Les Demoiselles Cahen d’Anvers – Rose et Bleue
[Renoir, Auguste-Pierre. Acervo do MASP, São Paulo.]
Uma brecha qualquer que se abria na vida de Astrid servia apenas para um fim: viajar. O destino da vez era São Paulo, Brasil. Teria dois dias apenas para aproveitar a arte daquela rica cidade, e depois regressar à Londres.
Milhares de museus que ela poderia visitar, mas o primeiro – e mais óbvio – que visitou foi o MASP. Obras de Rafael, Delacroix, Monet, e mais, enriqueciam o seu valioso acervo.
Astrid caminha pelos corredores com paredes cheias de quadros suntuosos para a arte, até que se depara com um quadro que “marcou” a sua infância. Rosa e Azul. A famosa pintura que retratava as duas irmãs de mãos dadas, uma de rosa, e a outra de azul. Não resistiu, aquela era uma ocasião única na sua vida. Olhou para os lados, para ver se não tinha ninguém a olhando, e com os dedos, deu um toque no quadro, e literalmente entrou na pintura.
Era como mudar o canal da TV, Astrid sumiu do museu, e instantaneamente reapareceu na Avenue Montaigne, Paris. E como ela fez isso? Aquilo tudo era o resultado de uma infecção que teve no hospital quando recém-nascida, que fez com que ela gerasse essa curiosa habilidade. Mas era segredo, nem sua mãe sabia.
Caminhou até parar na casa de número 66, pois pressentiu que ali era o lugar certo. Bateu na porta, e logo uma mulher, que devia ser uma criada, apareceu e a convidou para entrar.
– Você deve ser a nova babá. Esta atrasada, minha jovem. E da próxima vez, entre pelos fundos. – Disse a mulher que se identificou como Ophelia. Astrid a seguiu, mesmo não sendo a tal babá. As duas foram até um cômodo bem iluminado, que parecia um estúdio. Ophelia ajeitou algumas cadeiras, ao mesmo tempo que explicava.
– Pierre chegará logo. Não será necessário que arrume Irene. Apenas apronte Elisabeth e Alice. O quarto delas fixa no fim do corredor. Agora vá!
– Sim, madame. – Astrid sortiu e foi até o quarto. Duas meninas se penteavam, uma loira e uma morena. A loira mostrou-se indiferente com a sua presença, mas a morena logo correu até ela e se apresentou.
– Olá, madame! Me chamo Elisabeth Cahen d’Anvers, e você deve ser a nossa nova babá. É um prazer tê-la conosco. Ah, e aquela é a minha irmã, Alice. – Disse Elisabeth apontando para a irmã, que estava concentrada se aprontando.
– O prazer é meu, Elisabeth! – Respondeu, sorrindo. – Me chamo Astrid, e soube que hoje farão uma pintura de vocês. Já decidiram suas roupas?
– Sim! Não é o máximo! As meninas do quarteirão morrerão de inveja! Alice usará Rosa, já eu estou em dúvida entre o azul e o lavanda.
– O azul! – Disse Astrid desesperada. – Quer dizer, o azul ficará uma graça em você. Use ele!
Elisabeth sorriu, e com a ajuda de Astrid se trocou. Alice se trocou sozinha. Minutos depois, já prontas e com fitas em seus cabelos, as meninas e a babá vão até o estúdio. Renoir conversava com o senhor Cahen d’Anvers, e assim que as viu chegar, se animou e mandou que Astrid as arrumasse.
– Certo meninas, quero que fiquem aqui sem se mexer. Elisabeth fique à esquerda. E deem as mãos. – Elas obedecem, e ela sai de cena.
O pintor começa a esboça-las na tela, quando de repente Ophelia arranca Astrid do estudo pelo braço para o corredor. Lá, estava a verdadeira babá nova, Gioconda.
– Impostora! Eu sou a nova babá! Quem diabos é você, sua aproveitadorazinha de meia tigela! – Acusou a mulher.
– Sua substituta. Você se atrasou, esqueceu? Alguém tinha que fazer o trabalho aqui. E agora que está aqui, eu vou embora. – Astrid se virou e saiu andando, sem deixar que dessem uma resposta.
Foi até a sacada mais próxima, e arrancou um fio de cabelo de sua cabeça, e o jogou no chão. Isso fez com que imediatamente ela voltasse ao presente. Lá estava ela, de volta ao museu, no século XXI, felicíssima com as suas lembranças. Será que sua professora do jardim de infância acreditaria que ela colaborou para que o quadro de uma das suas atividades fosse feito?