Dos Serial Killers — Um ensaio acerca da definição (1/3)

Muito já se escreveu, filmou, falou, cantou sobre assassinos seriais. Ao longo de anos de textos, livros, filmes e canções é comum que, quando se fale em Serial Killers, haja uma associação no imaginário coletivo a figuras como Jack, The Ripper ou a palavras como padrão, repetição, crueldade, maldade, grotesco etc. Pensa-se em algo vindo de forças obscuras, do demônio, do Mal. No que não se pode explicar pelas razões terrenas e pela compreensão do homem.

Porém, aqui, pretende-se um novo approach: deixar claro que o fenómeno dos assassinos em série não pode ser fixado na fantasia e no grotesco. Nosso trabalho intenta trazer para o palco do “real” a discussão sobre a cobertura e identificação dos Serial Killers frente ao público.

É natural que sociedades, sejam elas quais forem, tentem entender fenômenos como os Serial Killers, procurando motivos sobrenaturais ou uma explicação que não lhes pertença para a repugnância e o fascínio por um perfil que não podem enquadrar nas suas "regras".

Só assim se aceitaria o Mal, não como parte deste grupo, mas como um intruso que deve ser eliminado. Esta seria a grande possibilidade deste mal coexistir nos dias de hoje. Para ser negado, perseguido e eliminado como dizem Maffesoli e Baudrillard. Os Serial Killers seriam o arquétipo perfeito do monstro em tempos modernos/pós-modernos.

“É esse o arquétipo do ‘patife’: ele favorece a rebelião pontual, suscita a heresia libertadora, dinamiza a criação artística, permite a marginalidade fundadora” (Maffesoli, 2004, 87).

São assassinos, algo que conhecemos desde Caim e Abel, porém, com características que nos provocam sentimentos como indignação, repugnância e curiosidade. Não se compreende - e não se aceita - o assassino em série. Cria-se uma aura grotesca e, dentro dela cabem o medo, o fascínio, a curiosidade, o ódio, entre tantos outros sentimentos que entram em conflito - criando paradoxos - e que gerariam um novo esquema social.

“Você sente o último sopro de ar saindo do corpo deles.Você está olhando nos olhos deles. Uma pessoa nesta situação é Deus (Ed Gein)[1]

Numa era de “hiperviolência”, não se tratariam de mais assassinatos comuns. Seriam obras com começo, meio e fim. Com plateia, júri e executores.

[1] Em http://www.allthingscrimeblog.com/2014/05/11/51-best-disturbing-quotes-from-19-disturbed-serial-killers.

1. Da expressão

Matar não é um crime. 
 Matar é uma arte. 
 A arte para a qual estamos mais dotados, 
 que temos vindo a aperfeiçoar 
 desde as nossas origens. 
 Requer determinação, planificação, 
 espírito de transgressão, 
 concentração, capacidade técnica, 
 envolvimento emocional. 
 O assassino trabalha com a 
 matéria mais preciosa
 e difícil de manipular: a vida. 
 E, como expressão de 
 radicalidade absoluta,
 cria inflingindo morte.
 Matar é um acto transcendente por excelência.
António Altarriba, “Eu, assassino”.

A complexidade que é tratar de um tema tão abstracto e tão real ao mesmo tempo, como os Serial Killers, se faz notar já quando nos voltamos ao próprio surgimento do termo, confuso e dotado de diversas origens. O que se poderia afirmar, de acordo com Newton, seria que o assassinato serial é muito antigo[1], datando da Roma antiga. Fica claro, porém, que o conceito de Serial Killing e o termo não andaram no mesmo passo ao longo dos tempos. Há muita confusão sobre quem seriam de fato os autores de cada um deles. Cada escritor contemporâneo dá sua versão sobre de onde vieram a expressão Serial Killing e o que lhe dá alcunha.

Sobre a denominação Serial Killer, o que se conta na literatura mais popular e preguiçosa sobre o tema, é que Robert Ressler, antigo investigador do FBI[2], a teria cunhado nos anos 1970, “inspirado em parte ‘pelas aventuras seriais que costumávamos ver aos sábados no cinema’” (Gorender, 2010: 20). No entanto, Ressler teria somente modificado a expressão (Schechter, 2013: 15) serial murderer[3] para Serial Killer e o popularizado, ajudado pela grande repercussão das ações do FBI nos Estados Unidos àquela época em que definiu-se como o grande combatente do Serial Killing, assim como o fizera com os gangsters no anos 1920 (afinal, era preciso um novo inimigo). Em 1928, Guy B. H. Logan usara “assassinato múltiplo” em um estudo de mestrado sobre Jack, The Ripper (Schmid, 2003: pos. 1030).

Em 1929, segundo David Schmid, LC Doutwaite já tentava mostrar as diferenças entre um “assassino em massa” e um “assassino da ‘média’” (Schechter, 2013: pos 1031). Depois, no livro “Murder by Numbers”, de Grierson Dickson, em 1958, teria sido mencionado pela primeira vez o conceito de “séries de assassinatos” (Schechter, 2013: pos 1038).

