A caixa vazia

Luiza Kons

foto: Luiza Kons

Metodicamente, emparelhados, os livros na estante: por cor, tamanho, ano de edição. Uma única partícula de poeira se recusava a dançar em frente aquele caos organizado, sem ser instantaneamente massacrada.

- Pois sim! Tudo tem que fazer o seu sentido, ter o seu lugar: a harmonia é a sincronia do universo.

Desse modo, respondia ao notar olhos perplexos diante de ambiente tão politicamente limpo e com os objetos incrivelmente encaixados, sem sobrar ou faltar espaço, sem tirar ou por. E se os termos trazem a ideia de repetição quase pleonástica, é devido ao breve lapso de sentidos ocorridos por tamanha beleza de lar, as pupilas dos seletos espectadores. Não seria hipérbole ( está sequer combinaria com sua personalidade), referir-se a tal residência como um estudo: seja da plasticidade da arte, seja da milimétrica das ciências exatas, seja do próprio espirito com tamanha demonstração de consonância entre as cores e vibração de cada móvel .

O mesmo ocorreria com sua vestimenta? A resposta é perfeitamente, sim. A gravata deixava de ser o acessório pronto a enforcar os homens, para tornar-se a grande estrela a conduzir a camisa, enquanto guia-se pelo instinto experiente e protetor do paletó, que por sua vez embala-se pelo ritmo firme e improvisado pelas dançarinas calças. Sem qualquer prega, ou amassado cada fibra do terno permanecia em seus limites, como lhes convinham, como ele julgava certo.

E a quem possa pensar ser a vida deste indivíduo, uma completa irrealização fora das paredes de tal suntuosidade da arquitetura, visto que, jamais conseguiria arranjar solução para tantas questões ou coisas desorientadas, amplamente afastadas de seu eixo . Engana-se. Durante todos os anos de existência, não foram poucos, impressionantemente nada fugira-lhe do controle: por onde passasse um vento de ordem soprava-se e pessoas e seres inanimados encontravam sua função e ocupação.

Sempre seria assim, até a partícula apassivadora aparecer desapaziguando os rumos dos parágrafos até o presente momento costurados. Naquele fatídico dia em que a campainha soou fora do horário de costume, seus passos transparecendo uma metódica coreografia foram de encontro a porta. No entanto, a dança de sua vida encontraria o primeiro movimento fora do eixo. Quando, girou a maçaneta com rosto já posicionado para dizer um solene bom dia: não havia ninguém. A expressão daquele homem foi de espanto, estaria ele ficando louco? Foi então como uma espécie de reconforto vindo dos céus que ele viu: a caixa. Nem grande, nem pequena, nem baixa, nem alta. Cuidadosamente quadrada e com a cor marrom costumeira dos papelões. Ele posicionou os lábios em um singelo sorriso. Pois sim! A caixa era perfeita. E quem a visse entenderia a relevância dela existir, não restava uma ponta de incerteza: o espécime de representação máxima de sua categoria.

Tomado de grande emoção, ele a levou para dentro de seu recinto, calafrios percorriam seu corpo; as mãos suavam e suas expressões faciais constituíam-se em uma espécie de delírio. Restava -lhe enfim, saber qual dádiva a caixa traria escondida. Para quem não o conhecesse, a forma como agia poderia parecer absurda, porém, estes não sabiam o quão fascinante e raro era encontrar um objeto totalmente perfeito:

‘Pois sim! A caixa entrava no auge de ser caixa, e sendo assim, tinha seu sentido quase completo, só havia um detalhe para seu apogeu ; descobrir seu mistério oculto!” (Mas, pela primeira vez, não tivera de fazer um único estudo para desenvolver algo em tamanha perfeição.)

