“E quem se julga nata, cuidado para não coalhar”

Em meados de 2015 fui apresentada ao álbum “ Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa” do Emicida. A primeira faixa que escutei - Boa Esperança- já foi um soco no estômago, sem dó nem piedade. Com versos como “O tempero do mar foi lágrima de preto” e “Cura baixa escolaridade com auto de resistência” , as rimas vão tecendo um senhor manifesto contra o racismo sem fazer nenhuma questão de esconder o ódio guardado dentro de quem o sofre. Descontruíndo num golpe só o discurso patético do “somos todos macacos”.

Essa canção mexeu comigo, num grau que eu demorei pra escutar com atenção o resto do álbum. Eu precisava de tempo para ouvir, ouvir, ouvir, ouvir Boa Esperança em loop até conseguir digeri-la. Não pelos versos certeiros mas pela consciência de que eles têm toda razão.

Foi aí que em 18 de dezembro de 2015 que o “Sobre crianças…” me deu um cruzado no queixo ainda pior. Ele veio com “Mandume” executada ao vivo no Teatro do SESC Ginástico no Rio de Janeiro. Eu ouvi ali de pé cada palavra, cada batida do DJ, cada acorde da banda com a maior atenção do mundo. Eu vi aquela menina -a guitarrista, muito bonita e talentosa aliás- crescer de uma maneira a se transformar numa guerreira, numa coisa sobrehumana ao tocar os chocalhos e dançar pulando e pisando forte no palco ao som dos atabaques e da batida do sampler.

No final eu tava no chão, precisava refletir muito.

Eles querem que alguém
Que vem de onde nóiz vem
Seja mais humilde, baixe a cabeça
Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda
Eu quero é que eles se….!

E no CD, ainda tem um poema recitado lindamente por Marcelino Freire que serve de prelúdio para a faixa. Este termina da seguinte forma:

Tá me ouvindo bem?
Ein, ein, ein? Seu branco safado!
Ninguém aqui é escravo de ninguém!

Eu sou branca. Nasci na região mais rica do país, descendente de europeus dos dois lados, tanta cara de gringa que na minha cidade as pessoas me abordam em inglês na rua. Eu estudei em escola particular, três refeições diárias (ou mais de acordo com a vontade de comer, por que fome, fome mesmo eu nunca cheguei nem perto de sentir) com direito a saber desde muito pequena o que era presunto de parma, chocolate Lindt, arroz arbóreo etc. Na minha casa a gente tinha empregada, negra. Sempre respeitamos muito ela e muitas vezes a nossa relação excedeu a de patrão e empregada, mas eu confesso que hoje sinto por ela um mix de gratidão, amor e vergonha de ter sido a sinhazinha mesmo sem ter a consciência de que era.

Eu sou o alvo do Emicida.

Veja bem, alvo. Não vítima. É bem possível que você amigo que acompanhou meu “mimimi” até aqui esteja pensando “Ela vai começar a dizer que o cara exagera, precisa ser menos agressivo, que isso é discurso de ódio”. Esse é o caminho mais óbvio, mas eu vou tentar explicar o que o Emicida fez comigo e já adianto que não foi me ofender.

Caindo na real

Dói ser chamado de branco safado não dói? Em mim doeu. Naquele 18 de dezembro eu não sabia se queria subir no palco e abraçar aquela guitarrista (com todo respeito ao Emicida e sua banda espetacular, ela roubou a cena) ou correr dali o mais rápido possível. Eu sei que não era, mas me sentia a única branca daquele lugar.

Mas eu nunca escravizei ninguém, eu sempre tratei todo mundo bem, eu nunca chamei ninguém de preto safado, macaco ou coisa que o valha e sempre me posicionei contra isso tudo então peraí? Pra que essa agressividade toda?

Foi aí que eu pensei. Imagina só se eu tivesse crescido tendo que fazer faxina na minha casa, não por consciencia, educação, cidadania mas sim por que a minha mãe estava na casa dos outros fazendo a faxina deles e educando os filhos deles e não a mim. Imagina só se eu escutasse todo santo dia que meu cabelo é ruim, que minha religião é demoníaca, que meus ancestrais vieram de uma terra selvagem sem lei, sem história, sem cultura, que eu não conhecesse umx grande pensadorx, escritorx, ator, atriz enfim…uma pessoa formadora de opinião sequer que viesse de onde eu vim ao passo que quase todo mundo que está à margem da sociedade é incrivelmente parecido comigo. A ponto da polícia me parar por que eu tenho “cara de bandido”. Imagina só se o taxista (quando parasse pra mim) me dissesse que na minha casa ele não vai não por que é área de risco, se na entrevista de emprego eu não passasse por que não tenho “perfil da vaga”. Enfim… imagina só ser preto no Brasil .

E agora imagina que um belo dia, depois de passar a vida inteira sendo diminuída de todas as maneiras possíveis, viesse alguém pra mim e falasse “Menina, isso daí que falam de você é tudo mentira. Você existe tanto quanto qualquer um e tão tentando te tirar isso faz mais de 500 anos ”. 
Eu ia ficar possessa. Absolutamente revoltada.

E foi aí que um verso de “Mandume” cantado por Drik Barbosa fez todo sentido : “Se os outros é de tirar o chapéu, nóiz é de arrancar cabeça”. Se eu estivesse lá… seriam decapitações em série. E eu não estou sozinha, a gente vê branco revoltado todo dia por muito menos. Alguns com toda razão outros presos em devaneios direitistas que para mim só se explicam pra quem acredita em carma de vidas passadas.

