Nada do que eu fui me veste agora.
Fêmea feroz.
A mulher que sou exigiu muito da menina que eu fui.
Nasci líder nata. Uma pequena criaturinha dona do seu próprio destino. Voz estridente, rosnado de bicho, abelha-rainha.
Mas o mundo era muito mais do que minha colmeia.
Em algum momento do processo de crescer – e me tornar mulher – minhas asas espevitadas foram tiradas das minhas costas.
Existe algo de completamente opressor em ser adolescente. Pressões estéticas por todos os lados, o por-que-você-não-faz-uma-dieta, os cabelos lisos. Tem algo completamente inadequado em você quando ninguém te acha bonita na escola.
Eu tinha vergonha de viver quando tinha uns doze anos. Podando quem eu era por querer ser invisível. Existe algo de perturbador em não se sentir confortável na sua própria imagem.
E eu queria endereçar esse texto para o meu eu de antigamente.
A vida vai te sacudir demais. Ainda bem.
Duas ou três paixões mal curadas. Os pequenos e diários fins-de-mundo e as lágrimas derramadas em colo de mãe. As inúmeras tentativas de se adequar às expectativas nascidas de padrões irreais.
Até me tornar a mulher que hoje me veste.
Existe algo de grandioso em perceber que a gente não é mais quem era. Eu não sou a mesma que fui ano passado. Nem serei a mesma ano que vem.
O processo de morar dentro da nossa carne é sempre interminável.
E há muito caminho a se percorrer ainda.
Mas é gostosa a sensação de olhar para trás. Perceber que muita coisa mudou, muita coisa nasceu, muita coisa sumiu e reapareceu. Muita coisa perdeu o significado, muita coisa ganhou significado, muita coisa ressignificou.
É um tanto arrebatador encarar essas sutis – e paradoxalmente tão intensas – mudanças.
É olhar para o passado e perceber que tudo que tinha que ter ficado lá, ficou.
E que tudo que tem que estar aqui, está.
E que o que tiver que vir, inevitavelmente virá.
Tem muito sentimento quando se decide ficar.
Mas tem muita magia quando se decide ir.
