Se eu não tivesse estudado, eu seria mais feliz?

Se eu não tivesse estudado tanto sobre economia para poder escrever um livro sobre o assunto, talvez eu pudesse acreditar que o comportamento econômico de um país capitalista periférico governado por neoliberais depende de suas próprias escolhas. Se eu não soubesse disso, eu seria mais feliz?

Se eu não tivesse estudado sobre a possibilidade de se combater inflação criando recessão, talvez eu pudesse acreditar que esse mecanismo faz parte do receituário do Banco Mundial, não estando, portanto, sob o controle dos governantes neoliberais das economias periféricas. Se eu não soubesse disso, eu seria mais feliz?

Se eu não tivesse estudado que a finalidade do erário é o suprimento de fundos para o fornecimento de bens e serviços para toda a população, talvez eu acreditasse que a criação de superávits primários para transferências vultuosas para o capital privado não se trata de crime lesa-pátria. Se eu não soubesse disso, eu seria mais feliz?

Se eu não tivesse estudado sobre política, talvez eu acreditasse que a corrupção brasileira está circunscrita a apenas uns poucos políticos de determinados partidos, que não é sistêmica e que o problema do Brasil se resolve trocando apenas figuras que estampam fotos oficiais de presidentes. Talvez, eu também pensasse que os políticos que estão nos representando não são nossa representação cultural real e que toda vez que votamos em alguém por amizade, por gostar do jingle ou por preguiça de pensar, não somos os responsáveis por esse país maltratar tanto seu próprio povo. Se eu não soubesse disso, eu seria mais feliz?

Se eu não tivesse estudado tudo isso, talvez eu pudesse ler os jornais e assistir os telejornais sem nojo, pudesse considerar futebol um assunto importante e pudesse pensar que eu poderia ser feliz, de verdade, na mais completa ignorância.