Dos Serial Killers — Da Exposição de um "novo" Mal (3/3)

Ainda falando sobre motivações “pré-serial killers” (as minhas não as deles), falo ainda aqui um pouco do Mal e em como começamos a querer não encará-lo mais. Em como queremos eliminá-lo a partir dos mesmos modos usados por ele. Em como achamos natural que a mídia, por exemplo (sou jornalista, lembra? Mídia é meu assunto) traga todos os dias a violência de formas banais, infantilizadas, para que possamos dizer, por exemplo, com naturalidade “bandido bom é bandido morto”. E aí começamos a falar dos assassinos seriais propriamente ditos. No próximo texto, aí sim, caímos dentro desses sujeitos.


3 Da Exposição

“Eu não matei ninguém. Eu não ordenei que alguém fosse morto. Essas crianças que vão até vocês com facas, são seus filhos. Eu não os ensinei, vocês sim” (Charles Manson) (N.E. Eu não considero Charles Manson um Serial Killer — sorry, Charlie — mas está aqui porque além de ser um ícone da violência, um ícone americano, eu diria, a frase é bem boa)[1]

Segundo Muniz Sodré, vivemos em uma sociedade em meio a uma “destruição permanente de valores” (2002: 31). Partindo então dessa premissa, de uma comunidade que perde valor a todo momento, quando que o Mal vai se virar contra a sociedade e revelar o lado mais sombrio dela mesma? Qual a relação entre um rigor excessivo em seguirmos regras e a constante violação delas chegando num paradoxo de estarmos cada vez mais motivados e obrigados a esconder o Mal dentro de nós? Qual seriam os fios condutores de um comportamento tão complexo e cada vez mais incoerente?

Como insistimos negar este Mal, ao jogarmos no outro a “culpa” pela existência dele, começamos a “identificá-lo” como algo estranho a nós. Numa relação promíscua, passamos a alimentar o nosso “espaço vazio” deixado por esta negação à parte maldita com a violência do outro, que primeiro assistimos e depois partimos para eliminá-la.

E como acontece?

Há diversas formas que passam por diversas disciplinas. Mas aqui, obviamente, vamos nos ater somente às que nos dizem respeito. Talvez nada seja mais agregador e disseminador da violência quotidiana do que os jornais, programas de televisão, a mídia em geral. São neles a que somos impelidos a reforçar nosso sentimento de que o Mal é do outro, mesmo quando ele é praticado por “semelhantes” a nós (mesma classe social, raça, etnia, etc.).

Segundo Muniz Sodré, em um relatório de 1993, ou seja, há 24 anos, da Associação Norte-Americana de Psicologia afirmava “que uma criança ao fim da escola primária, à razão de três horas por dia de exposição a TV, terá visto cerca de oito mil assassinatos e 100 mil atos violentos” (ibid: 10). Temos noção de que, então, há uma exposição prolongada e contínua da violência.

Mas o problema não só a exposição.

Nosso ponto é olhar para tratamento dado a ela. Quanto mais assistimos à violência de uma forma espetacularizada, mais digerível ela se torna, familiarizados ficamos. E quanto mais familiarizados ficamos, começamos a ficar anestesiados, e, num nível mais elevado, chegamos a sentir prazer e satisfação nesse esquema.

Ainda segundo Sodré:

“De onde se origina esse prazer? Do desejo comum aos homem de fazer mal uns aos outros — é a resposta clássica dada por Hobbes — , na medida em que todos disputam um mesmo objeto, que é o poder (…) Daí derivaria o prazer (…) de torna-se espectador do sofrimento alheio” (2002: 98).

David Schmid se aprofunda mais ainda nesta seara do prazer e do aceitável quando falamos em violência:

“Para um público sensível, a violência pode ser considerada aceitável se for atribuída a um Outro perverso, ou por ser justificada em termos racionais, ou por estar limitada em seus efeitos, ou por ser estilizada através de convenções narrativas ou rituais que negam suas consequências (…)(Schmid, 2005: pos. 1654) (grifo meu).

Nessa tentativa até certo ponto desesperada de dar cabo ao Mal e, ao não conseguir, de dar algum significado a ele, seja no outro, seja com a indiferença, encontramos ecos nas palavras de Eliade que diz: “em todo lugar encontramos nela uma tendência igual, no sentido de dar ao sofrimento e aos acontecimentos históricos um significado normal’” (Eliade, 1992: 101). Ou seja, passamos a repetir quando lemos ou assistimos nos programas policiais que alguém “morreu porque merecia”, ou “se apanhou é porque fez algo de errado”, “não está preso a toa” e etc. Afinal, o Mal do outro merece e precisa ser punido. “Há um motivo pelo qual nós temos prisões. Uma delas é para manter pessoas como Hadden Clark[2], longe, muito longe de nós”[3] (Neely Tucker, The Washington Post, 06 de Março de 2008). Longe fisicamente, porém, perto através dos jornais e da TV.

