Um textão sobre o textão.

Um manifesto a favor do direito de ser a amiga chata.

Confesso: eu sou adepta do textão.

Eu era aquela criança mala que perguntava o por que de tudo, contestava praticamente todas as ordens dos meus pais . Mantenho diários desde que comecei a escrever e, com algumas exceções de momentos sentimentais, eles sempre contam meus descontentamentos com o mundo.
Resumindo, eu sou dois tipos de chata da internet: A escritora de textão e a diferentona cool before it was cool.

O bom de assumir seus defeitos publicamente é que você fica livre pra continuar sendo defeituosa em paz. Então, do alto de minha petulância de escritora vanguardista de textões est. 1998, eu resolvi escrever um textão-manifesto em defesa do textão.

Se você ainda não sabe é bom saber logo: eu sou de esquerda e eu sou de humanas. Meu esporte preferido é futebol, mas seguido bem de perto por desconstrução de paradigmas, assim que o que não me falta nessa vida é motivo pra reclamar. Mas principalmente vontade de reclamar ou vontade de mudar o que não me parece correto.

Outro dia eu ouvi de uma grande amiga que eu não fazia nada de útil pra mudar o mundo, só textão no Facebook. Na hora eu tive varias respostas para dar pra ela dentre as quais destaco :

1. É mentira, eu faço sim, muito mais que você aliás.

2. Eu não faço textão só no Facebook. Eu escrevo no Medium também. Isso por que você ainda não viu minhas tretas no grupo de Whatsapp da familia.

3. E o seu textão sobre como você ficou indignada com o tratamento ruim que te deram no restaurante? Ou como você odeia aquela famosa apresentadora de TV que troca bacon por churrasco de melancia?

Mas todas essas respostas só nos levariam a acabar com uma agradável noite na qual eu estava revendo grandes amigos que não via havia bastante tempo por morar fora do Brasil

Resultado: Eu fui pra casa com essa amiga entalada na garganta. Queria mostrar pra ela o poder do textão. E por isso estou aqui numa sexta feira a noite na frente do computador escrevendo algo que muito provavelmente ninguém, além da minha mãe, vai ler. Beijo mãe.

Aos 15 anos eu era dessas que se sentia revoltada com vida ouvindo Slipknot trancada no quarto por que não tinha um Ipod, só um Mp3/Pen-Drive da Phillips . Estudei em um colégio bastante conservador e caro, meus pais assistiam o Jornal Nacional e liam a Veja (já falei que isso é vacilo pra minha mãe mas ela ainda não largou esse hábito, ainda te amo mesmo assim mãe) . Eu já fui uma adolescente que dizia que cotas raciais eram preconceito invertido e que o mundo hoje em dia é muito chato, não se pode nem mais fazer piada. Isso tudo ficou pra trás (menos o Slipknot) e sabe quem foi que me salvou de ser uma completa imbecil? Isso mesmo! O textão! 
Não apenas os textões lidos, e ouvidos como também os escritos por mim. O hábito de escrever sobre minhas inquietudes me forçou a ser uma pessoa que estava em constante reflexão. O comentários, por vezes pesados, que recebo sobre o que eu escrevo me ajudaram a mudar de opinião.

Óbvio que não foi fácil, tampouco está acabado. A evolução é um processo contínuo e interminável. A gente precisa entender que vive em um mundo em constante e rápida transformação e que não somos donos da verdade.

O gigantesco fluxo de informações que nos atinge todos os dias deixa qualquer um perdido no mundo, é difícil definir o que achar e isso faz com que muitas pessoas se fechem em uma maneira única de pensamento (sabe aquele clássico: “é a minha opinião e você tem que respeitar”?) ou ainda optem pela alienação.

Quando você escreve o que pensa, as ideias ficam mais claras na cabeça. A idéia é que a escrita exija mais reflexão do que a fala (apesar de isso não ser totalmente verdadeiro ultimamente). Mas principalmente quando você publica o que escreveu, aquele texto já não te pertence, ele é parte da sociedade e está aí para ser analisado, comentado, compartilhado, curtido, amado, odiado, viralizado ou ignorado por quem quiser.

Aí é que entra a magia: lendo e escrevendo textões eu já (além de fazer e desfazer muitas amizades) resolvi muitas questões que teria levado anos de terapia. Textões feministas que me ensinaram que eu nao preciso vestir 38 para ser bonita nem encontrar um namorado para ser feliz, textões anti-racistas que me fizeram ver que eu EU (veja só) era racista e precisava mudar urgentemente, textões socialistas que me fizeram ver que a VEJA, a Globo, a Folha e a grande mídia em geral mentiram pra mim por aí uns 10 anos da minha vida. Enfim , hoje eu sou muito mais feliz e bem resolvida por conta do textão .

Eu sou professora. E vejo meus alunos arrasando no textão nas redes sociais. Vejo meninas super conscientes e empoderadas e meninos que seguem com elas como apoiadores na luta (que ELAS protagonizam, deixando bem claro) por uma sociedade mais igualitária. Vejo escolas sendo ocupadas por alunos descontentes com a situação da educação no país. Na minha época (que velha meu deus) , ser politizado estava fora de moda. Reclamar era chato. Mas, para os adolescentes de hoje, é a coisa mais hype que tem. Eu sou da geração que cresceu ouvindo que “esses jovens de hoje, só querem saber de televisão e Orkut (sim, Orkut)”, eles são da geração que quer mudar o mundo em que vivem. E vão. E já estão mudando.

Em 1964 o textão era escrito em máquina de escrever e distribuído na base do mimeógrafo. Resumindo: só circulava entre gente que não precisava ler aquilo, já sabia de tudo. Resultado : o golpe funcionou.

Hoje o textão pode ser publicado em minutos e compartilhado entre milhares de pessoas ainda mais rápido. Quer você queira ou não amiguis, o textão viralizou. É por conta do textão que eu acredito que, dessa vez, não voltaremos ao mesmo lugar que estivemos nos anos 60, por mais que as forças maiores queiram. Por conta do textão várias propagandas machistas deram errado e obrigaram empresas a se retratar, por conta do textão a população negra está se conscientizando cada dia mais e assumindo seus cabelos naturais, suas religiões, se orgulhando de ser quem são e ganhando força (ainda que falte muito) na luta para serem finalmente iguais, por conta do textão a Kesha pode dar visibilidade ao seu estupro (coisa que a Marilyn Monroe, por exemplo, não pode fazer) e inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo. Enfim, por conta do textão e principalmente por quem escreve , quem lê e quem reflete sobre o textão. O mundo está vagarosamente se tornando um lugar melhor.

Sendo assim, da próxima vez que você quiser reclamar do meu textão no Facebook por ele ser coisa de gente chata, adiante o seu lado e o meu e não o faça. Isso só vai me fazer te responder com um comentário-textão ou com um inbox-textão em defesa do textão. Eu continuarei aqui com a minha verborragia por que realmente acredito que ela muda o mundo.

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