A armadilha da produtividade

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Durante a faculdade eu participei de um grupo de pesquisa que fazia reuniões toda sexta-feira, mesmo sem eu ver motivo para isso. Não existia ata preparada e as reuniões chegavam a durar horas de pessoas falando sobre assuntos aleatórios, nem sempre relacionados à pesquisa. Eu e outro colega (também obcecado por organização) trabalhamos duro nos dois anos seguintes para aperfeiçoar o processo de reuniões. Criamos limite de tempo e de assunto, começamos a fazer uma lista prévia dos tópicos a serem tratados e a enviar a ata da reunião por e-mail com o que foi discutido. Foi uma revolução que deu certo.

Anos depois, na primeira ONG em que fui voluntária, o pesadelo das reuniões desorganizadas voltou para me assombrar, e mais uma vez eu me vi presa em reuniões quase que sem sentido. Boa parte delas começava com atraso, não tínhamos um plano a seguir, as pessoas falavam o que queriam (relacionado ao tópico ou não), quando queriam (mesmo no meio da frase de outra pessoa), e as reuniões duravam cerca de 3 horas.

Mas antes que eu perdesse o juízo, percebi algo: reuniões são, obviamente, espaços de discussão do trabalho que está sendo feito, mas elas também são um momento compartilhado entre seres humanos. Elas têm o potencial de ser um momento de conexão, construção e desenvolvimento de relacionamentos. E se você parar pra pensar, quanto mais forte seu relacionamento com um colega de trabalho, mais produtivos vocês serão. Você vai aprender como falar com eles, como eles pensam e reagem, e o trabalho vai fluir mais facilmente.

Nos dois casos, as pessoas presentes nas reuniões, apesar de trabalharem juntas nesses grupos, não passavam o resto da semana juntos. E eu falhei ao não perceber que as reuniões também eram momentos de reencontro. Não me levem a mal, eu não desisti da produtividade! Nós passamos a ter atas prévias e posteriores, e começamos a nos conscientizar e perceber quando a conversa se distanciava demais do tópico. E eu continuei interrompendo para dizer “sim, mas voltando ao assunto…”, mas isso aconteceu menos do que eu pretendia, e me incomodou bem menos do que eu esperava.

Da primeira vez, eu perdi a chance de deixar as pessoas se conectarem de uma forma mais profunda do que reuniões de trabalho normalmente permitem. Da segunda vez, fiz meu melhor para lutar contra meus instintos e até fiquei calada durante uma explicação muito longa sobre como cozinhar feijão. Eu acredito em produtividade e tento trazer isso para tudo o que eu faço, mas estou começando a aprender que o oposto de produtividade não é desperdício. É uma chance de se conhecer, de se conectar e de aprender com os outros. E não seria esse o motivo de estarmos num planeta com bilhões de outras pessoas?


Editado por Rafaella Küper Nóbrega.

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