Então ansiosamente, sofridamente e alucinadamente ele a abriu. Quem tivesse a oportunidade de fita-lo, não entenderia a expressão abaixo de suas sobrancelhas: seu olhar era vazio, vazio como um pote em vácuo clamando por ar, vazio como um céu sem estrelas, vazio como um homem sem amor, vazio como a caixa pela qual depositara tantas expectativas. Sim, nenhuma misera ondulação defeituosa para preencher seu interior. Talvez, tal cena é que sim transmita uma ideia de humor vazio. No entanto, novamente terei de dizer: engana-se, aquele espaço repleto de nada trazia a tona muito do tudo há tanto escondido naquela alma perturbada: se não havia nada em um caixa perfeita, cujo a finalidade é a de transportar algo, então ela não tinha sentido, e toda sua beleza tornara-se uma bela ilusão, só restava chama-la de uma junção de papelões. Mas, isso mostrava-lhe o quanto era presunçoso. Afinal, julgou em primeiro a aparência e não a essência do que daria razão ao objeto. E ha quanto tempo isso vinha acontecendo? Quantas caixas ele julgou sem abrir? E quando abriu sem ver?

Sua cabeça dava nós apertados, uns sobre os outros, suas mãos procuravam a face em uma tentativa frustrada de mudar tal resolução. Não mudariam. Suas feições sérias e resolutas, a partir daquele dia ganharam um ar desconfiado e sôfrego, Já não seria mais o mesmo homem. E tinha sérias dúvidas quanto a veracidade da última palavra, quando está referia-se a si.

Os dias se passavam transparecendo anos em seu rosto, já não conseguia dormir, ou, pensar em outra coisa que não remetesse àquela cena da junção de papelões sem significado. E para piorar, a cada dois ou três dias chegava outra idêntica a primeira, e como um pesadelo malditamente insistente, ao abrir qualquer uma delas, a sentença se repetia: vazias, absurdamente vazias. Mas, ainda assim ao encontrar outra na porta, acreditava no intimo se sua matéria que haveria dentro delas alguma coisa, isso lhe dava por alguns instantes um breve bem estar: sentia-se recebendo novamente o elixir que nos dá impulso para continuarmos seguindo as tortuosas trajetórias trilhadas pelo destino, ou, mero acaso. O nome não fazia importância, no fim querem dizer a mesma coisa, ainda que com antônimos. Todavia, durava pouco, muito pouco. O suficiente para fazê-lo achar-se o maior idiota já nascido: frustrando com a frivolidade de uma caixa vazia, ou melhor, de várias delas; agora milimetricamente empilhadas no corredor. No fundo sabia não ser isso, e talvez no mais secreto do seu inconsciente soubesse que deveria julgar-se um idiota, por não conseguir admitir isto a si próprio.

Deixou de receber os agraciados a visitarem o seu lar. Cometeu a atrocidade de deixar a barba por fazer ( tal ato sem dúvida, assustaria os conhecidos), pegava as roupas ao acaso no guarda roupa. Começou a julgar uma babaquice sua filosofia da sincronia harmônica do universo. Passou a sair somente o necessário, até que por fim deixou de tirar os pés para fora. Sentia-se levando um soco no estômago. A única coisa a entretê-lo, era sentar-se de frente às caixas e contempla-las até que a noção de tempo se perdesse. O rosto ganhava contornos pretos próximos ao nariz, os ombros tornavam-se caídos. A incerteza o corroía lentamente, como um ratinho de laboratório sendo morto aos poucos por um teste, o qual apenas acelerava o obvio.

Quando a desilusão concretizava-se no diabo a atormentar sua consciência, um lapso de positivismo o acenou: e se fizesse vigília na entrada, esperando a campainha tocar poderia quem sabe conseguir um reconforto, para tamanho absurdo. Dessa vez foi de novo a frustação quem lhe acenou e depois sentou a seu lado. Agora, a campainha não tocava, as caixas apareciam à porta sem o menor ruído, bem como, silenciosamente a depressão encarnava-se como sua segunda pele. Logo, para ele a quem sempre julgara homens em estado permanente de melancolia indivíduos preguiçosos sem ter o que fazer. Pois sim! Ele não tinha espaço para tristeza, sempre havia algo a ser organizado, estudado, a perfeição não era uma meta, mas, uma realização latente em seu dia a dia . Se não passava horas a comtemplar seus problemas pessoais, é porque não os tinha. “ Afinal, as questões abstratas de nossos sentimentos, no fim rearranjam-se sozinhas devemos nos entreter em situações práticas e denotativas, estás sim estão dentro da razão. E por estarem dentro do real, precisam de mãos verdadeiras as arrumando para não virarem o caos, portanto, envolver-se nas reminiscências fora da razão é adentrar na loucura, em outras palavras é perder o tempo precioso da vida, por fim é supérfluo”. Esta era sua teoria, francamente aceita por vastos ciclos de intelectuais, devastadoramente admirada. Todos a achavam ainda de maior fantasticidade por não conseguirem cumpri-la, por sempre envolverem-se nos círculos abstratos do sentir, e principalmente por saberem que havia apenas um homem a qual a seguia, e era plenamente feliz: ele.

