Sopro de saudade é ventania

Saudade é aquela coisa traiçoeira. Sagaz, se esconde e te deixa pensar que foi embora enquanto, sorrateira, te observa. Observa seus passos, seus sorrisos, suas brechas — ela é especialista em brechas. E, de repente, quando você menos espera, ela salta e dá o bote. Saudade é moça pesada e valente, tem garras que arranham e presas que ferem, e um único golpe pode ser fatal.

Morrer de saudade. Poesia pura. É a rima mais óbvia e contraditória. É a beleza do que passou abraçando a tristeza de já não ser. Saudade é ser lágrima por ter sido tanto sorriso. Saudade é vazio por ter, um dia, se preenchido tanto.

Saudade é um leão selvagem e insubordinado, que vai e volta quando quer. Seu rugido é alto e grave, pra mostrar que o silêncio do esquecimento dói mais que a dor da ausência. Seu golpe, na verdade, não é caça. É abraço. Um abraço forte, desengonçado, que até machuca. Mas, ainda assim, é abraço. É carinho. É lembrança. É presença que preenche o que já não é mais.

No fundo, saudade é o leão que habita em cada um de nós. Cheio de calos e marcas, é bicho forte. Mais forte que bicho homem. É bicho que corre mata afora e carrega tudo do caminho. Carrega tudo e preenche nossos vazios de saudade. É bicho que não se pode matar, ou domar, ou prever.

Mas o Leão é rei e sabe das coisas. E ataca, pra gente não parar de correr. Ataca pra nos fazer lembrar. E abre feridas que só o tempo há de fechar. Até ele atacar de novo. Até, mais uma vez, nos matar de saudade. Para, em meio a essa pequena morte, do outro lado descobrir que morrer de saudade é coisa bonita. É igual a Merthiolate dos tempos de vó, que arde pra fazer sarar. Porque saudade é, na verdade, o jeito que a vida achou de nos lembrar: coisa boa, de verdade, é ter do que sentir saudade.

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