Ernst Gennat, em 1930, director da polícia de Berlim, Alemanha, seria o primeiro a realmente a usar Serial Killer[4] (em alemão, Serienmörder) para definir um assassino serial no artigo Die Düsseldorfer Sexualverbrechen referindo-se a Fritz Haarmann[5]. Anos depois, em 1961, o filósofo alemão Sigfried Kracauer usaria a expressão “homicida serial” (Kracauer, 2004: 63) na sua crítica ao filme “M”, de Fritz Lang, de 1931[6]: “(ele) se recusa a admitir que seja o homicida em série”[7].

Na língua inglesa, o conceito começaria a ser formulado pouco antes, em 1957, quando o criminologista James Reinhardt teria usado (Newton, 2008: 15) o termo chain killers, para descrever “assassinos cujas vítimas formam uma corrente de morte e tragédia”[8]. Ann Rule[9], biógrafa do seu antigo colega de trabalho Ted Bundy[10], afirmava, já nos anos 1970, que os créditos em inglês do termo Serial Killer seriam de Pierce Brooks, detective da polícia de Los Angeles e criador do sistema de procura de criminosos VICAP[11].

Ainda de acordo com Schmid, Dickson “não foi apenas o primeiro escritor sobre o assunto a reconhecer as dificuldades terminológicas no campo, mas também o primeiro a mencionar o conceito de séries de assassinato”[12]. Ele teria sido ainda o primeiro a criticar a tendência a se misturar conceitos, como “séries de assassinatos”, “homicídio múltiplo” e “homicídios em massa” (Schmid, 2003: pos. 1038), chegando até a criação, mais tarde, de um novo termo em inglês que seria o equivalente em português para “multicídio”[13] que acabou caindo no esquecimento.

O termo “homicida serial” só apareceria (Schmid, 2003: pos 1038–1048) na língua inglesa em 1966, em The Meaning of Murder, de John Brophy, no qual escreve que “contem uma discussão detalhada e notável sobre o homicídio serial que, replicada tantas vezes, se tornaria a definição hegemónica do FBI deste tipo de crime, mas feita anos antes do envolvimento do Bureau no assunto se iniciar”[14].

A expressão, segundo Schmid, seria muito mais persuasivo, pois descreveria o “carácter essencial” (Ibid: 1048) deste tipo de crime, destacando as repetições em intervalos de tempo. Já Schechter afirma que a expressão Serial Killer só teria surgido na literatura criminal em 1981, no artigo Leading the Hunt in Atlanta’s Murders, de M.A. Farber (Schechter, 2013: 15), data que também é atestada pelo Online Etymology Dictionary. Continuando com a confusão, há ainda outros que afirmam[15], como o historiador Peter Vronsky, que o termo “assassinato serial” teria sido usado pela primeira vez no jornal The New York Times[16] somente em 1981, em uma reportagem sobre um Serial Killer de Atlanta, chamado Wayne Williams.

NOTAS

[1] Michael Newton, em Enciclopédia dos Serial Killers, diz: De facto, os primeiros casos registados de assassinato em série envolveram uma envenenadora, Locusta, executada por ordem do imperador romano Galba, 69 dC”. O que vai ao encontro do que aparece em https://en.wikipedia.org/wiki/Locusta

[2] Federal Bureau of Investigations.

[3] Homicida serial”.

[4] Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Ernst_Gennat

[5] Serial Killer alemão que atuou na cidade de Hannover nos anos 1920.

[6] http://www.imdbcom/title/tt0022100/?ref_=fn_al_nm_1a

[7] (He) denies that he is the pursued serial murderer. Tradução livre.

[8] Slayers whose victims form a chain of death and tragedy. Tradução livre.

[9] Em http://everythingexplainedtoday/Serial_killer/

[10] Ann Rule e Ted Bundy trabalharam lado a lado num programa por telefone a auxílio a pessoas com tendências suicidas.

[11] Programa de captura de criminosos violentos, na sigla em inglês. Sistema desenvolvido pelo FBI destinado a recolher e analisar dados referentes a tipos de crimes violentos e fazer o cruzamento de informações. Em https://www.fbi.gov/wanted/vicap

[12] Dickson was not only the first writer on the subject to acknowledge terminological difficulties in the field but also the first to mention the concept of ‘series’ murder. Tradução livre.

[13] Multicide. Tradução livre.

[14] Contained a remarkably detailed discussion of serial murder that replicated in many ways would become the hegemonic FBI of the crime, but did so a full ten years before Bureau involvement. Tradução livre.

[15] Em https://en.wikipedia.org/wiki/Serial_killer

[16] Em http://www.nytimes.com/1981/05/03/magazine/leading-the-hunt-in-atlanta-s-murders.html