-fria e só.

O homem quase que teve um susto, como se vissem ele e o égua ali no barranco. E ele todo nervoso, todo suado. Olhando aquela maldita terra vermelha, depois meio que vendo aquela caixa vermelha. Será que era caixa?

-Ah! O senhor é esperto deve saber do que eu to falando. E lá em casa a gente sempre aprendeu a falar tudo. E cueca do pai também é do filho. Você me ensinando tudo às coisas lá das cidades grandes, e falando de direitos, e falando dos milicos que nós nem tomamos conta direito aqui.

E ele suando, e ele se sentindo um velho, velho de si mesmo.

-Ai, sei que no que é do outro não se meche. Mas eu vi o papel que esqueci e sabia que era daquela caixa vermelha. Que você sempre meio que deu a entender que era algo só seu. Mas, ai eu vi lá dentro as anotações. Eu não sei muito bem o que é, mas percebi que não era coisa boa. Em um dos papéis você dizia “1965- O berço do herói não passou por nós”, depois tinham umas anotações sobre o Raul Seixas que eu gosto tanto. E foram tantos anos e tantas anotações. E uns jornais com revista de bolo. E ai o senhor apareceu aqui há alguns anos tão de repente tão esquisito. Boa coisa não deve ser.

O égua parecia aliviado de dizer aquelas coisas. O égua se aliviava bem rapidinho. E estranhamente ele não estava com raiva de toda aquela barranqueira. E ele deu sorriso e de repente se sentiu meio Getúlio, meio que um pai que sente alguma coceirinha pelo filho. Pegou vagarosamente o piá no colo e de repente sentiu carinho por cada um dos calombos do rosto oleoso. Ele meio que quis espremer cada um com a própria língua. E fitou como quem tudo sabe com aquelas pálpebras caídas os olhos daquela puberdade tão inocente.

-No caminho eu explico tudo. Explico tudinho.

No fundo ele era um adestrador de égua barranqueira. E se égua gosta daquilo? Porque não ensina-la a fazer cada vez melhor. Ele se sorriu por dentro. Ele podia ver o branco do algodão ir ficando vermelho. No final a maçã que floresce branquinha vai parar na cera de ouvido. Essa é a lei. Ele se sorriu mais ainda por dentro: e quando o égua barranqueira descobrisse que ele não havia podado apenas ideias? Quando ele descobrisse que ele conhecia os milicos ainda mais por dentro?

Isso seria para um outro dia, para um barranco ainda mais difícil de penetrar. Agora ele só queria caminhar com o égua barranqueira para sempre por aquele algodoal dual.