Por um Wrestling mais real

Luiz Barros
Nov 3 · 4 min read
Um tratamento messiânico de um público que abraçou as contradições humanas.

A polarização na discussão do Wrestling surge como qualquer outra da nossa sociedade conectada. Somos predispostos a discutir em ambientes de conversa pela internet, que há muito tempo criam um cabo de guerra virtual entre fãs dos produtos oferecidos pelas grandes empresas e os que acham tudo muito cabotino e acabam optando pelo Wrestling alternativo apresentado no cenário independente.

A depender da influência pessoal que figuras importantes exerçam nestes espaços de conversa, cria-se uma segregação na comunidade e surge a polarização ideológica. Essa aproximação pode ser oriunda das crenças pré-adquiridas de uma pessoa ou mesmo seguir a lógica do “eu li isso primeiro, então isso é o que vale”. Quem chega agora, precisa escolher um lado para ficar deslocado nessa dinâmica coletiva.

Então me digam se há algo mais real a ser apresentado para um fã de Wrestling do que um enfrentamento que ilustrará, dentro dos ringues, toda a polarização da comunidade. Um homem que advoga pelas suas crenças e que quer tirar as luvas de seda do Wrestling para revolucionar o ambiente enfrentando aquele que cresceu na vida e conseguiu a oportunidade de ter um contrato com a maior empresa de entretenimento esportivo do mundo, um exemplo de como a meritocracia funciona. É um verdadeiro debate político e social apresentado como arte.

Foi isso que aconteceu no último dia 26 de Outubro no National Stadium de Dublin, Irlanda. O evento OTT Fifth Anniversary Show foi encerrado de maneira brilhante por um enfrentamento entre o OTT Champion Jordan Devlin e o desafiante David Starr. A culminância de uma história que já durava mais de um ano e que envolvia tantos aspectos reais que suspendia a nossa noção do que, de fato, era realidade.

Mas você pode me dizer que as polarizações são trabalhadas desde que o Wrestling ganhou essa veia de espetáculo. Você estará correto, mas foram raros os exemplos em que eu pude perceber as contradições de cada personagem nas histórias que estão aí nos registros. David Starr, apesar de lutar pelo cenário independente, deixou os interesses pessoais pela glória afetarem uma amizade duradoura com Jordan Devlin, este que começou sua carreira abrindo shows pela Europa e se tornou um dos principais expoentes do bom Wrestling apresentado por lá.

Ainda que você pinte um como o representante do bem e outro como o representante do mal, as contradições darão um toque de realidade que é raríssimo de ser explorado no Wrestling. Sempre se tentou deixar claro que havia um mocinho e um vilão, mas nunca se focou na análise das perspectivas e das motivações de cada um. Ora, o ser humano é composto por 70% de água e por 30% de contradições.

Ainda que o “nós contra eles” não seja uma novidade, eu particularmente nunca vi ele sendo trabalhado com tanta primazia técnica quanto foi com Jordan Devlin vs. David Starr. Desde a construção da história, que foi duradoura, de construção cuidadosa e cheia de elementos reais, até o auge em si que foi o combate, uma excelente performance interpretativa de ambos os lutadores. Eles conseguiram transmitir toda a carga emocional que foi trabalhada neste impressionante compilado em vídeo que foi disponibilizado pela empresa e que foi o suficiente para entender o que essa luta significaria.

Acima de qualquer crença ou de qualquer valor moral que se carrega do berço, o público que acompanhou o quinto aniversário da OTT estava imerso nas contradições. Em alguns momentos, pareciam estar completamente ao lado de David Starr. Em outras horas, odiavam suas atitudes e recordavam de todos os bons momentos que Jordan Devlin proporcionou. Tudo isso para explodirem de alegria quando o gongo soou pela última vez para coroar o verdadeiro Import Killer como o novo campeão máximo da empresa irlandesa. Tudo isso é porque ambos estão certos, é tudo uma questão de qual lado da esfera você estará olhando. O público vibrou, ao fim da noite, pelo Wrestling profissional.

Em algum momento talvez nós caminhemos para um consenso em que não precisaremos discutir algumas questões dentro da sociedade e nem dentro do Wrestling. No futuro, ninguém precisará gritar em megafones a importância de lutadores terem uma figura representativa que possa brigar pelo trivial direito ao descanso. Ainda assim, estamos longe de resolver essa história de quem é o bem e quem é o mal no entretenimento esportivo, se é que existirá este ponto final.

Quem tem dinheiro tem uma clara vantagem contra quem não tem. Independentemente do pacto de não-agressão que sua empresa possa oferecer para não prejudicar as empresas pequenas, no final do dia o lucro maior estará indo para os gananciosos cofres dos bilionários. É muito mais fácil transformar milhões em bilhões do que centavos em milhares.

Seja qual for a sua perspectiva diante desse espectro, é importante que você reconheça que toda discussão é necessária para que exista uma evolução. Ver uma empresa relativamente pequena como a OTT apresentando uma história tão real e com tantas nuances é gratificante e até surpreendente. Se você ainda não conhece o trabalho da empresa, deveria ter parado de ler esse texto há algum tempo e mergulhado de cabeça em algum evento.

David Starr vs. Jordan Devlin é candidata a luta do ano e é um exercício de metalinguagem que deveria ser mais explorado nos tempos atuais. A comunidade deixou de se importar com histórias caricatas que tocam superficialmente na realidade. Para que colocar chifre na cabeça dos lutadores quando o melhor adorno para qualquer crânio é a liberdade de pensar? Não é muito melhor deixar eles serem eles mesmos e promoverem algo que será relembrado pelos próximos anos?

Luiz Barros
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