Anna Clara

EM FRENTE AO ESPELHO, esticando meu rosto, deu um lado para o outro, lembrei-me de quando éramos jovens e inocentes. Porque quando se é jovem, chamamos a má índole de fazer promessas e juras, de inocência.

Eu tinha quatorze anos, Anna Clara dezesseis. Ela falava-me de música e, eu de poesia, às vezes eu até falava de política, pra parecer mais homem. Mas apenas repetia o que ouvia de meu pai.

Minha mãe, falecida, que Deus a tenha, era madrinha de Aninha, éramos vizinhos naquela época, então nos víamos quase todos os dias. Corríamos na praia, conversávamos sobre tudo, pensávamos já ser adultos, porém éramos jovens, fazíamos promessas, jurávamos amor.

- Beto?

- o quê?

- Tu juras que não vai casar com outra, que não seja eu?

- Claro Aninha, eu amo-te!

- E tu? Juras que não vai casar com outro que não seja eu?

- Sim Beto, eu juro!

As memórias são engraçadas, tenho certeza que a beijei, logo após a primeira jura, mas posso ter apenas pensado em beijá-la. É o mais provável. Às vezes imaginação e a memória viram uma coisa só.

Um ano depois do talvez-beijo, víamo-nos todos os dias, não só quando minha mãe ia visitar, ou a mãe dela vinha. Marcávamos de ir à padaria no mesmo horário, benditas seis e meia. O ritual era comprar o pão, o leite, pagar, beijávamo-nos escondidos e, íamos pra casa, felizes, como quem rouba fruta do pé.

Não sabíamos, mas nossos pais, já sabiam do nosso amor-juvenil, achavam graça de nossa inocência. Bendita inocência.

Tudo mudou, quando meu pai achou que eu devia ir estudar em Portugal. Jurei que matar-me-ia, se me obrigassem a ir embora. Não me matei. Passei dois meses me despedindo de Aninha.

No primeiro ano em que estive fora, mandávamos cartas, sempre que podíamos, as minhas eram sempre mais longas, cheias de elogios e saudades, as dela eram curiosas, cheias de perguntas. Ver sua linda caligrafia, servia-me de consolo e afeto. Foi nesse mesmo primeiro ano em que estive fora, que a vi pela ultima vez, até hoje. Voltei para o Brasil, para ver meu pai. Minha mãe havia falecido, seu peito frágil, não resistiu à pneumonia. Mesmo com a lugubridade e sofrimento da ocasião, senti uma apresso mórbido, na alegria de ver Aninha de novo.

Fui a sua casa um dia antes de voltar a Portugal, sua família e empregados, deram-me seus pêsames. Cumprimentei todos, e agradeci os elogios dados a minha mãe. Mesmo na época, parecendo-me muito errado, agradecer por alguém morto, mesmo que fosse minha amada mãe. Ainda parece-me errado. Mas não importava, o que eu realmente queria, era ver Aninha, antes de voltar, na minha cabeça parecia que, talvez os seus pêsames valessem mais.

Um empregado foi chamá-la. Ela não terminou de descer a escada, me viu, e voltou correndo para o quarto, parecia ter visto um fantasma. Ela estava pálida, e despenteada, ainda sim linda, como um botão flor, que ainda não é flor, mas tem a essência duma.

Seus pais desculparam-se por ela.

- Não ligue Beto, Aninha sentiu muito a morte da madrinha.

Eu não me importava, minha única angustia era ir embora sem ouvir sua voz

Quando voltei para Portugal, escrevi a ela, assim que pude. Mas não houve resposta. O mesmo aconteceu com todas as outras cartas que a enviei. Depois de certo tempo, perguntava a meu pai, disfarçadamente por ela, quando o escrevia.

“… E dona Marta, Rubens, Anna Clara, como estão?…”

Durante o tempo que morei fora do Brasil, me formei em direito, trabalhava em um escritório em Lisboa, conheci outras mulheres, mas nunca mais amei.

Decidi voltar para o Brasil, quando surgiu uma proposta para trabalhar em um escritório de advocacia, de um amigo do meu pai. Já não era hora, estava entusiasmado como nunca, voltaria para o Brasil, casar-me-ia com Aninha, cumpriríamos nossas promessas e juras de amor.

Antes de voltar, mandei-lhe uma ultima carta. Quando obtive resposta, fiquei feliz como quem beija as escondidas, depois de sair da padaria, na carta, mais longa que as de antigamente, mas não menos curiosa, ela fazia perguntas e dizia ter saudade.

Faria uma surpresa. Quando ela menos esperar, estarei a sua porta, com um soneto e um buque de lírios.

Porém, quem ganhou uma surpresa fui eu. Já na esquina de minha antiga casa, fui caminhando, pensando na surpresa que meu pai também teria ao me ver, já que não tinha avisado, quando chegaria, observei vindo em minha direção, uma linda mulher, uma que o botão de flor já não faz jus. Aninha caminhava em minha direção, devia estar indo visitar meu pai, seu padrinho, ou indo à confeitaria. Não importava. Não trazia os lírios, mas, carregava o soneto na algibeira da calça. Caminhei, com um sorriso inefável.

Ela veio em minha direção, olhou em meus olhos, e continuou andando. Passou por mim, pela casa de meu pai, pela confeitaria.

Aonde iria? Não sei, mas já não importava, cheguei a casa, com um soneto na mão, e a duvida, de se o tempo mudou-me muito a cara, ou o amor de Anna Clara.

Maldita inocência.

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