Jessica Jones, mais que relacionamentos abusivos

Eu definitivamente não sei ver series. Ou melhor, aprendi de mais com a Jout Jout em como ver séries direitinho. Não tenho maturidade para ver um final de suspense em um episódio e falar Beleza, agora eu vou parar de assistir isso e dormir / comer / trabalhar / etc. Se a serie é boa mesmo vou emendando um episódio no outro compulsivamente. E o netflix tá ficando bom de mais nisso. Aconteceu com Sense8, aconteceu com Jessica Jones.

Sim, tem duas semanas que Jessica Jones estreiou e eu já acabei a série. A história mexeu tanto comigo que li vários e vários textos e críticas sobre a trama. Nenhum falou tudo que eu achei importante falar, por isso, cá estou eu, tentando dar conta do que acho importante destacar.

A história é sobre abuso e suas consequências…

Essa informação tá fácil por aqui na internet. Qualquer texto meia boca sobre Jessica Jones vai falar disso. E se você acha que “o tema não foi bem explorado” é porque provavelmente você nunca viveu uma relação assim (sorte sua) ou nunca conversou com alguém que viveu uma história assim (procure saber, é mais comum do que se imagina). Durante todos os episódios fica claro o medo de Jessica de se relacionar, o quanto a lembrança do ocorrido ainda a assombra e a busca dela em evitar qua outras pessoas também passem pelo que ela passou.

… e mostra que abuso não está necessariamente conectado ao uso da força física.

O super-poder da Jessica é a força e isso não a impede de entrar nesta relação abusiva. O super-poder de Kilgrave, o vilão, é o controle da mente. Ele faz isso por meio de palavras impositivas, mas também usa muito de chantagem emocional. Tão típico. Frases como “se você não fizer o que eu quero, tal coisa vai acontecer” ou “cuidei muito bem de você, agora mereço uma recompensa” ou “se você não me quer é porque você é xxxxxxx [coloque seu xingamento aqui]”

Muitos abusadores muitas vezes não tem noção.

Jessica precisa explicar para Kilgrave que sexo sem consentimento é estupro. Segundo o site bolsa de mulher uma pesquisa aponta que 30% dos homens dizem que forçariam uma mulher a fazer sexo, mas ~apenas~ 13% dizem que estuprariam uma mulher. Ok, que tudo isso deveria ser zero%, masss… a pesquisa mostra como a cultura do estupro é naturalizada e banalizada.

Na serie Kilgrave reclama: Não gosto dessa palavra estupro

Mas a serie fala também sobre poder.

Se você tivesse um super poder, você ajudaria as pessoas? Você usaria ele para manipular os outros e conseguir o que quer? Ou você se esconderia?

Sempre há um limite. E há uma grande diferença entre ser um super herói e ter super poderes. Além disso, o poder pode cegar, levando a uma busca desenfreada por mais e mais poder, fazendo algumas pessoas abrir mão de sua dignidade, com atitudes absurdas.

Ter uma vida sofrida não justifica atos enquanto adulto.

Sim, você pode ter traumas. Sim, pode pode e deve se entristecer com lembranças. Mas você é quem decide o quanto essas memórias vão governar a sua vida. Tanto Jessica, quanto Kilgrave tiveram traumas na infância, mas tem atitudes bem diferentes em relação ao seu poder e a vida. A verdade é que a cada momento, a gente sempre escolhe como agir.

É pop? É.

É Uma parceria Marvel e Netflix. Então é pop sim. As pessoas apanham enlouquecidamente e ganham apenas dois arranhões, é bem verdade. Mas por ser pop traz assuntos tensos de maneira leve, rápida e de fácil digestão. O que acredito ser ótimo.

Jessica Jones é uma ótima metáfora para varias problemas de relacionamento.

Uma pessoa forte, que não se permite ficar triste (porque sempre vai ter alguém pior do que você), que quer protejer todos que ama, que evita se envolver e se abrir para outras pessoas, que quer dar conta de tudo sozinha e “que não precisa da ajuda de ninguém”. Você conhece alguém assim? Chamo isso de síndrome do super-herói.

Visto a carapuça e conheço pelo menos mais uma dezena de pessoas que também vestirão.

Outro personagem, Luke, tem como super-poder a pele impenetrável e não se afeta com nada, nem agulhas, nem queimaduras. Outra ótima metáfora, afinal quantas pessoas por ai dizem não se afetar com nada, não é mesmo?

Além, do outro óbvio estereótipo de pessoa mimada, que quer tudo do jeito dela, manipulando todos ao seu redor. Nosso desesperador vilão, Kilgrave.

Mas a verdade é que se importar faz diferença.

Boa parte dos grandes problemas da Jessica estão ligados ao fato de ela se importar com as pessoas. Inclusive, é desta forma que Kilgrave manipula Jessica muitas vezes. Mas também é isso que “salva” a super-heroína do seu algoz….

mas como isso acontece eu vou deixar vocês descobrirem vendo a serie! ;)