Não, foram vocês…

Durante a ocupação nazista de Paris eram comum soldados alemães fazerem diligências na casa e no ateliê de Picasso semanalmente, afinal, por volta dessa época ele já era conhecido em todo o mundo, gozava de grande prestígio e fazia questão de manter as portas abertas para vários artistas, escritores, dramaturgos e poetas de esquerda, muitos deles simpatizantes da resistência. Gide, Matisse, Breton e outros intelectuais preferiram fugir de Paris e muito naturalmente pensadores mais jovens nessa época como Sartre, Simone de Beauvoir, Malraux e outros que mais tarde iriam assumir o lugar deixado por eles, passaram a ver em Picasso um quase líder.

As visitas eram tantas que a certa altura ele mandou imprimir postais de uma de suas obras primas mais conhecidas: Guernica, e com eles passou a receber os soldados à porta. Como se sabe, essa obra retrata o horror da guerra civil espanhola ou mais precisamente, da destruição da pequena cidade de Guernica pela força aérea alemã que apoiva o general Franco. Muitas vezes os soldados, com o postal em mãos, perguntavam com desdém: “O Sr. fez isso?” ao que ele respondia…. “Não, foram vocês.”

Não apenas agora, mas principalmente em tempos onde há grande ebulição de ideias e os debates se tornam acalorados demais é fundamental lembrar dessa história sobre Picasso e agir com bom senso, sensatez e inteligência para não tornar-se mais um a engrossar a já tão extensa fila dos bobos. Poucas palavras bem colocadas valem bem mais que um discurso inteiro, principalmente se ele for recheado de bobagens e, ainda que muitos não lhe compreendam, lembre-se que este é o preço a se pagar por ser inteligente entre um bando de iletrados, o que em nada diminui sua autêntica contribuição pois certamente ela irá tocar as pessoas certas e produzirá os seus efeitos, não tenho nenhuma dúvida disso.

Portanto, bora pensar um pouco mais, focar e fazer coisas que realmente importam para mudar o nosso país. Falar menos, fazer mais. Lembrar do que fez Picasso e foi tão importante para uma geração inteira de intelectuais que depois assumiram a liderança de todo pensamento ocidental.

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