Um adeus: Não trocaria minhas samosas por você
Faz 4 anos que eu não sei o que é me apaixonar do jeito que me apaixonei por você. Como uma aura brilhante, você oferecia tudo que eu mais precisava enquanto estava no fundo do poço. Eu poderia brilhar, prosperar e viver ao lado de quem amava.
Mas no fim das contas, eu nunca te amei. Eu amava a figura de salvador que você representava.
Quando se vive em privação de recursos e maus tratos, tudo que você quer é fugir desesperadamente. Esfregar na cara do mundo, “Eu consegui! Um marido milionário e um greencard, na vida que eu escolhi pra mim!”.
Não queremos nós mesmas ir atrás das tais preciosidades, porque isso requer esforço pra quem está cansado de lutar; amor próprio pra quem foi ensinado a se odiar; motivação para quem, se derem um pingo de força de vontade, acabam com a própria vida.
Não, eu nunca poderia te amar. Você faria comentários xenófobos fingindo que os atendentes indianos e paquistaneses do restaurante não entenderiam uma palavra do que você diz (eles entendem). Você seria xenófobo com meu próprio país, pelas razões erradas. Maltrataria os garçons, se recusaria a sentar perto de Ganesha ou Shiva porque seria idolatria. E não comeria, pois não tem o selo kasher.
Viver sem ter que prestar contas a D’us o tempo todo é libertador, e você mesmo sabia disso nas suas escapadas — quem é que sabe o que você fazia quando os rabinos não estavam por perto — e eu abriria mão da minha liberdade e de sorrir, comer as samosas em paz e admirar as imagens do restaurante tão bonito.
Você apontaria o quanto agora estou bonita, que não pareço mais um garoto de 12 anos de idade com o cabelo tão curto. Agora estou bonita, agora valho como boa esposa. Talvez você até iria em frente com o pedido de casamento agora que meu cabelo alcança as minhas costas.
Eu não poderia me empanturrar, elogiar quem me atendeu, ser digna até de um elogio por minha gentileza. Eu não poderia me sentir bem enquanto me atrapalhava para me servir, com tanta comida na mesa. Eu não poderia evitar o constrangimento das palavras duras que eu ouviria.
Eu não te conheço — nunca consegui te conhecer. Não sei suas qualidades, mas sei os seus defeitos.
Não, eu não trocaria uma vida falsa e escrava por minhas samosas e minha própria companhia.
Você teria me arruinado, e pela primeira vez na vida eu agradeço por ter me enganado.
Adeus.