Verdadeiramente, antes das junções de papelão chegarem fora um homem satisfeito e pleno. O fato de não ter constituído família, ou sequer ter adentrado no plano amoroso, jamais o fazia ter a sensação de fracasso apenas não acontecera, uma questão de prioridades onde o amor fora suprimido devido ao tempo.

A brincadeira sádica contra sua saúde já durava há quase um mês, e restou-lhe apenas a tentativa desesperadamente humilhante de fazer sua espera no corredor ao lado da porta. Por muito relutou em tomar tal medida: não queria que ninguém soubesse de sua aflição secreta em torno de um misero derivado de petróleo, não compreenderiam porque nem ele conseguia. No mais, todos pensavam estar ele viajando e no fundo era verdade. Contudo, tinha de encontrar um significado para as caixas, só assim acharia sua própria acepção, e não fazia mais diferença o que pensassem dele, nada seria maior do que a aflição interna a qual lhe arrebatara.

Só que as horas foram passando, e nenhuma pessoa surgiu para julga-lo, ou caixas para reconforta-lo. Porém, não desistiria. Ficaria lá até uma caixa aparecer. Não apareceu.

O sol já brotava com raios luminosos, e lá estava ele: não desistiria. E sua insistência o traria a desejada resposta: ela segurando uma caixa, com a notável diferença que a dela encontrava-se cheia. Aquele homem, jamais esqueceria aquele momento quando os raios luminosos da razão cederam espaço para os raios luminosos do sol a iluminarem. Anos depois ele diria que naquele instante tudo se apagou, só havendo uma mulher com um brilho dourado e mágico, trazendo na sua caixa a resposta para a verdadeira sinfonia que rege a harmonia do universo: O amor. Aquele que bagunça e desarranja tudo figuradamente, ou, concretamente para depois arrumar a tudo, em uma eterna dança desarmonicamente harmônica.

Ela aproximou-se trazendo em seu olhar de Afrodite a resposta vinda do olimpo:

-Bom dia! Nós não nos conhecemos, mas, fomos vizinhos por algum tempo. Pensei estar o senhor em uma viagem, por isso, não pude perguntar-lhe , como fiz aos outros moradores: se por acaso (ou destino?) recebeu algumas caixas? Os olhos dele brilharam e demonstram uma atenção sobre humana — É que estou me mudando, e o porteiro disse-me que levaria algumas caixas, mas não recebi nenhuma e não dei importância, até que ontem ele me perguntou o que tinha achado delas para não deixa-lo chateado falei serem ótimas, e como necessitava e ainda necessito de algumas para guardar o resto das coisas gostaria de saber senão estariam com o senhor?
-Sim.

Seria impronunciável tentar descrever o que ambos sentiram com aquela resposta, mas, a partir desta os dois sabiam: jamais se separariam. Ela deu-lhe um sorriso e perguntou apenas para ter a confirmação:

-Qual o número do seu apartamento?
- Seis.

A mulher deu outro longo sorriso. Por ele não entender explicou:

-É que os porteiros geralmente confundem três com seis.

A mulher pode terminar de colocar seus objetos nas caixas , o porteiro não se enganara : ela morava no apartamento seis, sempre morara lá. Agora, as caixas vazias estavam cheias. E ele enfim pode perceber que a frase anterior ao ponto estava errada, pois, as caixas nunca estiveram vazias: elas trouxeram ele dentro delas.