Mas preto não. Preto tem que “ser mais humilde, abaixar a cabeça e fingir que esqueceu a coisa toda”. E deixar que o branco resolva o problema dele por ele e decida o que é racismo , o que não é e o que tem que ser feito a respeito disso.

Já está mais do que provado que essa história de “o Brasil não é um país racista” é menos plausível do que aquela que você contou pra sua mãe sobre estar com conjuntivite quando fumou seu primeiro baseado. E faz ainda menos sentido dizer que a foto do menininho branco abraçando o menininho negro com a legenda “Se você não é racista compartilhe” no Facebook adianta pra alguma coisa. A única coisa que sempre adiantou para acabar com opressão foi o oprimido se levantar e tomar a voz para si. E de preferência se levantar com o pé na porta.

Mas e branco? Não sofre?

Obviamente que o show e o album do Emicida não foram as primeiras vezes que o racismo ou a luta contra ele se mostraram pra mim. Já faz tempo que eu venho problematizando esse assunto internamente. E com o tempo a gente começa a sentir culpa, vergonha e até um certo medo de falar do assunto. Afinal de contas eu não sofro, nunca sofri e dificilmente vou sofrer racismo na minha vida. Querendo ou não eu sou parte do grupo opressor e última coisa que eu quero é protagonizar a o movimento. Nessa luta eu faço parte do pelotão de trás que fica dando apoio a quem realmente vai resolver a treta e tenho total consciência disso.

Com o medo e a culpa vem o questionamento : Mas peraí.. eu também já sofri pra caramba nessa vida e não sou negra. 
De fato eu poderia argumentar que também já acordei muito de madrugada e me espremi no busão pelo engarrafamento da Avenida Brasil, que já cheguei a ter 5 empregos para poder tirar um salário decente, que sou oprimida pelo machismo, pelos padrões de beleza irreais da nossa sociedade. Que meus avós fugiram da fome e da guerra, que para me dar as oportunidades que eu tive meus pais tiveram que trabalhar muito e fazer alguns sacrifícios.

Isso tudo ta aí e é verdade. Mas eu nunca tive a cor da minha pele como obstáculo. Eu conheço muito bem minhas origens posso falar delas com orgulho sem o menor medo de ser agredida em qualquer ambiente. Meu avô vem da terra de Pessoa e Camões. Minha avó vem da Suíça, aquele paisinho ridiculamente pequeno na Europa de onde saem os melhores chocolates, os melhores relógios, os melhores queijos, a melhor qualidade de vida, o dinheiro mais caro, as pessoas mais bonitas…enfim, lá de onde ela vem não tem nada de ruim (mas por que ela saiu de lá então mesmo?).

Mas e na África? Esse continente enorme e diverso onde nasceu a humanidade mas que a gente insiste em tratar como se fosse um único país. Na África tem fome, tem guerra, tem poluição, tem seca, tem terrorista, tem Ebola, febre amarela, AIDS, doença do sono, varíola. E gente? Tem na África?

Meus avós vieram pro Brasil voluntariamente em busca de uma vida melhor que de fato encontraram. O Brasil deu aos meus avós a chance de viver longe da Europa que (pasmem!) não era um lugar bacana de se viver. Eles nunca foram escravizados.

Resumindo : branco tem problema sim. E tem todo o direito de lutar para resolve-los, aliás se tem uma coisa que não falta pra branco é voz. O que a gente não pode é esquecer que a vida de pobre branco é menos difícil que a vida de pobre preto assim como a vida dos poucos ricos pretos também é menos fácil do que a dos ricos brancos. Todas as cruzes que todos nós temos que carregar ficam mais pesadas se você for negro. E já passou da hora de nós admitirmos que temos essa dívida para pagar, mas ao invés disso continuamos fazendo a dívida crescer. O problema é que os credores já estão perdendo a paciência, vêm aí para cobra-la e estão e seu pleno direito.

O dia que o racismo não gritar na nossa cara a cada minuto. Que jovens negros não forem metralhados por policiais só — e exclusivamente só — por que são jovens negros. Que a esmagadora maioria dos marginalizados não seja de uma única cor. Que a gente tenha o mesmo número de personalidades veneradas negras e brancas, que as celebrações do candomblé sejam aceitas que nem são o Natal e Páscoa, que as escolas discutam a África, os Panteras Negras, o Haiti, Zumbi, Clementina de Jesus etc. como a parte que são da história do mundo e não como meras notas de rodapé (quando isso). Aí sim poderemos dizer “Mano peraí, vai com calma… que agressividade é esssa?”. Por enquanto — e eu digo isso por experiência própria — aceita que dói menos.

Ao Emicida, à moça guitarrista e a tantos outros que me ajudaram a cair de cara no chão, eu gostaria de agradecer pelos cruzados no queixo. A um sem-fim de gente que sofre ainda com os grilhões da nossa sociedade eu gostaria de pedir desculpas, dizer que vocês estão certos e que eu apoio, dentro do que me cabe fazer para apoiar, que essas cabeças sejam cortadas.

Aos que ainda acham que “mas o próprios negros também praticam racismo contra branco”. Eu sugiro que vocês reflitam um pouco mais. E que se não mudarem de opinão não repitam isso em voz alta… pega mal.

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