As dificuldades da produção de rock na Região Metropolitana

Fora de Porto Alegre, na Região Metropolitana, entretanto, a cena é diferente. Passeando por Canoas, Esteio, Sapucaia e mesmo São Leopoldo, é difícil encontrar algum bar ou casa noturna aberta para bandas autorais tocarem.

Em Esteio, existe uma movimentação de grupos como o Coletivo Tomada, a Associação de Hip Hop de Esteio e a Parapluie Produtora, que buscam envolver a comunidade em atividades culturais, atraindo públicos de cidades vizinhas e enfrentando obstáculos como a falta de incentivo.

Entrevistei então os dois sócios da Parapluie, Caroline “Cacau” Maciel e Thiago Gonçalves. Thiago se envolveu com a produção cultural através de sua banda, a Catavento de Bolso, onde ele acabava sendo o “comunicador”, divulgando shows e procurando locais para o grupo tocar. Cacau, que é técnica em gestão cultural, buscou experiências dentro da área de elaboração de projetos e logo percebeu a necessidade da gestão dentro da produção cultural. Ela diz que a maior dificuldade da produção de bandas e eventos é fazer com que compreendam que o trabalho cultural é um produto cultural, o qual deve ser distribuído para um público, alcançando uma determinada quantidade de pessoas. A produtora afirma que, para isso acontecer, princípios de gestão e comunicação devem ser adquiridos, então, a banda ou o evento devem “vestir-se” para o público que deseja alcançar.

Cacau e Thiago acreditam que esse contexto de compreensão seja a grande dificuldade para organizar eventos, pois as bandas querem tocar, mas não querem se envolver. Acabam cobrando do público uma atenção que nem elas se propõem a dar ao movimento, à tão falada cena, que é resultado da interação do produto cultural com o consumidor cultural. “As bandas de rock envolvem artistas, mas há uma generalização de pensamento de que o cara tem que apenas tocar, e isso já não é verdade, pois o cara tem que tocar, mas tem que fazer uma aula de técnica vocal ou de seu instrumento, a banda tem que ensaiar, tem que gravar num local bacana, tem que ter um press kit do seu trabalho, um bom release, uma fanpage, preferencialmente um site, tem que saber divulgar aonde toca… ou seja, hoje a banda não é somente chegar e tocar, ela é parte do evento, parte da produção.”

Não há como fugir dessa ligação de produção técnica e realização artística. Cacau declara que existe na região uma ideia de que produzir evento é juntar uma galera e curtir o momento e isso vai gerar e fortalecer uma cena, mas ela só existe quando há sustentabilidade, quando há um retorno para os envolvidos e manutenção do público. Ou seja, quando todos ganham e quando todos se profissionalizam naquilo que se propõem a fazer.

Com experiência em diversos tipos de evento, ela ainda relata que o rock ocupa o espaço underground, o espaço de movimento, “uma espécie de tentativa de se erguer e reinventar”. Já o sertanejo universitário, ocupa o espaço de quantidade e por vezes, de qualidade também.

“Há espaço para o sertanejo universitário acontecer, mais espaço que para o rock. Não porque o sertanejo universitário seja a preferência, mas porque o rock não conseguiu se sustentar nestes anos. Parece que ele parou na década de 90 aqui na nossa região.”

Ela ainda afirma que o rock alcança um público na sua maioria jovem, um público que não é consumidor, e o sertanejo alcança todas as idades e classes sociais com facilidade. “No evento sertanejo ainda rola a tal “balada”, já o de rock, dificilmente se consegue dar uma cara de “festa”, parece que o cara muitas vezes, saiu de casa e foi.” Na Sexta-Feira Cultural do Havana, evento que a Parapluie produziu em 2013, com 10 edições em Esteio, no Espaço Havana Gastronomia, eles tentaram quebrar um pouco essa sensação, tentando passar a mensagem do rock, mas ao mesmo tempo propondo um envolvimento de festa, no qual as pessoas se preparassem de fato com o evento, fossem para ver o rock, o teatro e as bancas de economia criativa e solidária. “Propomos um evento com bandas, mas desconfigurando a ideia underground”, fala a gestora.