Além do paradoxo de livramo-nos da violência com mais violência, queremos abolir a morte “matando-a no outro”. É um sistema contínuo de contradições. Schmid diz que “na recriação estética, nós temos uma situação impossível, que é morrer e retornar aos vivos. Mesmo que sejamos forçados a reconhecer a presença ubíqua da morte na vida, desta maneira a crença em nossa imortalidade é reforçada” (Schmid, 2005: pos. 289). O que faz coro às palavras de Muniz Sodré:

“No segundo modelo freudiano (Além do Princípio de Prazer, 1920), ganha destaque a hipótese da pulsão de morte, cuja finalidade é a autodestruição do sujeito. Freud parece aqui reinterpretar as especulações de Hobbes sobre o medo da morte como angústia originária. Agredir alguém seria, assim, garantir imaginariamente a sobrevida própria, transferindo a morte para o outro” (Sodré, 2002: 24).

Reforçando essa ideia com palavras de Maffesoli, quando “a morte recusada vinga-se impregnando a totalidade da vida” (2006: 115). Ou a “fuga diante da morte, negação da morte como fonte da existência. (…) tal fuga consistem em ‘dramatizará a morte, isto é, encontrar-lhe uma solução: o paraíso ou a sociedade perfeita” (Ibid, 32).

3.1 Da “vingança”

Juntando todas essas definições e considerações sobre a violência, o Mal e tudo que acarretam quando não estão em equilíbrio com as forças do nosso interior, chegamos a seres cruéis e desprovidos cada vez mais de sensibilidade para lidar com o estresse do dia a dia e com a maldade que cresce justamente por alguns dos motivos citados acima.

Mas como esses seres (no caso, nós) se posicionam quando o Mal do outro se transforma em um Mal maior do que aquele que lidamos no dia a dia? Como reagimos ao ver que a nossa violência diária pode ser suplantada, aumentada e até ritualizada? Como ficamos ao ver que esta violência que nos é entregue possa vir ainda mais forte e cruel? Ainda chocamo-nos com isso? Ou repete-se o mantra de matar a violência com mais violência? Ou ainda, antes disso, vamos assistir, vamos acompanhar, e até celebrar essa violência para depois vingarmo-nos dela?

Pessoas comemoravam e esperavam pela morte de Ted Bundy na cadeira elétrica na Florida State Prison, em 25 de janeiro de 1985

Há muitos aspectos que envolvem essa relação. Como se não bastasse essa repressão ao que não se entende como regra, ainda temos uma sociedade em que o famoso, o ícone, o exemplo é aquele que é mais visível, sobrepujando o talentoso (Schmid, 2005). Não é difícil verificar que nossos valores se alteram e passamos a admirar — sim, esse é o termo — aquele que somente possui algo que não temos. Seja meramente dentro dos “quinze minutos de fama”[4].

No caso deste trabalho, pode ser também o que não assumimos que temos, o Mal. Isto se transformaria em “uma complexa mistura de fascinação e horror” (Schmid, 2005: pos 966). Ainda citando Schmid: “a esfera pública dos dias de hoje é cada vez mais dominada por uma combinação instável de medo, paranóia e uma aquiescência forçada à autoridade” (Ibid: pos 1518). Vemos aqui medo, insegurança, indiferença e paranóia, provenientes desse expurgo forçado do Mal.

Continuamos a querer matar o nosso Mal no outro. Mas agora o caso é em um outro patamar. Queremos agora nos vingar daquele que teve a ousadia de elevar o limite do Mal — aquele que conhecíamos e já sabíamos como combater — a um novo nível. “Quando o Estado pune o marginal, o povo se vê vingado. A alegria que se segue diz respeito à reinserção da ordem e à suspensão do perigo do caos” (Bastos et al., 2010: 159). Seja no simples criminoso ou, agora, no mais perverso assassino. Até porque, segundo Eliade “(…) o sacrifício em si tem outra finalidade: restaurar a unidade primordial, aquela que existia antes da Criação” (Eliade, 1992: 78).

Ninguém em sã consciência aqui faria apologia ao crime, à morte violenta. A questão é que eles existem e fazem parte do nosso organismo social. Como dizem Helena Machado e Felipe Santos:

“Mas Durkheim concebe também o crime como resultado normal do funcionamento do sistema social. (…) de facto, afirma Durkheim, que o crime é funcional, não só por expressar a autoridade limitada da consciência colectiva, mas também por poder constituir um factor de actualizaçao dos quadros morais.(…) a utilidade do crime como factor de reafirmação da solidariedade colectiva, expressa na condenação ritual do criminoso” (Machado & Santos, 2010: 50–51).

3.2 Do “novo” Mal

“Eu sou um monstro. Eu sou o Filho de Sam. Eu amo caçar” (David Berkowitz)[5]

Somos indiferentes aos telejornais. Viveremos em novelas de fatos reais onde somos espectadores e agentes de uma violência cada vez maior. Como também diz Cazeneuve:

“O mysterium, como disse Otto, é simultaneamente tremendum e fascinans. O tremendum caracteriza o elemento inquietante do numinoso; ele provoca o sentimento que faz com que dele se afastem. O fascinans faz pelo contrário, com que ele seja desejado por si próprio que sejamos atraídos por ele e que se procure, por vezes com ele nos identificarmos” (Cazeneuve, 19__: 31).

