Claridades.

Viver é cíclico. Não só porque a vida biológica é cíclica mesmo – uma maquininha e seus mil e um compartimentos trabalhando sem parar – mas porque todos os aspectos da vida são intrinsicamente tendentes ao looping.
Digo isso porque é muito difícil que as coisas que mais marcam a gente sejam começo-meio-fim e só.
E é plenamente normal que determinadas circunstâncias, pessoas ou sentimentos revisitem a gente. E tudo bem.
Eu entendo quem grita para os quatros cantos do mundo, com toda força na garganta, que “nunca mais”. Eu mesma já falei essas duas palavrinhas muitas e muitas vezes. E com muita verdade no falar.
Mas é que o “mais uma vez” é muito teimoso com a gente. E uma hora ou outra ele aparece.
São esses ciclos que perturbam a gente. Porque são desordem. Você vai lá, põe um ponto final, tranca a porta e joga a chave fora. Nunca mais.
Depois é chegada a hora de arrumar a bagunça. Limpando todos os cantos no nosso corpo-casa, pendurando quadros com avisos do tipo “não foi tão bom assim, você lembra aquela vez que -” nas paredes da nossa mente, colocando na porta do coração aquele tapete escrito “por favor, não volte mais”.
A gente coloca as lágrimas para secar no varal, limpa a garganta, desfaz o outro da nossa pele. Seguir adiante. Cíclico.
Até o outro ignorar por completo todos os avisos e resolver tocar a campainha e dizer “posso entrar” e você responder com um “sim, mas não tenho muito tempo” e a arrumação vai toda para a casa do caralho.
Cíclico.
E tudo bem.
Mas posso dizer? É a sequência de ordem-desordem que faz a gente. Porque é nesse processo de arrumação e desarrumação que se aprende o que se filtra e o que se descarta.
Já pensou no tanto de coisa que já lhe foi muito valiosa e hoje em dia tá ali esquecida no canto do armário?
É isso aí que acontece dentro da gente também.
A conclusão que eu quero chegar é que deixar ir também envolve deixar voltar. Enquanto as coisas ficam no passado do nosso imaginário, romantizadas pela falta, elas podem doer demais. Aquele negócio que você não sabe onde enfiar, mas que não consegue jogar fora.
Quando as coisas voltam – e voltam – é uma oportunidade de encarar o outro de um outro jeito.
É poder olhar pelas lentes de quem você se tornou, e não de quem você foi, e perceber que determinadas coisas podem ter sido muito bonitas antes. Mas é no antes que elas devem ficar.
Porque as coisas são, mas eu também sou: cíclica.
