Re.ti.cen.te

A gente cresce, querendo ou não. Mas quer, sempre quer. E vive querendo crescer, até ser grande. Gente grande, o charme evolutivo da contradição. Abro meus próprios parênteses: É que gente é carne, pele, sangue, riso, dor. Gente é preguiça no domingo. É promessa descumprida na segunda. É uma lágrima metida a besta que insiste em cair num filme brega da Sessão da Tarde. Grande é o indeterminado. O não palpável, ou óbvio, ou estático. É interrogação e reticências. O grande é um alvo bem maior que a gente. Fecha parêntese. Ponto continuação.
Sim, continua. Continuamos crescendo. É a lei. Sem lava-jato nem delação, essa lei não permite esquema. A gente que se encaixe. E por essa lei, meu caro Chico, a gente é obrigado a virar gente. Feliz ou não. Grande ou não. Até porque (e é engraçado isso), quanto mais crescemos, mais entendemos que o tempo e o espaço são um emaranhado infinito e ilógico de possibilidades. E tentar desbravá-lo é ter consciência de que somos fiapo. Ou grão. Coisa pouca mesmo, quase nada.
Mas, ainda assim, crescemos. Subimos ao palco. Pedimos aplausos porque queremos ser grand finale. Spoiler: Sem ponto nem nó, somos mesmo é uma série da Netflix cancelada na metade. Sem epílogo, nem final feliz. Nem final, afinal. Crescemos pra aprender que somos essa eterna dança de reticências, e cada um que escreva a sua pequena história. Assim mesmo, reticente. Com espaço pras interrogações. Pras lacunas que nunca hão de ser preenchidas. Pra que se possa ser gente: feitos de carne, pele, sangue, riso, dor. Pra que se possa entender pequeno e transitivo.
E, mesmo em tamanha pequenez, insistimos em brotar um tanto quanto petulantes. E nos damos a licença poética para ser hipérbole, tão maiores do que de fato somos. O retrato do exagero. Insistimos em plantarmo-nos, estáticos, quando podíamos nos permitir sementes: regáveis, a esse universo infinito e ilógico de possibilidades. Porque crescemos, e cresceremos sempre. Não para sermos grandes. Crescemos para ser imensuráveis.
Ponto final. Ou reticências.
