Autoflagelação

Pintura em processo

[1, 2, pausa, 4, pausa. respira. 3, 4, engasga.]

Escuto muito sobre as sensações que causam minha pintura, sei do quanto é importante o lance da fruição na arte contemporânea. Em todas as vezes escuto a palavra “pesado” com outras que parecem equilibrar a frase. Sou desafiada a explicar minha pintura e o que quero dizer com isso, tento alertar para os signos e espero que eles ajudem o expectador a esquecer as partes chocantes. Não tenho certeza se quero que esqueçam mesmo, mas agora sim.

Em 2016, foram esperados 57.960 novos casos de câncer de mama, 16.340 para novos casos de câncer do colo de útero e 6.150 para câncer no ovário. O mais sensível é compreender que não tenho uma pintura surreal, como também escuto. Não preciso imaginar mulheres que não existem, meus personagens são pessoas de verdades.

Compreendo também quando um homem olha para a minha pintura e diz não entender, racionaliza com pinturas da Frida Kahlo e eu não me calo. É um vicio da mente a tentativa de compatibilizar o reconhecível com o desconhecido. Não os culpo.

Tento mostrar a sensualidade em cada corpo que pinto, digo que são autorretratos de cicatrizes expostas invisíveis que tenho dentro de mim, e eles não entendem. Amei pessoas e machuquei meu coração, cicatriz no peito. Saí na rua e sofri assédio, cicatriz no útero. Senti meu corpo mudar, fiquei insatisfeita e estiquei a pele da barriga. Fui mulher que usa sutiã porque escutou por anos que o não uso faz o peito cair, que caia. Escuto que minhas mulheres nuas não são tão boas quanto as pinturas do Fulano, que essas são maravilhosas e têm todas as partes do corpo.

Tinta óleo sobre autoflagelação, sim.

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