O Caminho até a morte.

Quando eu tinha 10 anos meu pai morreu. Lembro de receber a noticia da minha mãe, por telefone, enquanto estava sentada no sofá da minha tia. Quando desliguei minha tia perguntou algo como “você quer chorar?” e eu não queria. Mas uma voz na minha cabeça gritava “PORRA, LUIZA, SEU PAI MORREU, VOCÊ TEM-QUE CHORAR”. Tentei e não lembro se consegui. Os dias que se seguiram — e os anteriores também, enquanto ele estava doente — são na minha memória uma mistura entre lembranças muito claras, misturadas a uma falta de certeza do que foi real e do que foi imaginado. A verdade é que eu não tava entendendo o que estava acontecendo direito e sentia tudo em suspenso. Naquele ano tinha mudado de escola, naquele ano mudei de casa, bairro, amigos, tudo tinha se transformado.

Quando o meu pai morreu, também morreu um tanto de mim.

E continuei vivendo. Porque durante a vida a gente morre, nasce e continua vivendo várias vezes. Mas pela primeira vez já estava um pouco consciente que a minha vida — e a de todo mundo ao meu redor — também iria acabar algum dia.

Vivenciar o luto tão nova me trouxe muitas consequências. A raiva dos erros médicos. O medo de ser abandonada. O pânico do hospital. A culpa. A dor. O suficiente para me identificar com todos os sintomas apontados nesse post sobre luto infantil. E muitas outras consequências boas e ruins que até hoje — 17 anos depois — ainda se revelam dentro de mim.

Especialmente quando a Vida me faz novamente olhar para tudo isso, me apresentando novas situações que envolvem a morte. Porque não importa quantos lutos uma pessoa viveu, a gente nunca está preparado para perder quem a gente ama, como diz a Sarah Vieira nesse TED com 10 coisas que ela aprendeu sobre o luto.

O luto é o preço que a gente paga por amar. Ele é natural, não é patológico. É uma merda, como dia a Mariane Maciel nesse TED sobre o trabalho dela em tornar o luto menos tabu, mas precisa ser vivenciado e principalmente sentido. E as duas falam bem claramente: cada luto é único, não há prazo, não há tempo, não há sociedade-exageradamente-feliz-de-cultura-do-bola-pra-frente que faça passar mais rápido.

Mas o processo de morte pode ser também uma oportunidade para a redenção, para o perdão, para a conexão. Como diz a Ana Claudia Quintana nesse TED sobre cuidados no fim da vida, é no fim de um livro que uma história faz sentido, é no fim de um filme que as peças se encaixam, é no fim da novela que a gente entende a trama. É no tarot a carta do julgamento, quando a gente pára, olha para traz, analisa o que foi feito, os aprendizados, os rastros e legados deixados, pouco antes do fim.

A gente costuma ter muito medo da morte. Talvez porque é a única certeza que temos nessa Vida. Mas não fazemos nenhuma ideia de onde, quando e como. Não temos também nenhuma certeza do que acontece depois. Paraíso? Inferno? Limbo? Vagamos por aí? Voltamos para cá? Fim total?

É quando estamos claramente sem controle e a mercê de que algo inexplicável aconteça com a gente.

E vamos falar a verdade?

O nome disso é Vida, né?

A gente está sempre sem controle e a mercê de “algo inexplicável”, mas temos o habito de curtir a ilusão de que estamos no controle. A morte vem para dar esse doído lembrete de que diante dela, não tem previsão, não tem preparação, nem planejamento.

O tempo só segue em frente e não faz meia volta.

Um momento presente atrás do outro.

Existe apenas o viver, a trajetória até Ela.

Só existe caminho.

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