Mais amor, por favor

Não sei se sempre foi assim, se começou recentemente, ou se foi a minha percepção que mudou. Mas tem algo que tem me incomodado — e muito — desde a época pré-impeachment: as pessoas não sabem conversar. Na verdade, não é nem conversar. As pessoas não sabem defender seus pontos de vista sem atacar.

“A melhor defesa é o ataque” é uma das frases que mais me incomodou durante minha vida inteira. Não entendo — sob hipótese nenhuma — a necessidade de atacar algo ou alguém. Não existe desculpa nem motivo para isso. Nunca existe desculpa nem motivo para isso.

Desde o dito-cujo fenômeno na política brasileira, vejo “coxinhas” e “petralhas” se atacando com tamanha força e voracidade que, no final das contas, fiquei sem entender a diferença entre eles, além de usarem cores diferentes. Ficaram dois grupos, gritando as mesmas coisas, só que ao contrário. Como duas forças iguais e opostas. O problema é que nessa gritaria, ninguém se entende e todo mundo se agride.

Eu acredito em duas coisas:

  1. Algumas pessoas simplesmente não estão prontas para reverem seus conceitos. Às vezes, elas apenas ainda não cultivaram a profundidade necessária para caber novas informações ali dentro. E lhes dou um exemplo bem simples. Meu avô paterno é Espírita. E não é qualquer Espírita. Ele é um grande estudioso e palestrante do espiritismo, com uma carga intelectual imensa sobre o assunto. Eu nunca estudei nenhuma religião, mal sei rezar o Pai Nosso. Numa palestra sobre religião, pode ter certeza que ele vai absorver muito mais, obter entendimentos e criar reflexões mais profundas do que eu, simplesmente porque ele já tem uma bagagem que eu não tenho e é capaz de fazer associações que eu ainda não sou capaz de fazer.
  2. Ao se sentirem atacadas, as pessoas atacam, desconsiderando a razão. Acredito que é isso que Sun Tzu quis dizer ao afirmar: “quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele, caso contrário, ele lutará até a morte”. Me lembro de tantas discussões em que eu sabia que estava errada, mas não conseguia parar de arrumar desculpas ou reclamar. Queria ter razão, queria ganhar a briga e queria não me ferir com o ataque do outro. O meio de uma briga não é o momento de tentar convencer o outro.

Isso quer dizer que não devemos nem tentar mudar o (pré)conceito do outro? Não. Mas precisamos fazer isso com (e por) amor. Discutir com amor e com razão é o que pode mudar as coisas. É chamar pra uma conversa privada. É falar “me explica?”. É dizer um “posso te contar porque eu penso assim?”. É não culpar, não jogar na cara, não xingar, não minimizar. Como o Pastor Dewey Smith fala nesse vídeo, “você não pode insultar e inspirar a mesma pessoa que você acabou de ofender”.

É também saber quando não dá pra dialogar e tentar um “que tal se a gente conversar depois, quando estivermos mais calmos?”. É entender que cada ser humano teve um trajeto único na vida, e por isso tem uma forma única de fazer conexões. É entender como a conexão é feita e tentar cortar o mal pela raiz.

Vou dar mais um exemplo pessoal: minha avó por parte de mãe. Meu avô era militar e foi contra a ditadura, por isso foi preso e minha avó teve que se virar para cuidar de 3 crianças pequenas sozinha, e com o marido na prisão. Se tivesse sido comigo, eu provavelmente seria a pessoa mais esquerdista que esse país já viu, mas, para minha honesta surpresa, ela é de direita. Não entendeu? Pois é, eu também demorei muitos anos pra entender (e aceitar). A linha de pensamento é a seguinte: “ser de esquerda fez ele ser preso e me fez passar por tamanho sofrimento, então ser de esquerda é um problema”. Repito: cada ser humano tem uma forma única de fazer conexões. Nosso papel é entender isso.

Quero completar meu ponto com mais uma fonte: o Instituto Avon fez um pesquisa super interessante em 2016 sobre O Papel do Homem na Desconstrução do Machismo. A pesquisa toda vale a pena ser lida, mas nesse momento quero trazer dois dados em especial:

É uma pesquisa específica? Sim. É sobre um tema específico? Sim. Mas também reflete como funciona o ser humano e quais são as verdadeiras formas que geram transformação. Temos sim a capacidade de nos conectar com outros seres e, pra ser sincera, todos estamos bem interessados em ter conexões cada vez mais profundas e com mais significado. Mas para essas conexões poderem acontecer, precisamos abaixar nossas armas e parar de ver o outro como um inimigo. Precisamos parar de gritar nosso monólogo e aprender a ter diálogos.

Antes de partir, mais um recurso: esse TED Talk de Megan Phelps-Roper nos ensina como essa mudança pode ser feita:

Editado por Rafaella Küper Nóbrega.

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