Mas, ao contrário do que se possa imaginar, esta ausência de emoções não causa nem promove a racionalidade. Pelo contrario: “O distanciamento e a serenidade em face da mais insuportável tragédia pode realmente tornar-se apavorante” (Arendt, 1969: 47). Além de mais violência, e um sentimento de naturalidade frente à crueldade, tudo isso promoveria o bizarro, o grotesco e o surreal para explicar, contar, entender e absorver esse Mal. Ou, retornando a Baudrillard quando fala no “embranquecimento da violência” (Baudrillard, 1996: 28).

Como verificaremos mais a frente, para lidar com essa violência, para justificar e “garantir” que esse Mal não é dele “(…) o Homem moderno tem a imperiosa necessidade de experimentar a monstruosidade como resposta à sua banalização, enquanto consequência do apagamento das fronteiras que existiam entre o humano e o não humano” (Rabot, 2011: 202).

E o que seria o monstro nos dias atuais? O que poderia trazer à esta sociedade o que de pior um ser humano pode carregar? E ainda sob formas que beiram — ou atravessam — a linha do grotesco, do surreal, que nos fazem crer em forças sobrenaturais por não entendermos que exista algo ou alguém que seja pior que o Mal que encaramos diariamente. No nosso caso, este “algo” é o Serial Killer. Aquele que reescreve o assassinato em outras formas e mostra que o Mal e a crueldade ainda podem ser muito piores do que se imagina.

Assim, transforma-se este Mal que não conseguimos entender em um “novo” Mal. Sendo bem rasteiros: quem nos traz esta crueldade todos os dias é a mídia. E o Serial Killer invariavelmente aparece envolto em ficção, mistério. Primeiro porque até ele ser descoberto (quando o é), existe a caçada, a trama. Depois, não é possível alguém tão cruel ser de verdade ou ser feito de carne e osso como um ser humano comum. Então temos que banalizar, para entender e afastar o que de pior possa surgir entre nós. Procuramos a explicação surreal.

Vivemos então um paradoxo.

Mais “comprimidos” ficamos, mas, de um jeito ou de outro a violência reaparecerá. E sob diversas formas. Seja a mais cruel ou a mais banal. Seja no prazer de acompanhar o noticiário até a barbárie de resolver pelos próprios punhos.

E essa justiça com as próprias mãos aparece sob diversas formas. Porém, pouco é mais representativo desta sociedade, como se verá em capítulos adiante, do que o que Maffesoli chama de “chorar junto” ou “a força do diabo como fator agregativo” (Maffesoli, 2002: 126). É a multidão em frente à uma delegacia pelo simples desejo de linchar o criminoso, uma vontade de limpar a comunidade de alguém tão impuro. Mas que, na verdade, esconde uma curiosidade, um fascínio.

Aquele é um crime que não os pertence. É apenas uma mancha no paraíso, na sociedade perfeita (Maffesoli, 2002: 32). Uma sociedade que foge da sua parte maldita como num exercício de exorcismo. Matar a morte é a saída: “(…) é a própria morte que é invocada contra a morte” (Durand, 1989: 142). Ou ainda sobre esse coletivo de ódio contra o Mal: “(…) cada fenômeno individual e social provém da ‘essencificação’ de atos, de representações, de sonhos, em que o claro e o obscuro se confundem inextricavelmente” (Ibid: 127).

No meio disso tudo, aqui, está o Serial Killer. Com bagagem grotesca, quase fantasiosa, esse tipo quase surreal de assassino representa o arquétipo desse Mal liberado e, consequentemente, mais poderoso, mais cruel, mais surreal.

Ele é o marco de uma violência mais violenta para cada vez mais combater a si mesma e a se superar.

Notas

[1] http://www.allthingscrimeblog.com/2014/05/11/51-best-disturbing-quotes-from-19-disturbed-serial-killers. Acessado em 16 de março de 2016.

[2] Serial Killer capturado na cidade de Bethesda, Estados Unidos, que, curiosamente segundo a Wikipedia, já foi considerada a ‘cidade mais bem educada do pais’ Pode ser acessado em https://en.wikipedia.org/wiki/Bethesda,_Maryland

[3] “There is a reason we have prisons One of them is to keep people like Hadden Clark far, far away from the rest of usTradução livre. Em http://www.washingtonpostcom/wp-dyn/content/article/2008/03/05/AR2008030503640html . Acessado em 28/12/2015.

[4] Clássica frase de Andy Warhol que proferiu, nos anos 70, que todos teríamos nossos ‘quinze minutos de fama’

[5] http://www.allthingscrimeblog.com/2014/05/11/51-best-disturbing-quotes-from-19-disturbed-serial-killers. Acessado em 16 de março de 2016.

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