A inexistência de gestão, de organização nos eventos de rock e também de profissionalização na formação de bandas de rock é outra dificuldade que, na opinião de Cacau, faz com que, na região, a preferência seja por baladas.

“Se gerou um preconceito aos movimentos independentes, não pelo movimento, mas pela cara que algumas pessoas deram ao se afirmarem como produtores.”

Segundo ela, a generalização fez com que qualquer construção ligada ao rock, movimento ou evento, passe por uma dificuldade de criação e manutenção de público, porque ele já chega desconfiado. “Neste contexto, o underground, que era pra ser um movimento independente, se tornou “negativo”, pois aos olhos do público é evento feito na corrida, sem planejamento, porque de fato é essa a prática apresentada na região, o que faz o rock ser preferência secundária”, alega.

Para entender melhor e descobrir qual é a visão do artista sobre as dificuldades encontradas na cena cultural local, conversei com Pedro de Brito, 19 anos, estudante de jornalismo da Unisinos e guitarrista da banda Defenestrantes, de Sapucaia do Sul. Pedro começou tocando com os amigos lá pela quinta série. Sempre teve interesse por música, mas começou a aprender a tocar violão porque dois amigos começaram aulas de bateria e baixo e o chamaram pra tocar com eles. Sua primeira banda profissional foi a Defenestrantes, em 2010. “Antes, tocava com os amigos mesmo, tinha sempre aquele projeto de “formar uma banda e fazer shows”, mas nunca saíram da garagem”, afirma.

O guitarrista declara que no início tudo é difícil, mas acredita que dois pontos são os mais complicados: o primeiro é o ter material de qualidade pro público ouvir, já que gravação em estúdio ainda é cara, e mesmo com muita gente optando por gravar e produzir o próprio som em casa, não é fácil alcançar uma qualidade muito boa; o segundo são os shows. Conseguir show não é algo tão complicado, diz ele, mas a maioria das casas não tem um sistema de som adequado.

“É muita coisa improvisada, precária. É muito raro tu chegar numa casa de show e encontrar um ambiente com tudo que a banda precisa, retorno pros músicos e etc.. Acho que até por causa disso, é complicado pras bandas mostrarem o melhor delas. Pode ensaiar feito louco, ter um bom repertório, mas se na hora do show o público — e o próprio artista — não conseguir ouvir tudo direito, não adianta”.

Outra dificuldade encontrada é a falta de interesse do público. “O pessoal desembolsa uma grana em show de banda “de rádio” e banda “gringa”, e não quer pagar dez, cinco reais pra ver os artistas locais. Isso é até um pouco desmotivador pra quem faz música, porque pra banda “estourar” ela precisa conseguir público, e se não tem gente nos shows, eles ficam reféns do material que tem na internet.” Ele diz ainda sentir falta do incentivo ao trabalho autoral, que isso acaba levando em conta o papel do público também. “Muita gente não sai de casa pra ouvir uma banda desconhecida e conferir se o trabalho é bom, mas sai pra ouvir um cover de Beatles. E, nesse caso, o dono da casa de show pode dar prioridade aos covers se quiser lucrar. É uma situação complicada. Mesmo assim, a maioria dos programas de calouros que eu vejo conta com artistas apresentando covers, e o pessoal gosta. Parece não haver aquele interesse em ouvir algo diferente, e isso me preocupa. Prefiro mil vezes conferir a banda autoral que é eliminada na primeira semana do que o cantor solo que vence e grava CD com o trabalho dos outros”.

Pedro acredita que ainda há espaço para tudo, que o rock não perdeu espaço com a inserção desses novos estilos, até porque o público é diferente e os próprios locais são diferentes, e ainda afirma que o “rock nunca morre”, mas continua presente em diferentes meios, tanto nas grandes arenas quanto nos pequenos bares, tanto no mainstream quanto no underground. “O pessoal mais “conservador” grita que o rock morreu ao ver essa nova geração, mas a realidade é que ninguém esqueceu dos clássicos. (…) Todos os estilos musicais mudaram, se formos analisar, mas ainda tem muita gente que se inspira nos clássicos. Às vezes eles ficam apagados pelo destaque que a mídia dá pros artistas do rádio, mas estão ali”, conclui o músico.

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